sábado, 28 de novembro de 2009

Fotos aéreas de Marabá

Resolvi postar aqui umas fotos lindas, a chegada na cidade de Marabá. Espero que gostem.

Olhem que azul lindo da janela do avião!


Essa é na chegada em Marabá, a ponta de terra onde fica a cidade velha.


Aqui o rio que corta Marabá, perto da cidade nova, perto do aeroporto.



Espero que tenham gostado das fotos. Da próxima vez tiro muitas para postar aqui.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Palavra do Dia n.º 10

A palavra de hoje ganhará pela estranheza e simpatia! Assim, o prêmio vai para...

sizígia

(latim syzygia, -ae, conjunção)
s. f.
Astron. Conjunção ou oposição do Sol com um planeta.
maré de sizígia: maré que ocorre na lua nova e na lua cheia, quando, devido à conjunção da Lua e do Sol, as marés altas são maiores e as marés baixas são menores.

Textos pequenos da janela do ônibus

Marabá, 19 de novembro de 2009

Em Rio Maria paramos na loja da empresa de ônibus quando entra um vendedor, rapaz estranho com sorriso bobo no rosto. Ele grita: “Olha picolé, sorvete... Olha picolé, sorvete...” Alguém pede sorvete e ele responde: “acabou sorvete, só tem picolé.” Leva bronca o vendedor que sai fino do ônibus, fingindo que o ralho não é com ele, o grito que continua: “Olha o picolé, sorvete...

O senhor no banco atrás do meu atende ao celular, a voz alta ao falar com “sua morena.” Diz que está na estradona e pede almoço gostoso pois está com fome, o fraco café da manhã de Redenção. Diz que ama, que está com saudade. Desliga! Alguns minutos e o celular toca novamente. Na mesma voz alta fala agora com “sua loirinha.” Diz que não demora para voltar a Redenção e que ela espere. Fala da noite deliciosa e do café bom, na cama. Diz que ama, que está com saudades. Desliga!

Em Pau d´Arco tem o Hotel Pai Herói, bem na beira da pista! Em Xinguara funcionam o Bravos Hotel, o Hotel Uai e o Hotel Boa Idéia, e se quiser comer escolha a Churrascaria do Delírio. Em Eldourado dos Carajás opte pelo Dormitório Legal. Já em Rio Maria a melhor escolha é o Dormitório dos Amigos. Na localidade de Gogo da Onça não encontrei opções, então melhor não pernoitar lá! E se for em Redenção procure o Pit Dog do Bundinha! Não sei o que é, não sei como funciona, mas registrei para vocês!

Palavra do Dia n.º 9

E a palavra ganhadora de hoje é...

Sacrifício
| s. m

1.Oferta solene à divindade, em donativos ou vítimas. 2.A morte de Cristo. 3.A Missa. 4.Imolação de vítimas em holocausto. 5.Abandono forçado ou voluntário daquilo que nos é precioso; renúncia.6.Abnegação; isenção.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Anarquia

Marabá, 19 de novembro de 2009

Há motoqueiros com e sem capacete; há motoristas com ou sem cinto; há motocas com ou sem placa; e todos fazem o que bem querem! Leis de trânsito devem haver, mas quem as fiscalize não há. E assim é o trânsito de Redenção, igual ao de tantas outras cidades, igual ao de Belém, acréscimo de poeira e calor seco, além de o dobro de motocicletas!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Músicas que não escolhi

Vôo 1800 da Gol, 25 de novembro de 2009

Para decepção de alguns não topei com Hare Krishnas em mais esta andança, a tradição que se quebra, minhas viagens sempre ao lado de religiosos. Piorando a situação, vôo vazio geralmente não rende texto interessante, a falta de vizinhos com suas vidas únicas, tudo pronto para ser relatado aqui! Mas por sorte me deparei com sujeito estranho o suficiente para algumas linhas, então vamos lá:

Já na sala de embarque noto a chegada triunfal do sujeito cabeludo e alto, os tufos presos por fita ou travessa, uma pretendida pinta de galã frustrada pelo aspecto sujo e desleixado, a camisa de um branco encardido, o amarelado que revela o tempo, o rosto brilhante de suor e gordura de um dia inteiro. Era a cara do agora Deputado Federal Frank Aguiar, o antigo Cãozinho dos Teclados, e trazia em uma das mãos embalagem de formato singular, toda feita com sacolas plásticas de supermercado. Na outra mão, um celular!

Em pé na sala lotada, o sujeito passa a vista em todos nos, o olhar talvez sedutor, demorado e meticuloso quando mulher sob a vista, o gavião que tem certeza do bote. Mas ninguém liga e nem dá bola, e o amigo resolve então se aquietar e se esparrama a quase deitar na cadeira vazia mais próxima. Foi então que resurgiu o celular, maldita máquina de fazer doido que prontamente foi colocada para matraquear, o brinquedo na mão da pessoa errada, o mal educado certo. Fomos brindados então com A-Ha, Hunting high and low, o máximo som do pequeno aparelho, a perna agora dobrada e a mão no queixo, maior cara de “coitado de mim, cuidem de mim!” Nós, os demais, o entreolho geral perplexo com o sujeito que obriga todos à audição, o volume que incomoda às cinco da manhã. Agora escutamos Bryan Adams, Please Forgive me. A senhora ao meu lado, visivelmente irritada, sugere: “que tal se a gente comprar um fone para esse cara de pau?” mas ninguém faz nada, todos ainda com muito sono para reagir! E agüente mais Bryan Adams, Everything I Do.

Atenção passageiros do vôo 1800, Gol Varig, com destino a Brasília e escalas em Marabá, embarque autorizado no portão de numero três.

Com o tropel de praxe rapidamente se forma a gigantesca fila em frente ao embarque. E o colega muda novamente de posição, agora o rosto para o lado, aparência de mágoa com as mulheres que ali estavam, ninguém que tenha lhe dado bola, a tolice e birra do fracassado e sebento sedutor que esperava um “vem cá meu bem... não fica assim...

Embarcamos tranqüilos ao perceber que o barulhento não viria no mesmo vôo, a senhora do meu lado ainda irritada, resmungando, querendo chamar a segurança do aeroporto... E ele ficou lá, sozinho, escutando no último volume Cyndi Lauper... Time after time.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Carro ou taxi?

Hoje o trânsito foi o principal assunto deste blog, pelo que surge o questionamento: carro ou taxi?
Vamos ao caso concreto: em breve morarei em endereço mais próximo do trabalho! Com a mudança veio a vontade de não mais usar o carro, o trânsito de Belém que se tornou insuportável, o tempo perdido andando tal qual jaboti. Fiz o teste: vir para o banco, oito minutos em média. Ir para casa, cinco minutos em média. A distância é curta e impossível de ser feita andando, o terno preto que atrai a quentura do sol e me ferve, advogado água e sal. De taxi, média de oito reais o trajeto.
Será que somados gastos com flanelinhas e gasolina, além de menos aborrecimento, o taxi é mais vantajoso? Opiniões e sugestões serão bem vindas.

Transporte Alternativo

Os perueiros resolveram paralisar suas atividades hoje, dia 24 de novembro de 2009, buscando com isso forçar o Município a regulamentar a atividade! Pretendiam com isso pressionar criando caos no transporte público, ônibus que não dariam conta do sufoco! Mas não vejo paradas lotadas nem caos. Muito pelo contrário: está tudo em ordem! Falharam na pressão, o que me faz questionar: voltarão a pressionar da forma usual, bloqueando ruas e avenidas (isso sim capaz de gerar verdadeiro caos em Belém)?
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Na ORM:
"Após carreata na madrugada desta terça-feira (24), cerca de 450 perueiros, entre motoristas e cobradores, estão acampados em frente à Prefeitura de Belém para pedir, junto ao superintendente da CTBel (Companhia de Trânsito de Belém), Alfredo Sarubby, a regulamentação do transporte alternativo. As reivindicações serão expostas em reunião no gabinete do prefeito."

Hoje

O dia que promete ser corrido e já começou bem: batida na lateral do meu carro! Ainda me resta visita à obra do apartamento, encontro para tentar fechara acordo na questão complicada, dia cheio para deixar tudo arrumado para viajar amanhã, visita à filha doente. E por fim, quatro da manhã, avião! Maravilha de dia, mas não reclamo não, não reclamo não...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Por conta de um Pokemon Card

Vi esse no Etc S/A e não pude deixar de postar. O melhor é o comentario: "Se o diabo existe, deve ser parecido com isso aí."


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Blastooooooise, blastoooooooise...

A mira permanente

Belém, 23 de novembro de 2009.

Certas coisas me embrulham o estômago!

Uma delas, quem sabe a maior de todas, são pessoas que têm consciência de sua falta de ética, de terem o caráter podre, e não se importam com isso. Temos então o grande pilantra, o devedor de metal e de moral que sabe estar fazendo calhordices e não se importa, flana e baila pelos cantos como se fosse o bom, a pessoa bacana que de todos recebe elogios, aquele que se admira. Minha mãe sempre disse que para conhecer alguém de fato são duas as situações: morar e viajar junto!

É verdade!

Dividindo o mesmo teto sabemos como a pessoa se comporta na intimidade, como ela é quando não tem ninguém olhando, o momento em que ela pode ser sua essência, o “não se importar” finalmente solto! Nada melhor para descobrir sobre o caráter de uma pessoa do que a louça que acumula na pia, o banheiro que fede a mijo, o lixo que entope no cesto com sujeira sua; tudo isso solenemente ignorado com o fingimento do “não ver” e “não sentir”, a pessoa que deixa de beber água por falta de copo limpo, a inacreditável incapacidade de lavar os que ocupam a pia.

E viagem geralmente é momento desgastante, as situações de estresse e cansaço que levam a pessoa ao último grau de seu disfarce, a mascara que cai diante dos pés que doem e da mala que pesa, da espera interminável e do dinheiro que acaba. Já conheci quem “esquecesse” sua mala, descaramento mais completo, a certeza de que o outro perceberia o deslize e providenciaria a subida, os degraus intermináveis com a mala nas costas, o fardo que chega recebido por interjeições de espanto e surpresa: “como pude...?”

Pôde! Isso basta!

Nestas pessoas o melhor é o “não poder se esconder para sempre”, a finíssima mascara de cera que se desfaz com o calor da patifaria, a cera que derrete e escorre pela cara ao invés de lágrimas de arrependimento que nunca virão! E ao se revelarem, surge-nos a possibilidade de afastar do murro, o soco certeiro sempre mirando a boca do estômago, justo o golpe que embrulha e anseia o vômito!

O que mais me choca é não conseguir realizar tais maldades caladas alma e boca! Quando as fiz, pois sou capaz de muitas ruindades, vi meus atos e não me reconheci, sobretudo a vergonha de minha mãe com sua primorosa tentativa de educação, tanto esforço, e eu jogando tudo fora. E quando percebi o erro, e fatalmente percebi, calado chorei e arrependi, tentei atitude qualquer que resolvesse, que acalmasse. Hoje não sei se consegui sempre, em alguns casos sei mesmo que não, mas pelo menos reconheci o erro, me nomeei canalha em tudo e, mesmo assim, não dormi bem minhas noites, a cabeça que afundava pesado no travesseiro, a esganadura dos pensamentos difíceis de engolir.

Por isso tudo me pergunto: como eles conseguem dormir bem, acordar pela manhã e dizer “bons dias?” Não sei como fazem mas sei que conseguem! E vamos vivendo os nossos dias, o olhar atento e vigilante, sempre presente a ameaça do soco que mira insistentemente a boca do estômago!

Etimologices n.º 2

Da série Etimologices, vamos de geografia brasileira:
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O nome Ceará vem do tupi Sy Ara (literalmente, "mãe da luz"), que é a designação para a luz do dia. E por ser uma terra mui ensolarada, com pouca vegetação, esparsa (o que significa poucas sombras), o Estado acabou assim nomeado.
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Salvador, capital da Bahia, vem de sentido literal referente a um dos nomes cristãos-católicos de Deus. A curiosidade é que o nome inteiro da cidade era "Mui Leal Cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos". Ainda, em inglês é comum que a cidade seja chamada Salvador de Bahia, forma de não se confundir com San Salvador, capital de El Salvador, na América Central.

domingo, 22 de novembro de 2009

Eu e Maria

Trecho de reportagem de hoje, domingo, no Amazônia Jornal (Pai e filhos em um laço forte)!

'Ela me ajuda a escolher as minhas roupas'

'O pai pode, sim, ensinar coisas que a mãe não consegue. E não se trata de incapacidade da mãe, mas sim de experiências vividas pelo pai, pelo homem', afirma o advogado paraense Fernando Gurjão Sampaio, 31, que sempre esteve presente na vida da filha Maria Fernanda, 8, desde sua gestação. Cumplicidade, amizade e companheirismo marcam o relacionamento de pai e filha. 'Ela me ajuda a escolher as roupas na hora de sair, conversamos sobre o colégio, os colegas, os professores. Somos bem sinceros e temos uma série de planos juntos, coisas que pretendemos realizar.'

Maria Fernanda mora com a mãe, mas durante a semana Fernando procura oportunidades para estar com a filha. 'Sempre que posso, durante a semana, tento pegá-la no inglês ou levar sushi para o jantar dela. Juntos brincamos, vamos ao cinema ou pegamos um DVD para assistir. Uma criança surge de um pai e de uma mãe; então a falta de um deles deveria ser algo impensável, um fator que deixaria lacuna na vida da criança. 'Com a relação de amizade Fernando espera que a filha encontre nele alguém em que possa confiar e que divida novas experiências. 'Sempre fui contra os pais que brigam com os filhos por coisas que são naturais. Prefiro que ela me conte, tendo certeza não de uma bronca feia, mas de um conselho, de uma atitude de amigo, que a ajude.'

As fotos são do amigo e grande colaborador, Wagner Mello.

sábado, 21 de novembro de 2009

Eco e a Morte

Trecho de reportagem de Umberto Eco à revista Der Spiegel:

Der Spiegel (Susanne Beyer e Lothar Gorris): Por que nós perdemos tanto tempo tentando concluir coisas que não podem ser realisticamente concluídas?
Umberto Eco
: Nós temos um limite, um limite muito desencorajador e humilhante: a morte. É por isso que gostamos de todas as coisas que acreditamos não ter limites, e que, portanto, não têm fim. É uma forma de fugir dos pensamentos sobre a morte.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nem adianta negar...

Alguma merda o leaozinho fez!

Em Redenção, Gritos e Avon!

Marabá, 19 de novembro de 2009

Odete não era maluca! Ficou assim depois que perdeu o filho assassinado...” Quem me conta isso é Maria de Nazaré, ou simplesmente a Irmã do Perfume, “mas Irmã do Perfume morena, por que tem outra irmã que vende Avon aqui no terminal, e essa é branca.

Odete é a mulher que vi pelas ruas de Redenção andando a esmo, gritando seu desespero a pleno pulmão para todos. Na vinda à rodoviária a vi mais uma vez, o choro copioso em pleno sol e poeira da cidade, os olhos vermelhos. E sua dor virou riso descontrolado quando percebeu que eu a observava da janela do táxi, a mudança de humor que assusta por ser medida exata da loucura. A reencontrei então já no terminal rodoviário: esperava o ônibus que me levaria a Marabá quando ela entrou precedida por gritos desconexos, início de peregrinação sem objetivo, o caminhar de um lado ao outro segurando um saco plástico cheio de flores! E os gritos começaram a ter algum sentido:

“Não vai ter mais passagem até dia 28 de dezembro! Vão embora... Acabou...”

Foi nesta hora, na aparição da mulher que gritava, que a Irmã do Perfume também surgiu e me ofereceu Avon. Ela viu que tirava fotos da mulher, discreto, e resolveu sentar ao meu lado para contar o que sabia: “Ela já foi minha vizinha, assistia ao culto comigo. Depois o filho virou bandido, único filho. Morreu novo, baleado, não tinha nem 20 anos... Desde então a Odete vive como louca, largada... Só tinha ele no mundo!” Odete passa novamente e levanto para mais fotos, infelizmente todas desfocadas pelo malabarismo da discrição, a máquina aninhada entre os braços de forma errada.

“... acham o quê? Isso é tudo culpa da política...”

Sento novamente, a Irmã do Perfume ao meu lado olhando cheia de piedade a mulher que um dia dividiu consigo o mesmo banco de igreja.
E a senhora, Dona Nazaré? Me fale da senhora!” A Irmã do Perfume mora em Redenção desde 1983 vinda de Brejinho, Maranhão, a família toda deixada para trás, família nova feita no Pará. Vende seus Avons há 15 anos e, com a venda, se mantém e criou as duas filhas, uma delas agora na Espanha, estudante. O marido recentemente se acidentou, a perna quebrada após ter sido colhido por carro, o arriscado pedalar no trânsito maluco de Redenção. E como ele trabalhava na roça, pedacinho de terra que eles têm, cabe a ela agora fazer todo o dinheiro, a missão redobrada nas ruas com a sacola pesada, cheia de Avon, que caleja o ombro: “Ele está de cama e eu tenho que segurar as pontas, né?

Malditos sejam! Vão pagar caro por tudo!

Com Odete parcamente registrada, peço uma foto à Irmã do Perfume: “Prefiro não! Nunca fico bonita em retrato!” Diante da insistência ela cede, faz pose e ri: “O senhor vai colocar isso na internet, é? Acredita que eu nunca entrei na internet?” e ela me pergunta como faz para mostrar à filha distante: “Assim ela pode ver minha foto!” Escrevo o endereço do Domisteco em pedacinho de papel e compro um Avon, desodorante novo para meu kit de viagens, o meu que está quase no fim! E não deixo de pensar em Odete, a mulher que ainda grita pelo terminal e pela cidade, a dor por ter perdido o único filho, a morte que endoideceu a mãe: “Não se preocupe com ela... Logo mais ela some, vai deitar no túmulo do filho e arrumar as flores que colheu para ele! Fica lá, conversando com o menino e depois desaparece... se aquieta em algum canto!

Fotos: Fernando Gurjão Sampaio

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Palavra do Dia n.º 8

Sem muito papo, a palavra de hoje é...

Redenção
s. f.
Ato ou efeito de redimir; Salvação; Resgate; Libertação; Auxílio.


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Missionários, prego na estrada e índios

Redenção, 17 de novembro de 2009.


No avião, sento ao lado de duas missionárias de igreja evangélica qualquer, meia idade estampada nos rostos, frases rápidas e voz alta. A que está ao meu lado, poltrona do meio, aparenta extrema calma. Já a outra, na janela, parece nervosa, oração que não pára, o medo revelado nas palavras cada vez mais exaltadas...


“Pai! Em tuas mãos entrego minha vida e este vôo...”

A que não prega continua a conversar comigo. Conta ter vindo de Fortaleza ainda muito nova, se chama Paula e vende perfumes nas horas vagas, o evangelho sendo sua real vocação. Me explica que vai a Marabá visitar famílias, programa da igreja para ficar sempre ao lado de seus crentes...

“...a sua misericórdia é imensa, meu Deus...”

Me conta que pretende ter sua própria fábrica de perfumes, acabar com essa história de enriquecer os outros...

“...e confio nas tuas palavras sagradas, Senhor...”

O homem do meu lado, no outro corredor, olha-me com pena e reprova a fé da missionária que ora, a voz altíssima que perturba a todos. Para meu espanto ele próprio puxa papo comigo, palavras críticas e provocativas às minhas companheiras de vôo, algo que entendo como afronta desnecessária. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar, fecho os olhos e tento dormir sem brigar com ninguém.
(...)
O táxi voa e me deixa no Terminal e Feira Miguel Pernambuco, também conhecido como Rodoviária do Três. Pelo nome, fiquem livres para imaginar o que bem quiserem sobre o local, mas eu vou ajudar: são 06h30min e o Terminal já está sujo, restos de comida pelos cantos, copos e garrafas plásticas largadas por tudo. Há uma revoada de moscas que busca se alimentar, bichos que me impossibilitam de escrever, braços e mãos feito pista de pouso! Mudo de lugar duas, três vezes... Desisto! Parece que sou o único que se incomoda, os outros passageiros em estranha letargia, a sucessão de ônibus e vans sujas no pátio, o embarque constante de móveis, caixas e crianças, a miséria estampada em tudo!

Meu ônibus chega com pequeno atraso, o radiador quebrado perto de Marabá, problema rapidamente contornado pelos mecânicos da empresa. Embarcamos, mas são poucos os lugares vagos, ônibus cheio de gente disposta a encarar em pé as seis horas de viagem! Consigo uma poltrona, sento e rapidamente durmo, sono leve que termina duas horas depois com parada repentina em posto de gasolina no meio do nada. “O radiador quebrou de novo”, me explica um companheiro de infortúnio. Descemos todos e montamos acampamento em uma sombra, o motorista e seu co-piloto metidos sob a carcaça de metal tentando reparar o carro. Ao percebere que a luta tinha acabado, derrota do radiador, o motorista larga os passageiros na churrascaria de outro posto de gasolina, já em Xinguara, enquanto o ônibus era levado à garagem, solução definitiva do problema, prometiam! O almoço era pouco, restaurante pobre de opções, quase tudo só feijão e arroz.

Optei por dividir a mesa com família de índios que estava no mesmo ônibus que eu. O pai se chama Dudu Kayapo e estava viajando com suas
filhas, Nhaprati e Ngrenhmoro Kayapo, voltando de São Felix do Xingu, festividade de outra aldeia. Pretendiam chegar em sua casa, na aldeia Lascasa, em Pau d´Arco, ele cansado da festa e do cuidar das meninas. Elas não falavam português mas entendiam bem! Perguntei ao pai se podia oferecer picolés às meninas, ele permitiu e elas vibraram. Mas as pequenas não sabiam como tirar os envelopes plásticos, tarefa executada por mim. Por fim pedi uma foto das filhas, as duas muito bem comportadas e simpáticas. O pai respondeu feliz: “Claro que pode fazer a foto! Mas quero ver, depois.” Fotos tiradas e aprovadas, voltamos correndo para ônibus recém chegado, o motorista que buzinava impaciente reunindo seu rebanho maltratado. Me restava uma hora de viagem até Redenção e muito sono acumulado.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Palavra do Dia n.º 7

Amanhã vou rever meu filho, cria distante, distância que mutila o pai de saudade. Por isso, o prêmio de Palavra do Dia vai para...

Avião | s. m. Aparelho de navegação aérea mais pesado que o ar, munido de asas e de um motor a hélices ou a reação.

Avião...

Pito de Dona Canô

A declaração foi: "Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla. É inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro." Caetano foi grosso? Dona Canô acha que sim!

Segundo o sitio
Terra, a mãe dos Veloso vai ligar pessoalmente ao Presidente da República, nesta segunda-feira, oportunidade em que pedirá desculpas pela declaração do filho.

Minha opinião: foi grosso sim! Digna a mãe!

sábado, 14 de novembro de 2009

Kiwi

Veja!
Quem tudo quer, tudo consegue!

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Formigueiro

Hoje estive no formigueiro de gente que se tornou a Feira do Livro! Poucas coisas interessantes, preços normais, porém confesso que não procurei muito. Preocupado em não me perder dos que me acompanhavam, constantemente levados pela multidão, não perdia muito tempo em local nenhum. Mas cada vez mais sinto menos vontade de visitar a Feira.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

18ª Revista de Cultura do Pará

Foi lançada hoje, sexta-feira, 13 de novembro de 2009, a 18ª Revista de Cultura do Pará, publicada pelo Conselho Estadual de Cultura com apoio total, para seu nascimento, da Universidade Federal do Pará. A revista é primorosamente bem editada e navega pela literatura, antropologia, filosofia, história, informática, memória e poesia. O lançamento ocorreu na sede do Conselho, na Rui Barbosa, subsolo do prédio do Centur. E a Secretária de Cultura? Bem! Não ajudou em nada o nascimento da cria duramente parida. Foi triste escutar os relatos de penúria repassados por vários Conselheiros: o lançamento ocorreu no auditório do Conselho somente por que lâmpadas foram retiradas de outros cômodos; as longas sessões e os poucos funcionários são mantidos com lanches comprados pelos próprios Conselheiros; e o coquetel de lançamento, hoje, só ocorreu mediante coleta de 70 reais de cada um dos que fazem parte do Conselho. O Presidente do Conselho conta que tudo já foi relatado ao Secretário de Cultura, mas que ele simplesmente fez ouvidos moucos. Ou seja: falta tudo ao Conselho, menos descaso. E, mesmo assim, nos brindam com bela revista. Parabens!

Polícia apreende 60 kg de carne de cachorro e gato vendida a restaurantes de São Paulo

Pois é!

Esse é o título da
matéria da Folha de São Paulo.

Aí vai um resuminho: Casal tinha um matadouro clandestino onde abatiam cães e gatos. Atraiam os bichos na rua com comida e deixavam engordar por um tempo. Gordos já, abatiam com machados, limpavam e vendiam as carcaças para restaurantes coreanos. Preço? Entre R$ 180 e 220 a carcaça já limpa.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Abandonado

Belém, 12 de novembro de 2009.
O morador de rua senta ao meu lado, já meio trôpego, cabelos desgrenhados e sujos, a pele escura cheia de tatuagens, bermuda velha e sem cor que mal lhe cobre as partes. Quando se aproxima carregando uma trouxa, inevitável não sentir medo, Praça da República no meio da noite onde tudo é suspeito e perigoso, incerteza se do fardo vai sair arma ou troço qualquer. Mas ele senta e fica quieto: o ensaio começando, atores se aquecendo e ele atento aos preparativos. Tranqüilizo! Os palhaços começam o show e ele ri, vez ou outra bebendo da garrafa de cachaça saída não sei de onde. Resolvo analisar suas reações e noto quando ele, no meio do ensaio, passa a olhar vidrado para o movimento dos atores, parece que olhando sem enxergar, o ver por ver de viagem triste e solitária por lembranças. Tive vontade de perguntar no que pensava, se lembrava de alguém ou de tempo bom, mas antes que pudesse fazer isso ele levantou e partiu, mais trôpego do que antes, a pequena garrafa de aguardente quase no fim. Num momento pensei que ele desabaria pelas escadas, mas seguiu partindo, rumo zonzo à escuridão! Não sei se esteve conosco pelo teatro, curiosidade pelos palhaços que surgiam no meio da praça, ou se queria apenas ficar perto de gente, vontade única de não ficar só em alguma toca arranjada pelos jardins da República. Só sei que ele foi breve tal qual este texto, marcando-me pela tristeza do olhar e pelo abandono que me revelou, casa velha largada por todos que não lhe vêem como útil!
Fotos: Wagner Mello.

Giro Cultural

Este final de semana será intenso, com opção para todos os gostos: tem Se Rasgum, show do SOJA e Back to the Past (para quem gosta de fritar). Também tem coisa muito boa, infelizmente pouco divulgada. Para provar o que digo, minha sugestão:

De 13 a 15 de novembro - Giro Cultural 2009, circuito itinerante que promove amplo acesso à produção artística do Pará. As atrações principais são o Gambá de Almerim - Família Castro e o grupo Rabecas de Bragança. Além deles, rodas de choro, mostra de curtas "Amazônia Animada", espetáculos teatrais, dança e, no final, show com Sebastião Tapajos e Nego Nelson! Tudo na Estação das Docas, galpão 03.

Confiram a programação toda:


A notícia toda vocês podem conferir aqui!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Tribunal de Justiça do Pará acolhe pedido de intervenção federal no Estado

O Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJ-PA) decidiu acolher o pedido de intervenção federal, feito em março deste ano, para o cumprimento de mandados de reintegração de posse de fazendas invadidas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), pedido acolhido na manhã de hoje (11) por 21 votos a favor e um contra. Segundo o Espaço Aberto, o único voto contra foi da desembargadora Maria Helena Ferreira. A decisão ainda deverá ser ratificada pelo STF, sendo que a palavra final será do Presidente da República.

Palhaços Trovadores

Belém, 10 de novembro de 2009

Passei noite agradabilíssima no ensaio aberto da peça O Mão de Vaca, convite carinhoso do Marton Maués, espetáculo que será encenado pelos Palhaços Trovadores em fevereiro de 2010. A peça é adaptação de O Avarento de Moliere, texto antigo com tema sempre atual, a usura e o apego ao dinheiro mostrados de uma forma cômica. O local do ensaio não poderia ser melhor: o anfiteatro da Praça da República em noite tranqüila e serena, ponto da cidade que é tido como impossível por muitos, medo de violência que muda os caminhos.

Palhaços presentes, cada qual com seu banquinho, sacolas e adereços no chão, tem início uma conversa restrita com os integrantes da trupe, todos reunidos nas escadarias do palco a céu aberto, hora de palhaço falar sério e arrumar a casa.

Terminado o papo começa um processo de transformação, cada qual em metamorfose para incorporar seu personagem. E quanto mais se vestem de palhaços, mais curiosos chegam ao local, todo o tipo de gente formando público heterogêneo, público ideal para o teatro. Ao nosso lado se instala uma família, pai e mãe namorando, os filhos ao redor rindo das peraltices do atores. Do outro lado um grupo de estudantes, meninos ainda, todos calados e respeitosos. Há ainda um morador de rua que ri bastante de tudo, atento. E por todos os cantos muitos curiosos, passantes que arranjam um tempo para ver a arte que se faz.

No meio do ensaio, diretor e atores se deparam com dúvida sobre como encenar determinado diálogo. Dúvida surgida, solução fácil na manga – os palhaços se dirigem ao público e perguntam: “O que vocês acham? Como vocês acham que devemos fazer?”. Surpresos, pegos da supetão, poucos ousam uma resposta. Mas basta uma opinião para que todos comecem a dar seu palpites, teatro em praça pública, teatro para o povo (nesta hora pensei: quantos aqui já devem ter ido ao teatro? Poucos, certamente. E hoje estão aqui, público que também é diretor, ator, palhaço).

No final, gostei muito do que vi! Os Trovadores mostrando atitude, teatro feito sem a hipocrisia de ser somente elite, teatro que sempre é bom e de todos. E fico feliz por perceber que, apesar de sempre inovar, os palhaços continuam fazendo o que sempre fizeram – bom teatro e bom riso!

Notas práticas - No sábado, 07 de novembro, os Palhaços Trovadores comemoraram 11 anos de atividade com uma bonita festa. Neste 2009 eles ganharam uma sede própria que precisa ser reformada. E em 2010 serão tema da Escola de Samba Bole-Bole, o enredo Palhaços Trovadores: A Poesia do Riso na Passarela do Samba. Haverá uma ala reservada para os amigos, a Ala do Patarrão (em homenagem ao espetáculo "A Morte do Patarrão"), e desde já todos estão convidados.

E os ensaios continuam abertos, todas as terças e quintas, sempre perto das 20 horas no anfiteatro da Praça da República. Os Palhaços, como sempre, de braços abertos!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Uniban

Cliquei no link disponível no Flanar, postado pelo Yudice, e me assustei: um raio-x da Uniban, Universidade Bandeirantes. Confiram!

Muito bom


Enquete fraudada!

No dia 26 de outubro informei sobre uma enquete no sitio do Senado. A pergunta era: “Você é a favor da aprovação do Projeto de Lei (PLC 122/2006) que pune a discriminação contra homossexuais?”. Informei também que na votação ganhava o NÃO, ou seja, que a discriminação não fosse punida! O post foi bem polêmico, e tal polêmica acaba se revelando em tudo: hoje me espanto com a seguinte matéria, no Portal Imprensa – “Hackers atacam enquete do Senado sobre lei contra discriminação de gays”. Segundo a notícia de Eduardo Neco, em uma hora e meia foram computados cerca de 250 mil votos, sempre com o não na dianteira. Em dois dias e meio, já era meio milhão de votos (“Até então, a pesquisa mais votada tinha obtido cerca de 360 mil votos, mas em um período de trinta dias”). A enquete seria zerada por não se conseguir separar voto válido de voto hackeado, mas até hoje, no sitio do Senado, estava fora do ar. Mas a matéria já foi aprovada pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Desexpulsão

Sinceramente! A emenda é melhor que o soneto?

Depois de expulsa, Geisy agora foi desexpulsa! Segundo conta Josias de Souza, o Reitor reviu a decisão do Conselho Universitário e "dará mlhor encaminhamento à decisão".

Alguém tem que ajudar esses caras! Eles estão completamente perdidos...

Ruffia

Já estive na Itália uma vez! Mas foi viagem tão corrida que deixei de conhecer coisas fundamentais. Por exemplo, não conheci Roma, eu bem ao norte e, ela, bem ao sul. E como morava pertinho, meti na cabeça que dentro em breve voltaria lá e faria tudo que não fiz! O tempo passou, voltei ao Brasil e, desgraça, não conheci Roma! E sempre que falo sobre viagens, assumo minha mágoa por tal falha, objetivo firme de voltar, assim que puder, e ver o que não vi. Dia sete de novembro é comemorado o nascimento de São Pedro de Ruffia. Assim como São Francisco de Assis nasceu em Assis, São Pedro de Ruffia nasceu em Ruffia, uma pequena comuna italiana da região de Piemonte. O Piemonte é outra região da Itália que não conheci, e tenho muita vontade de fazê-lo pelos comentários de quem já foi, de ser região das mais belas e charmosas, montanhas e campos floridos, comidas boa, tudo terminando em festa na capital, Turim. Ruffia tem somente 311 habitantes, segundo informações colhidas na rede, e talvez não seja um local muito animado e procurado. Mas certamente será um dia muito feliz quando lá estivermos!

domingo, 8 de novembro de 2009

Tecnobrega

Enquanto escrevo, escuto Viviane Batidão tocar Galera da Golada, tecnobrega dos bons, cheio de samples e efeitos sonoros. E antes que achem que escrevo de alguma sede de clube, dessas onde acontecem festas de aparelhagem, explico: estou no conforto do meu lar escutando a Rádio Uol, um dos maiores arquivos musicais da internet brasileira.

Cheguei até essa seleção de música paraense, com 92 das mais tocadas atualmente nas aparelhagens, por meio de um link que encontrei na janela com notícias que se revezam, na página principal do Uol, intitulado – Guetos do Pará, Veja o filme “Brega S/A" e ouça os hits do tecnobrega, de Belém.

Ao clicar também fui direcionado para matéria intitulada "Tecnobrega é trilha sonora da periferia de Belém do Pará; veja o filme ´Brega S/A´ e ouça os hits do estilo“, que é boa de ser lida por não tratar o estilo musical como algo ridículo, burlesco.

Muito ao contrário!

A matéria mostra que é criação tipicamente paraense ("síntese da mistura da música eletrônica e da cultura de DJs com a canção romântica brasileira, o pop internacional, o calypso e outros ritmos tradicionais do norte do país."), que se mantém à margem da grande indústria fonográfica e obtém grande sucesso. E ainda dá grande destaque para o documentário produzido pelo Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, o Brega S/A, que pode ser visto no próprio sitio da Uol.

Para os que gostam ou não do Brega, vale pela citação imparcial e justa sobre coisa tipicamente paraense.

sábado, 7 de novembro de 2009

Palavra do Dia n.º 6

E depois de quase três horas dirigindo por Belém, vítima da perturbação em que se transformou o trânsito desta cidade, a palavra ganhadora de hoje só poderia ser...

Utopia
| s. f.
latim tardio utopia, palavra forjada por Thomas More para nomear uma ilha ideal em A Utopia, do grego ou-, não + grego tópos, ou, lugar.

s. f.

1.
País imaginário em que tudo está organizado de uma forma superior.
2. Sistema ou plano que parece irrealizável.
3. Fantasia.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Tratamos bem nossos animais!

Notícia do sítio da Agência Senado.

Retirada uma capivara do espelho d'água do Congresso.
Sarney: "essa capivara mostra que o Brasil continua tratando bem os animais".

Sim Senador! Nós sabemos bem disso...

Agência Senado - 06/11/2009 - Retirada uma capivara do espelho d'água do Congresso

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Mercado

Belém, 26 de outubro de 2009

A sensação era de me sentir estrangeiro em minha própria terra e isso era terrível. Tudo era piorado pois o sentimento vinha como fruto amargo do descaso, por se ter virado as costas ao que é belo e precioso.

Me sentia um estrangeiro andando por entre as barracas do mercado que acordava, ainda abrindo os olhos preguiçosos assim como eu também fazia, às seis da manhã de um sábado quente de outubro. O sentimento não era pior pois andavam ao meu lado as pessoas que deveriam andar, daquelas que te fazem fortaleza quando te olham e te fazem saber que tudo está bem.

Tudo que passava por mim era meu, tinha absoluta certeza! Mas sem conseguir lembrar da última vez em que estive ali, andava por entre barracas e paneiros de frutas fingindo não me surpreender com o que era belo. E não me segurava quando quem fotografava se maravilhava com as cores das pimentas e das frutas empilhadas, e sem qualquer forma de cerimônia me papagaiava em seu ombro e fingia me maravilhar somente com fotos e enquadramentos. A verdade é que pela lente da máquina eu me permiti ao deslumbre, disfarçadamente.

Depois, chegando no velho Mercado de Ferro, quis olhar os peixes e suas mil escamas coloridas. E quis comprar quilos e mais quilos de peixes e aprender a cozinhá-los, e olhar suas bocas e seus olhos e saber que peixes eram aqueles e de onde vinham. Se meus Carlos e Maria estivessem ali, certamente pegariam em tudo e achariam tudo bonito, e diriam isso aos feirantes e seus fregueses, e me pediria para comprar um pouco de cada coisa que lhes fizesse boqueabrir. Mas eles não estavam lá para servir de escape, o pai que se junta aos filhos curiosos e acaba se entregando também às descobertas. E o desejo acabou sendo detido entre os sonhos de que voltaríamos ali e faríamos muitas compras e coisas gostosas delas.

Só posso dizer o óbvio: cresci sem estar lá e hoje tudo me é estranho!

E do passeio de sábado restaram muitas coisas boas: o toque de pele que me inunda, o gosto do mingau e o cheiro das coisas todas e fotos, muitas fotos!





E por tão belas imagens, agradeço ao bom amigo Wagner Mello.

PLC 122/2006

A pergunta no site do Senado Federal é: Você é favorável à aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que torna crime o preconceito contra homossexuais?
Por incrível que possa parecer, o sim, que significa a criminalização do preconceito, às 16h51min de hoje havia sido clicado somente por 44% dos 49.231 votantes! Outros 56% votaram na não criminalização! São 27.569 pessoa!
Obvio que tal votação não vinculará a decisão de "nossos parlamentares", mas é um péssimo sinal sobre as pessoas que dividem essa terra conosco!
Se puderem e quiserem votem, ajudem a mudar o placar que, apesar de somente simbólico, é triste! A enquete está bem abaixo do link da Rádio Senado!
Com dica da Lua Castro.

Pequena Reflexão 01

É bom cuidar de meus pais.
E se antes eram eles que cuidavam dos filhos ralados, quebrados e lanhados, hoje somos nós a correr atrás de médico, endereço da clínica e telefone que ninguém encontra.
Doentes?
Não! Não! Muito ao contrário.
É simples dengo cobrado de forma carinhosa, tributo pelos anos de muito mais dengo recebido e colo quente. A troca é perfeita.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Festa para Verequete


Belém, 04 de novembro de 2009.


Resolvemos ir ao velório de Verequete pois consideramos que o momento era muito importante para não ser registrado em nossas memórias, fotos e textos. O velório seria no Theatro da Paz, na Praça da República, e lá chegamos por volta das 22 horas, inicialmente muito tímidos, mas tratando logo de nos misturar à multidão que reverenciava o Mestre.

Fomos direto para o Salão
Foyer do Theatro, lá onde estava pousado o caixão, bem diante da escadaria central que leva às frisas e aos camarotes. Ali estavam somente os mais próximos do músico, além de alguns poucos curiosos e muitos fotógrafos e cinegrafistas. E tal qual todos os velórios, o clima era de tristeza e consternação, os que acabavam de perder alguém, olhos fixos no caixote de madeira que agora guardava já não se sabia o quê.

Fora do Theatro, na larga calçada que hoje cobre o trecho final da Rua Carlos Gomes, havia uma centena de pessoas talvez, algumas delas somente curiosas para saber a quem pertencia o caixão que ocupava o lugar de honra na casa tão imponente. Mas a maioria estava lá com dor no coração, pessoas que se aglomeravam na frente do Da Paz para assistir às repetidas vezes em que era reprisado o Chama Verequete, bonito filme de Luiz Arnaldo Campos e Rogério Parreira. E ninguém ligava para os que acompanhavam a trilha musical cantando com enorme empolgação, ou para os que preferiam dançar, rodopios mil por entre a platéia, pois tudo era em honra ao mestre que partia deixando sua arte espalhada e livre. E a cada exibição, novas e emocionadas salvas de palmas em homenagem ao músico, intercaladas com gritos de viva Verequete.

Em minhas voltas pelo meio do povo vi todo o tipo de gente, tanto no Salão Foyer quanto na rua em frente ao gradil do Theatro: engravatados e bichos-grilo; autoridades e estudantes; pais, com seus filhos pequenos, e casais que não se importavam com preconceitos; naquele local, nenhum deles era diferente pois que todos eram amantes das mesmas toadas, criações do Mestre, amantes da mesma arte que os embalava, e lá estavam somente com o objetivo de dizer adeus.

Dentre todos, um chamou minha atenção: era um homem pequeno, humilde, e não sei se era fã ou se curioso, mas sei que gostou do filme e cantava as músicas com a felicidade de moleque em primeiro baile. Ele se colocou em frente à tela e assistiu todas as sessões, desde que chegamos até que partimos.

E algum tempo depois de nossa chegada, já por volta de 23 horas, alguém
teve a boa idéia de abrir o porta malas de um carro e colocar Verequete em alto volume, lá nas bandas do Bar do Parque: o carimbó ecoou e foi o que bastou para se armar uma festa alegre, como toda boa roda de carimbó deve ser, o ritmo dos tambores levando os dançarinos, amadores e profissionais, todos querendo festejar por Verequete ter existido.

E de longe, ao largo da festa e do velório, policiais observavam tudo que acontecia e guardavam em segurança as pessoas. Acostumados a vigiar coisas que talvez nem soubessem bem o que, desta vez zelavam por algo que vinha do povo, a voz das músicas que certamente já os tinha levado nas rodadas que só o carimbó consegue oferecer.



E ao ouvir o barulho e algazarra, alguns dos que estavam no Salão mais reservado do Theatro saíram, viram e sorriram. Certamente sabiam que era aquele o velório que ele teria querido, verdadeira festa levada pelos tambores que agora serviam como seus sentinelas, na porta de onde repousava seu corpo!



Augusto Gomes Rodrigues,
Mestre Verequete

26 de agosto de 1916 - 03 de novembro de 2009

Crédito das fotos:
1, 2 e 5, Fernando Gurjão Sampaio
3, 4 e 6, Wagner Mello

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Homenagem

Acabo de passar pela Doca de Souza Franca e vi, maravilhado, dezenas de pessoas dançando carimbó no meio da rua. Atrás de um trio elétrico que espalhava música por todos os cantos, dançavam em homenagem ao Mestre Verequete, recém falecido.

E sabem? Gostei da homenagem! Acho que ele preferiria ser velado com festa do que com tristeza. É como disse Noel...


Quando eu morrer
Não quero choro, nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela
(...)
Não quero flores
Nem couroa com espinho
Só quero choro de flauta
Com violão e cavaquinho

Morre Verequete

Hoje morreu Verequete, lá no Hospital Barros Barreto. O velório vai acontecer no Theatro da Paz, não sei ainda o horário, com enterro no Parque das Palmeiras.

Verequete nasceu na localidade de Careca, perto da Vila de Quatipuru, em agosto de 1916. Cantou, dançou e criou música. Permitiu que muitos dançassem e cantassem também.

O mestre morreu mas a obra ficará, eterna!

Meus Mortos

Belém, 24 de outubro de 2009.

Não sou de lembrar de meus mortos somente no Dia de Finados! Lembro de meus mortos todos os dias em que sinto em minha vida, ao meu redor, sinais de que os tive! É claro que em Finados fica mais forte a lembrança dos meus que se foram, ainda mais por ser data metida entre Círio e Natal, quando já descemos a ladeira de sentimentos e recordações que só vai terminar depois de passado o ano.

Meus mortos são a prova de que a vida é breve mas o amor é eterno. E é assim que lembro do meu avô, que morreu levantando para trabalhar; e de minha avó, que morreu escondendo sua dor para não dar trabalho e não amedrontar; e de minha tia, que quando soube com toda a certeza que morreria, resolveu não acreditar em certezas e viveu o que tinha para viver.

Os três marcaram minha vida à sua maneira, e cada qual me mostrou um pouco do que tinha para ser aprendido. Foi assim que tive mostras de liderança pela força, mas também pelo amor; e que tive provas de que se pode perdoar quem te faz mal, mesmo que o mal tenha ferido fundo; e foi assim que eu tive provas de que bondade é algo que permanece, mesmo depois de nos tornarmos o pó mais tenuíssimo.

Mas o melhor ensinamento, o que meus mortos me deixaram de mais importante, foi a prova definitiva de que a vida sempre vale a pena e de que a morte não resolve problema algum. Afinal, problemas são resolvidos com encaramento, com enfrentamento, e a morte, quando querida ou aceita, é fuga! Meus mortos lutaram pela vida de uma forma admirável, mesmo quando sabiam que a vida não era mais possível. E mesmo quando talvez a vida nem fosse mais querida, lutaram!

E hoje há o nome que ficou, lembrança que carrego nos documentos e que me é constante; e havia um pequeno livrinho de oração, antigo missal, que vez ou outra abria para usar em uma reza que nunca soube; e, algumas vezes, ainda me pego estacionado na frente da Celina, perto do Hotel Farol em Mosqueiro, final da tarde, olhando para o pátio onde conversávamos, esparramados em cadeiras de embalo, enquanto esperávamos o café com leite ficar pronto.

De meu avô sei aonde fica a pedra fria que é seu tumulo. Sempre que visito o Santa Izabel acabo encarando meu nome marcado no mármore, e tenho vontade de fazer como nos bons tempos do banho de piscina de sábado, na rua cheia de mangueiras e cigarras, sentar e contar sobre minha vida. Os bisnetos ele não conheceu, mas tento dizer que são bons meninos, obedientes e cheios de saúde, e tenho certeza que ele ficaria feliz.

De minha avó perdi na memória as pistas de onde a deixamos, e preciso lembrar de perguntar a meu pai onde ela está, na imensidão de túmulos, ruas e árvores velhas.

De minha tia não temos tumulo: quis ter suas cinzas jogadas nas águas barrentas da Prainha, do rio que banha Mosqueiro, por trás do antigo Hotel que lhe serviu de vista e de passeio. Hoje gosto de acreditar que ela faz parte do lugar em que escolheu viver sua morte, e me resta sentar em uma pedra, na margem, e ver o rio passar.

Pessoas morrem e isso é normal! E com o tempo morre também a lembrança, pois ninguém mais sobra para lembrar. E os nomes que significavam todo o amor do mundo passam a ser meros nomes impressos em antigas certidões e carnês de impostos de velhas casas de família. E é por isso que escrevo: por que me resta o agora e a lembrança ainda está bem viva comigo. E tenho tempo para dizer a todos que fui muito amado! E que muito amei!