quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Festa para Verequete


Belém, 04 de novembro de 2009.


Resolvemos ir ao velório de Verequete pois consideramos que o momento era muito importante para não ser registrado em nossas memórias, fotos e textos. O velório seria no Theatro da Paz, na Praça da República, e lá chegamos por volta das 22 horas, inicialmente muito tímidos, mas tratando logo de nos misturar à multidão que reverenciava o Mestre.

Fomos direto para o Salão
Foyer do Theatro, lá onde estava pousado o caixão, bem diante da escadaria central que leva às frisas e aos camarotes. Ali estavam somente os mais próximos do músico, além de alguns poucos curiosos e muitos fotógrafos e cinegrafistas. E tal qual todos os velórios, o clima era de tristeza e consternação, os que acabavam de perder alguém, olhos fixos no caixote de madeira que agora guardava já não se sabia o quê.

Fora do Theatro, na larga calçada que hoje cobre o trecho final da Rua Carlos Gomes, havia uma centena de pessoas talvez, algumas delas somente curiosas para saber a quem pertencia o caixão que ocupava o lugar de honra na casa tão imponente. Mas a maioria estava lá com dor no coração, pessoas que se aglomeravam na frente do Da Paz para assistir às repetidas vezes em que era reprisado o Chama Verequete, bonito filme de Luiz Arnaldo Campos e Rogério Parreira. E ninguém ligava para os que acompanhavam a trilha musical cantando com enorme empolgação, ou para os que preferiam dançar, rodopios mil por entre a platéia, pois tudo era em honra ao mestre que partia deixando sua arte espalhada e livre. E a cada exibição, novas e emocionadas salvas de palmas em homenagem ao músico, intercaladas com gritos de viva Verequete.

Em minhas voltas pelo meio do povo vi todo o tipo de gente, tanto no Salão Foyer quanto na rua em frente ao gradil do Theatro: engravatados e bichos-grilo; autoridades e estudantes; pais, com seus filhos pequenos, e casais que não se importavam com preconceitos; naquele local, nenhum deles era diferente pois que todos eram amantes das mesmas toadas, criações do Mestre, amantes da mesma arte que os embalava, e lá estavam somente com o objetivo de dizer adeus.

Dentre todos, um chamou minha atenção: era um homem pequeno, humilde, e não sei se era fã ou se curioso, mas sei que gostou do filme e cantava as músicas com a felicidade de moleque em primeiro baile. Ele se colocou em frente à tela e assistiu todas as sessões, desde que chegamos até que partimos.

E algum tempo depois de nossa chegada, já por volta de 23 horas, alguém
teve a boa idéia de abrir o porta malas de um carro e colocar Verequete em alto volume, lá nas bandas do Bar do Parque: o carimbó ecoou e foi o que bastou para se armar uma festa alegre, como toda boa roda de carimbó deve ser, o ritmo dos tambores levando os dançarinos, amadores e profissionais, todos querendo festejar por Verequete ter existido.

E de longe, ao largo da festa e do velório, policiais observavam tudo que acontecia e guardavam em segurança as pessoas. Acostumados a vigiar coisas que talvez nem soubessem bem o que, desta vez zelavam por algo que vinha do povo, a voz das músicas que certamente já os tinha levado nas rodadas que só o carimbó consegue oferecer.



E ao ouvir o barulho e algazarra, alguns dos que estavam no Salão mais reservado do Theatro saíram, viram e sorriram. Certamente sabiam que era aquele o velório que ele teria querido, verdadeira festa levada pelos tambores que agora serviam como seus sentinelas, na porta de onde repousava seu corpo!



Augusto Gomes Rodrigues,
Mestre Verequete

26 de agosto de 1916 - 03 de novembro de 2009

Crédito das fotos:
1, 2 e 5, Fernando Gurjão Sampaio
3, 4 e 6, Wagner Mello

8 comentários:

Luana C. disse...

Nunca pensei que fosse reviver assim tão rápido a noite do velório de Mestre Verequete. É impressionante os detalhes observados por você! E como escreve bem...

Sem dúvida um dos melhores textos, Tanto! eeeeeee
Beijos.

Anônimo disse...

Parabéns Tanto, excelente texto.

Qto a mim, preciso urgente aprender a manejar minha 'preciosa' para fotos noturnas , sem flash, claro! :-). postei estas somente.

W

Tanto! disse...

Luana,

Acho que por isso escrevo, para relembrar certas coisas e guardar para sempre. E melhor: não ficam rodando tanto em minha cabeça.

W,

As fotos ficaram maravilhosas. Infelizmente não consigo ver aqui, mas quero dar uma olhada. No mais, treinemos para maio!

Elis Marchioni disse...

Fez bem de ter ido ao velório. Estivesse em Belém, eu iria com você.

Achei belo o seu texto. Também curti as fotos: os tambores na porta do velório, o chapéu sobre as mãos do homem, a multidão. Senti-me um pouco presente por meio do seu blog. Parabéns!
Um beijo, Nando.

Tanto! disse...

De nada Elis. Que bom que consegui te passar um pouco do que foi a festa para Verequete!

Anônimo disse...

Realmente bom texto. Não fui ao velório mas acompanhei pela tv, e agora aqui. Legais as fotos também. Gostei da foto da porto com os tambores.

Anônimo disse...

Quase não acompanhei nada do velório de Verequete,mas lendo teu texto me senti por lá,mas lamentei por não estar realmente.

. disse...

Não pude ir ao velório. Dalila estava doente.
Mas pude sentir a energia dele por meio desse texto.
Nem matérias de TV, com audio e vídeo, foram capazes de me dar essa sensação.