sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Podar ou Mutilar?

Belém, 27 de janeiro de 2010.

É engraçado andar por certas ruas de Belém e tentar imaginar o que passa pela cabeça de quem administra a cidade (ou deveria fazer isso), o local que vai se tornando parque temático do ridículo em pequenas coisas que, somadas, acabarão por defini-lo.

Rua dos Mundurucus

Tudo começou ao olhar para a árvore que teima em sobreviver justo em frente à minha casa, a sombra que o carro preto agradece nos muitos dias de sol da cidade que teima em sobreviver sob o equador: saindo para trabalhar me deparo com o serviço de poda efetuado pelo Município e, se a árvore teima em sobreviver, claramente a Administração teima em lhe destruir, poda que facilmente poderia ser mutilação, o homem que diante da necessidade de fazer conviver fios e árvores, prefere partir a corrente no elo mais fraco.


Travessa Castelo Branco

A cidade (ainda ostentamos o pomposo título de Cidade das Mangueiras?) claramente confunde o verbo Podar com Mutilar.

Avenida Conselheiro Furtado

Podar (verbo transitivo direto) é definido como cortar ramos, desbastar; aparar; tornar menos basto ou espesso; cortar, desbastar. Já mutilar (também verbo transitivo direto) é definido como privar de algum membro ou de alguma parte do corpo; cortar ou destruir qualquer parte de; truncar.

Travessa Castelo Branco

A grande diferença entre os atos representados pelos verbos é a presença de violência ou crueldade, a falta de cuidado com que se praticam.

Travessa Castelo Branco

Diante disso, pergunto: o que se faz em Belém, algumas árvores sofrendo mais do que outras, é poda ou mutilação impensada e não planejada, o serviço largado na mão de maníaco saído de canto qualquer a quem acalmam a sanha assassina com a entrega de afiado facão, escada e árvore?

Travessa Castelo Branco

E antes que me critiquem, o Cara que só sabe desconstruir a cidade em textos quase sempre negativos, um aviso: entendo que a poda tenha de ser feita, e entendo que os fios precisem estar o mais alto possível sob pena de serem diariamente furtados. O que critico não é a poda (nem os fios), mas a mutilação que se faz sob título de poda.

Travessa Castelo Branco

Adaptar quem a quem: Árvores aos fios ou fios às árvores?

Belém é marcante quando definida pela sua convivência com suas árvores (Manuel Bandeira, ao visitar Belém em 1928 escreve, no seu poema Belém do Pará, que a Cidade pomar obrigou a polícia a classificar um tipo novo de deliquente: O apedrejador de mangueiras).

Túnel de Mangueiras, Avenida Nazare, perfeita cidade

Não entendo que se prefira fazê-la marcante pelo rídiculo, espetáculo burlesco a olhos visto, qualquer meio fio da cidade.

[...] Porém me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrasse em frente das mangueiras tapando o Teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí, você que conhece o mundo, conhece coisa melhor do que isso, Manu?

[...] Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim. E como já falei, sentar de linho branco depois da chuva na terrasse do Grande Hotel e tragar sorvete, sem vontade, só para agir.

(Trecho da Carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, junho, 1927)
Fotos: Fernando Gurjão Sampaio

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Palavra do Dia n.º 22

Hoje, glorioso dia 25 de janeiro, dia de São Paulo e da Maria Fernanda, a palavra ganhadora não poderia ser outra que...

Dedicação
s.f.
Desprendimento de si próprio em favor de outrem ou de alguma idéia.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Tem que dar certo...

Publicado por Adriana Vandoni


(Giulio Sanmartini) O esperado sucesso retumbante com a massa amontoada na porta dos cinemas, para ver a trajetória da “heróica vida” do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, só existiu nos delírio do cinebiografado e de seu bando de puxa-sacos.
O fracasso da estréia permite prever que este seguirá o filme em sua trajetória, pois é um trabalho mal feito como ressalta Fernando de Barros e Silva: “O ideário nacional-popular no filme assume propósitos edificantes, como se estivéssemos diante de uma aula-show de moral e cívica dos novos tempos. A narrativa é linear e convencional; tudo é didático, esquemático, infantilizante; o repertório de clichês parece vasto como nunca antes na história do cinema deste país.”
Agora o governo tenta de todas as formas mudar a realidade e monta a farsa de transformar o fracasso em sucesso.
O filme está sendo oferecido como banana em final de feira livre.
O direito à meia entrada no cinema foi estendido a uma terceira categoria, a fim de aumentar a bilheteria . Desde esta sexta-feira, os filiados a qualquer sindicato no Brasil podem assistir ao filme com 50% de desconto no ingresso, mediante a apresentação da carteira sindical e mais um documento com foto.
A promoção é válida para as cerca de 350 salas em que o filme está em cartaz, exceto as da rede UCI (nessas, o desconto entrará em vigor a partir do dia 15 de janeiro).
As desculpas dos responsáveis já se fazem ver, todavia, a mais esdrúxula é a do distribuidor Bruno Wainer (Downtown Filmes.), que afirma:“Nós já tínhamos planejado a promoção antes do lançamento. O que fizemos foi antecipá-la em uma semana para chamar a atenção de quem consideramos ser o público primário do filme.” – e finaliza – “O problema do filme foi o massacre político que ele recebeu, o que prejudicou seu lançamento. A pressão foi enorme, e eu temia por uma catástrofe.”.
O único sincero nessa mixórdia foi o diretor Fábio Barreto quando disse que só fez o filme para “ganhar dinheiro”.

Auto-Entrevista 01

Auto entrevista marcada por forte carga emocional e lampejos psicodélicos provocados pelo sono e saudade devastadora (02h34min – 20 de janeiro de 2010).

- Então ela chega hoje?

- Sim, chega hoje, finalmente. Mas parece que tudo conspira contra, não é?

- É sim. E a grande conspiradora de hoje é a lei da Física que rege a chegada das filhas...

- Sim, conheço! Aquela lei que diz: quando um pai saudoso espera sua menininha, todos os vôos vem carregados de menininhas que correm e pulam igual à esperada, somente para confundir e dar lampejos de esperança a um pai cansado da ausência. Mas ao menos ela chegará!

- Sim, mas com um grande atraso. Acabo de falar com a mãe e soube que ainda estão em Brasília! Parece que houve uma forte tempestade em São Paulo e todo o sistema aéreo ficou congestionado. A mãe pediu até para verificares, não foi?

- Foi sim, mas não encontrei nada na internet. Vai ver é desculpa da empresa.

- E o que fazem? Dormem?

- Não, matam o tempo como podem. Maria, pelo que a mãe contou, joga no seu portátil e anda em círculos vendo vitrines e simulando compras. Sabes a que horas chegam?

- Chegam perto da seis da manhã. Voltei para casa, darei uma soneca e retornarei mais tarde.

- Ainda voltas ao aeroporto!?

- Sim, quero vê-la o quanto antes. A saudade aperta muito.

- Verdade, estou roxo de sentir falta dela.

- Bem, acho bom você dormir um pouco, nem que sejam alguns minutos.

- Verdade. Senão nem consegues acordar na hora marcada.

- Obrigado pela entrevista.

- De nada.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Palavra do Dia n.º 21

Saudoso da minha filha que viaja, a palavra do dia, hoje, não poderia ser outra...
.
Saudade
s.f.
Lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que nos vemos privados. Pesar, mágoa que essa privação nos causa. Lembranças; recordações; cumprimentos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

De Mosqueiro 01

A cada olhar me surgem novas teias de aranhas e tufos de poeira que não tinha percebido antes, a vassoura em frenético movimento da assepsia que urge.

Sim! Por aqui as coisas estavam sujas e abandonadas, a visita e limpeza cuidadosa que há muito prometia em velados desejos de fuga. E sobre limpeza, é engraçado como é fácil retirar o grosso da sujeira, aquele entulho que teima em se mostrar visível no piso. Mais complicado é limpar os cantos, cada qual com seu rebuscado inacessível às mãos já cansadas de tanto limpar. O que eu limpo, o vento teima em trazer de volta, e cada vez percebo restar menos sujeira, ou o vento que perde as forças, ou o limpador que se suja menos.

Tenho escutado repetidas vezes Enjoy the Silence, do Depeche Mode, e isso me motiva a escutar o silêncio mais do que tudo nestes dias de reclusão escolhida. Além do barulho das ondas e do cachorro que insiste em latir para as folhas, quase nem mesmo minha voz tenho escutado, calado que me faço para ver se escuto o que devo.

Estou só e tranqüilo, e assim pretendo ficar pelo menos até retornar a Belém. E a única pessoa com quem gostaria de conversar talvez nem saiba desse fato, mas aceito boas surpresas, viu? Um telefonema inesperado sempre me deixa em paz e me faz pensar.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Maior dilema do mundo!

Reparto com vocês um dos maiores dilemas do mundo antigo! Espero respostas sábias...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Sem palavras





Haiti, janeiro de 2010
Fotos: Terra

A carta de Silvio Tendler

Silvio Tendler - É um renomado documentarista brasileiro. Conhecido como "o cineasta dos vencidos" ou "o cineasta dos sonhos interrompidos" por abordar em seus filmes personalidades como Jango, JK, Carlos Marighella, entre outros, Silvio é, antes de tudo, um humanista, que já produziu cerca de 40 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens. Em 1981 fundou a Caliban Produções Cinematograficas Ltda., produtora direcionada para biografias históricas de cunho social(wikipedia). Escreveu a carta abaixo, que creio merecer uma paciente leitura (dica de Carlos Sampaio e Regina Maneschy).


Ao Ministro da Defesa Exmo. Dr. Nelson Jobim
Invado sua caixa de mensagem pedindo atenção para um tema que trata do futuro, não do passado. O Sr. me conhece pessoalmente e lembra-se de que quando fui Secretário de Cultura de Brasília, no ano de 1996, o Sr. era Ministro da Justiça e instituiu e deu no Festival de Cinema Brasília um prêmio para o filme que melhor abordasse a questão dos Direitos Humanos. Era uma preocupação comum a nossa.
Por que me dirijo agora ao senhor? Um punhado de cidadãos -̶ hoje somos mais de dez mil -̶ assinamos um manifesto afirmando que os envolvidos em crimes de tortura em nome do Estado Brasileiro devem ser julgados e punidos por seus atos, contrários aos mais elementares sentimentos da nacionalidade. Agimos em nome da intransigente defesa dos direitos humanos. O Sr., Ministro da Defesa, homem comprometido com a ordem democrática, eminente advogado constitucionalista, um dos redatores e subscritores da Constituição de 1988, hoje em ação concertada com os comandantes das forças armadas, condena a iniciativa de punir torturadores pelos crimes que cometeram.
Este gesto, na prática, resulta em dar proteção a bandidos que desonraram a farda que vestiam ao torturar, estuprar, roubar, enriquecer ilicitamente sempre agindo em nome das instituições que juraram defender. É incompreensível que o nosso futuro democrático seja posto em risco para acobertar crimes praticados por bandidos o que reforça a sensação de impunidade. Ao contrário do que afirmam os defensores da impunidade dos torturadores. O que está em juízo não é o julgamento das forças armadas, como afirmam os que as querem arrastar para o lodo moral que mergulharam. Agora pretendem proteger sua impunidade, camuflados corporativamente em nome da honra da instituição.
Um pouco de história não faz mal a ninguém. Não está em questão que para consumar o golpe de 64, os chefes militares de então tiveram que expurgar das forças armadas milhares de homens entre oficiais, sub-oficiais e praças cujo único crime foi defender o regime constitucional do país. Afastaram da vida política brasileira expressivas lideranças, cassando direitos políticos e mandatos parlamentares ou sindicais. Empurraram milhares de cidadãos, na imensa maioria jovens, para a ação clandestina que desembocou na luta armada.
De qualquer maneira os golpistas de 64 protegidos pela lei de anistia não serão anistiados pela história. Fecharam e cercaram o Congresso Nacional. Inventaram a excrescência chamada de Senador Biônico para não perder, pelo voto, o controle do Senado em plena ditadura militar. Os chefes militares podem ficar tranqüilos que seus antecessores não irão para a cadeia pelos crimes que cometeram contra um país, contra uma geração inteira, a minha, que desaprendeu a falar e pensar em liberdade. Nada disso está em juízo. Vinte e cinco anos depois de iniciada a transição democrática, o que está em juízo não é o processo de anistia política.
Tranqüilize seus colegas militares, ministro. O regime militar não está sendo julgado pela quebra do sistema público de saúde ou pela quebra do sistema educacional. Estamos pedindo a punição contra criminosos comuns por crimes de lesa humanidade. Queremos o julgamento e condenação da prática de crimes hediondos. Só isso. Assusta a quem? Em nome do quê o Brasil será eternamente refém de bandidos? O que justifica acobertar crimes condenados por todos os códigos, normas e tribunais internacionais em matéria de direitos humanos? O Sr. deve estar se perguntando o porquê do meu empenho nesta causa. Vou lhe contar.
Despontei pra a vida adulta baixo a ditadura militar. Em 1964, tinha 14 anos e cresci sob o signo do medo. Sou de uma família de judeus liberais, meu pai advogado e minha mãe médica. Invoco as raízes judaicas porque meus pais eram muito marcados pelo holocausto, pelos crimes nazistas cometidos contra a humanidade. Tínhamos muito medo das soluções autoritárias. Eu queria viver num país livre e tinha sentimentos de profunda repugnância a ditaduras. Meus amigos também eram assim. Participei de passeatas, diretórios estudantis e cineclubes. Queria derrubar a ditadura fazendo filmes. Acreditava que era possível. Em 1969, um companheiro de Cineclubismo seqüestrou um avião para Cuba. Não tive nada a ver com isso. Desconhecia as intenções e a organização do seqüestro. Meu crime foi ser amigo – sim, meu crime foi o de ser amigo de um seqüestrador. Quase fui preso e morreria na tortura sem falar, não por ato de bravura, mas por absoluto desconhecimento de causa. Não pertencia a nenhuma organização revolucionária. Não sabia nada sobre o seqüestro.
Escapei dessa situação pela coragem pessoal de minha mãe que driblou os imbecis fardados que foram me prender e consegui fugir de casa nas barbas da turma do Ministério da Aeronáutica que, naquele momento, ao invés de dedicar-se a cumprir sua missão constitucional de proteger nossas fronteiras, prendiam, torturavam e matavam estudantes. Tive também a ajuda do Coronel Aviador Afrânio Aguiar que empenhou-se até a medula para que não fosse preso e massacrado na Aeronáutica. A ele dedico meu filme mais recente "Utopia e Barbárie". Sem ele, dificilmente estaria contando essa história hoje aqui. Outras pessoas também me ajudaram a sair vivo dessa história mas como não tenho autorização para citá-los e estão vivos, guardo nomes e lembranças no coração.
Em 1970 fui viver no Chile por livre e espontânea vontade. Saí do Brasil legalmente com passaporte, ainda que tenha ido ao DOPS explicar por que saía do Brasil. Eles sabiam as razões pelas quais saía (como é cantado na música, "Não queria morrer de susto, bala ou vício"). Em Janeiro de 1971,do Chile, mandei uma carta para minha mãe, trazida por uma portadora, senhora de boa cepa, que fora visitar o filho no exílio em um gesto humanitário se ofereceu, ingenuamente, para trazer correspondência para os familiares dos exilados. O gesto lhe custou prisão e "maus tratos" nas dependências da aeronáutica. Na carta pedia a minha mãe que me enviasse livros e minha máquina de escrever. A carta foi entregue em Copacabana por militares do Doi-Codi que arrombaram minha casa, arrombaram móveis a procura de metralhadora (Assim entenderam "máquina de escrever"). Minha mãe foi levada para o quartel da PE na Barão de Mesquita, onde foi humilhada e um dos "patriotas"que a conduziu assumiu de forma permanente a guarda do relógio que entrou com ela na PE e não voltou para casa. Amigos ocultos numa rede de gente decente ajudaram a tirar minha mãe daquela filial verde oliva do inferno.
Sim ministro, havia muita gente decente nas forças armadas ou que gravitavam em torno dela e que faziam o que podiam para ajudar pessoas. A maioria, prefere, até hoje, não revelar seus gestos por medo dos que praticando atos dignos dos piores momentos da máfia intimidam e atemorizam pessoas de bem. Pior do que o relógio foi o destino do ex-deputado Rubens Paiva que foi preso no mesmo dia e nunca mais encontrado. Os senhores fazem muita questão mesmo de proteger os canalhas que seqüestraram e assassinaram o ex-deputado pelo crime de ter recebido correspondência pessoal de exilados no Chile? A quem interessa essa “Omertá"? Ministro, para esses crimes não há justificativa e menos O que leva a chefes militares e o Ministro da Defesa a se pronunciarem contra a apuração de crimes? Tortura, estupro, morte, muitas vezes seguido de roubo, são atos políticos passíveis de anistia?
Desculpe a franqueza, mas não consigo entender. Em nome do futuro democrático do Brasil , espero que a banda podre, montada no Dragão da Maldade, não saia vitoriosa.
Os chefes militares pronunciam-se a favor do pagamento de reparações às vitimas do arbítrio como um ato indenizatório. Pagamento este feito com recursos públicos desviado de finalidades mais nobres para ressarcir prejuízos causados por canalhas que deveriam ter seus bens confiscados e pagarem com recursos próprios os crimes que cometeram. Muitas empresas que se locupletaram durante a ditadura e inclusive financiaram o aparato repressivo poderiam participar dessas indenizações. No meu caso, ministro, posso lhe dizer que não há dinheiro que feche essa conta. Não pedi anistia nem indenização porque acho que não sou merecedor (nunca fui exilado, nunca me apresentei assim). E vivo bem com meu trabalho de cineasta há quarenta anos e professor universitário há 31. Se fosse pago com recursos dos bandidos, aceitaria de bom grado. Recursos públicos não. Cada centavo que aceitasse, me sentiria roubando de uma criança ou de um homem ou uma mulher humildes que precisam mais desse dinheiro numa escola pública, num posto médico, do que eu. Não recrimino quem, por necessidade ou sentimento de justiça, o faça.
A reparação que peço é a punição exemplar dos torturadores da minha mãe. O senhor há de concordar que não estou pedindo muito nem nada despropositado. E quando digo que penso no futuro e não no passado é porque a punição exemplar de criminosos desestimulará semelhantes práticas no futuro e terá uma função pedagógica para os que caiam em tentação de uso indevido dos poderes do Estado, que entendam que não vivemos no país da impunidade.Justiça, peço apenas justiça.
Bom 2010 para o sr.
Atenciosamente,

Silvio Tendler

P.S.
Por falar em comunistas, movimento que condenava a luta armada, o que dizer do assassinato do jornalista Wladimir Herzog, do operário Manoel Fiel Filho e do desaparecimento do dirigente Davi Capistrano? Seus assassinos terão imagem, nome e sobrenome ou continuarão protegidos por este exército das sombras?
Silvio Tendler

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Amarilis Tupiassu II

Aqui acaba uma série pequena (de somente dois post) com textos publicados pela minha mãe, Amarilis Tupiassu, no jornal O Liberal aos domingos.

CANTO DE MÃE E FILHA - Filhos crianças, os antevemos no futuro. Os pais sabem cair nessa ilusão. “Que serão, que profissão?” Hoje, os meus, homens, um peleja com as leis, outro, com as artes de curar. No passado, não dava para imaginar. Enquanto lhes espreitava o porvir, eles interrogavam-me sobre minhas profissões desejadas e não cumpridas. “Se não fosses professora?” Perdia-me em “hum, hum, esperem, difícil saber!” Aí, procurava anseios, quereres gorados, rebuscava-me, espremia meus sumos desejantes. “Gostarias de quê, mais que tudo?” e desfilavam profissões possíveis, afazeres nem tentados, até que, pronto! Queria ser cantora, sonho suscitado por minha mãe, talvez, por meu pai, que ensaiava cordas de um violão. Ou quem sabe o quisesse inspirada num tio nascido em ilha em frente a Belém, o tio amante de brincadeiras de pássaros, de boi e que, mal chegava à casa da “mana”, apeava dos cansaços da travessia e entoava modinhas, como dizia, de bichos e cantorias afins. Tio e sobrinhas “viajavam” nas toadas, na Catirina, é um caso, grávida, babando de desejos, a bom atormentar o Chico, obrigado a tirar a língua e as mais partes do boi para saciar a exigência da prenha.

Depois, virei cantante das redes de ninar filhos. Foi quando me descobri um cofrim de cantares antigos, herança de família. Em criança só dormia ao som das cantigas maternas, tanto cantar, que me pergunto se, naquele verdadeiro ritual de dormir, mamãe cantava para si ou para ninar sua ninhada. Não sei. Nem o sabia quando ninava meus filhos. Olho atrás e vejo-me sempre entre cânticos. Para completar o coro, convivi com amigas afeitas à música, sobretudo com duas de infinda saudade, Sylvia Pimenta e Maria Lúcia Medeiros. Quanto nos comprazíamos em gostosas cantorias! Disputávamos, Sylvia e eu, quem mais desfiava dor de cotovelo. Ela, craque, vencia, ela vindo a morrer de amar, sugada pelos turbilhões do amor de perdição. Maria Lúcia e eu tivemos até sonhos de “gaiteiras” de boca, nossas gaitas fugazes. Íamos de MPB a Jackson do Pandeiro até ela trinar jazz, blues, Ella, Billie, Cole Porter. Estes eu quieta só fruía, eu nula em inglês. Quantas vezes, em tarefas de grave responsabilidade, precisão, elaborar, corrigir provas de vestibular, por ex., quando dávamos fé, esgotadas, cadenciávamos vozes, solfejos para espairecer. Hoje, canto em palco invertido. Cantarolo a minha mãe, sua voz já sumida. Nino-lhe a mudez, ela antes cantora de suas eras de embalar nove filhos que só dormiam ao compasso de Noel, Sinhô, Donga, Pixinguinha. Amava cantar “Fascinação”, “Rosa”, músicas de roda d’outrora, pastorinhas, canções de vário som, diversa arte. A vida dá suas voltas. Hoje, a filha canta à mãe. Um fio íntimo as enlaça quando seus olhos se tocam profundos. Ela sabe bem de si, joga os jogos do silêncio e espera o tom. Canto ou cicio as músicas do seu, do nosso passado. Nas fímbrias desse encontro tão interior, implícito, sutil, a vida se agita ainda, e minha mãe canta com o olhar, modula sua voz que agora se faz de escuta. Ela ainda canta. Seus filhos o sabem. A agudeza de seu olhar o afirma. É seu/nosso cumprimento de sina, irreversíveis que somos. Indizíveis certas horas! Tão íntimo o elo materno-filial! Ela agora espera o dueto de uma só voz e olhares, escuta e reencontra-se, na memória das modinhas que canta na imaginação. Sei que se encanta com a música. Tudo é precário, mas ela canta e é feliz.

Belém, 12 de janeiro

Hoje Belém faz aniversário: 394 anos que envolvem revoltas, massacres, fé e muita força de vontade para construir a maior cidade da Amazônia. E não só é a maior como também é a mais bonita, opinião de quem escreve certamente partilha por muitos que lerão.

E com todos os comentários sobre o que falta em Belém, sobre os problemas nefastos que entristecem em críticas rasgantes e destrutivas, não quis usar o Domisteco para mais um rol de penúrias e lamúrias.

Ao contrário, queria expressar a felicidade que é morar em Belém, felicidade que somente um belenense pode ter, felicidades que trago na lembrança de dias que não voltarão: o sair da casa do avô, final da tarde de sábado de piscina sem fim, a última conversa de todos que se despediam na Conselheiro cheia de mangueiras e cigarras que cantavam em orquestra.

As tardes de banho em Mosqueiro, as ondas altas do fim de tarde cheias de moleques que lutavam pelo “jacaré” perfeito, o entornar dos corpos na violência da água que a tudo afundava.

O pão molhado no café com leite de todo o dia da casa da avó, a porcaria dos meninos feita somente quando ninguém via, vontade de comer como se bem quiser fugindo sempre da vista educadora da sempre vigilante Agripina.

São tantas outra e são somente as minhas. De Belém, cada um tem um pouco guardado onde quer que seja.

E espero que disso lembrem, hoje e em 12 de janeiros vindouros: Belém é mais do que miséria e lamúria.


Palavra do Dia n.º 20

A palavra do dia surge da lembrança da infância, minha mãe brigando com os seus dois moleques que nunca paravam...

Mequetrefe (origem controversa)
S.m.
1. Indivíduo que se mete onde não é chamado. 2. V. João-ninguém. 3. Biltre, patife.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Amarilis Tupiassu I

Começo uma série pequena (de somente dois post) com textos publicados pela minha mãe, Amarilis Tupiassu, no jornal O Liberal aos domingos.

QUEM QUER DIVIDIR O PARÁ - Indigna já só a ideia de reduzir o Pará a Belém e Zona do Salgado. Coisa de político-forasteiro mal-agradecido. O cara chega à casa alheia, que o acolhe com hospitalidade, e se revela um aproveitador. Entra, fuça a geladeira, abanca-se no melhor sofá, escancara as portas dos quartos, e a gente sabe: é um folgado. Chora, estremece por seu estado de nascença, enquanto explora e desdiz do Pará, de que só pensa em chupar tudo, até o Estado inteiro, se deixarmos.

O retalhador do estado (dos outros) chega e se espalha feito água. Abanca-se, invade a cozinha, destampa, tem o desplante de meter o dedo na panela, antes do dono da casa, lambuza as mãos, lambe os dedos. Como os paraenses somos cordiais, ele confunde cordialidade com liberalidade. Vem, vai ficando, mergulha de unhas e garras afiadas em terras e política. Espalhado, o aproveitador, pronto, enriqueceu, encheu a pança. Fez-se fazendeiro, político de muito papo (balofo), o cara de pau. Alguns não dispensam trabalho escravo e agora dão de posar de redentores da miséria do Pará, como se só no Pará houvesse miséria. E cadê? Ih, já nas altas cúpulas, armando discórdia, querendo porque querendo dividir o estado do Pará, dizque porque é estado imenso e pobre, como se os miniestados brasileiros fossem paradisíacos reinos de felicidade, nenhum faminto sem teto, nenhum drogado, saúde e escola nos trinques, nada de tráfico e exploração de menores. Balela de retalhador.

O retalhador (do estado alheio) tem no cérebro sinal de divisão. Só quer dividir, não seu estado, onde o espertalhão não conseguiu levantar a crista. No Pará, não se contenta em ser fazendeirão, explorador de miseráveis. “Quero um estado pra mim, Assembleia Legislativa, rumas de assessores, Tribunal de Contas com obsceno auxílio-moradia, mesmo que eu tenha casa própria”.

E o retalhador já quer governar o estado (dos outros), quer reino e magnífica corte própria, algo comum nestas terras brasílicas dominadas por quadrilhas de políticos cara de pau, porque os dignos, vergonha na cara, os que lutam a valer por um Brasil de união, ordem e progresso, estes raros políticos dão uma de éticos e não põem a boca no trombone.

Não, o Pará não é casa de engorda e enriquecimento de esquartejador da terra dos outros. Mas o pior é que eles se juntam até a certos políticos paraenses, que, em vez de dizer não decisivo e absoluto à divisão, ficam em cima do muro. É que os muristas, paraenses também não são flor que se cheire. Incrível que políticos paraenses admitam o roubo oficial das ricas terras do Pará. Pendurados no muro, os muristas paraenses só pensam na engorda de seus vastos currais e não em defesa e união.

Sim, quem quer esfacelar o Pará? Deputados de longe que lambem os beiços por se apoderar do Marajó, do Tapajós, de Carajás. Risíveis os argumentos separatistas: “A imensidão do Pará impede seu progresso”. Nada! Papo de político! É vasta a miséria dos estados pequenos e do Brasil mal governado. Dividir vem da omissão de políticos do Pará, eles em ânsias por suas lasquinhas. Separatista daqui e de fora quer é feudo, castelo, mais poder. O mapa do Pará lembra um buldogue. Ele precisa de brio, amor-próprio, rosnar, se quiserem reduzi-lo em retalho. O Pará quer paz e união. Vamos calar os esquartejadores que boiam, do fracasso em seus estados, ao sonho de esfacelar o Pará. Vamos dizer não a mais essa mutreta de político espertalhão.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Maior torcedor do futebol paraense

Será ele o maior torcedor do futebol paraense? Isso explicaria muita coisa.

Lula, a caminho de Pequim, levou a sua 'bênção' para o favorito brasileiro nos Jogos Olímpicos, Diego Hypólito. Deu no que deu...


A imbatível seleção masculina de vôlei esteve com o petista. Perdeu os dois jogos seguintes, diante da torcida brasileira, e o título da Liga Mundial.


Após uma campanha espetacular na Copa Libertadores da América, o time do Fluminense recebeu a visita de Lula antes da final com a LDU. O petista até posou para fotos exibindo a camisa do time. No jogo, em pleno Maracanã, o Fluminense perdeu três pênaltis e o título.


Antes de partir para a última Copa do Mundo, Roberto Carlos foi o único jogador a visitar Lula, levando para ele uma camisa da Seleção autografada pelos craques. O lateral-esquerdo ajeitava o meião quando Thierry Henry, nas suas costas, fez o gol francês que tirou o Brasil da final.


O Corinthians caiu para a segunda divisão logo depois de o petista ser homenageado pela diretoria do clube com uma camisa 10 que tinha seu nome grafado.


O presidente do Botafogo, Bebeto de Freitas, foi ao Palácio do Planalto levar uma camisa do time, às vésperas da partida da Copa do Brasil, em 2007, na qual aconteceu o que parecia impossível: perdeu para o Figueirense, em pleno Maracanã, com dois gols roubados pela bandeirinha.


O mega-star Lenny Kravitz até sumiu do show-business após presentear o petista com sua guitarra famosa.

O tenista Gustavo Kuerten presenteou-o com uma raquete e nunca mais foi o mesmo.


O boxeador Popó jamais venceu uma luta importante após presentear o petista com seu par de luvas.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Palavra do Dia n.º 19

Hoje, dia de Reis (dia de retirar a decoração natalina), a palavra ganhadora é...

Epifânia (do latim epiphánea)
S.f.
Rel. 1. Aparição ou manifesta divina. 2. Festividade religiosa com que se celebra essa aparição. 3. dis de Reis.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Sou da torcida do touro

Apesar das notícias que assustaram este início de ano, a chuva torrencial que assola o País, o drama de Angra e a imbecilidade de Bóris, não deixei passar essa pequena nota que não me chocou (a bem da verdade, senti um certo prazer!):
Homem leva chifrada e morre em tourada na Colômbia
Sábado, 2 de janeiro de 2010 - 08h50
Da Redação com Band News


Uma tourada termina em morte, na Colômbia. Um homem levou uma chifrada e não resistiu aos ferimentos. A tourada é tradicional durante as festividades de fim de ano, na cidade de Sampues. Walter Perdomo, de 34 anos de idade, foi atingido pelo touro e tentou levantar, mas foi chifrado novamente. Desta vez, o chifre entrou na região do abdôme, e perfurou o fígado do toureiro. Ele morreu na hora.

A Tourada ocorre mundialmente em apenas 9 países, sendo que um número considerável de Estados já baniu a tourada por lei (Argentina, Canadá, Cuba, Dinamarca, Alemanha, Itália, Holanda, Nova Zelândia e Reino Unido) – informações do sitio Europa Livre de Touradas.
Estima-se que pelo menos 40.000 touros sejam mortos pela indústria de touradas todos os anos na Europa, e cerca de 250.000 no mundo inteiro. E não são touros quaisquer! São animais criados em locais especiais, quase que livres e selvagens, muitas vezes com seus criadores recebendo dinheiro dos respectivos governos para a "manutenção" da tradição! Ou seja, são animais que não tem nenhum tipo de preparação para o massacre ao qual serão submetidos, e que só tem conhecimento de sua triste sina quando no meio das arenas, matança aplaudida por milhares.


E não vou entrar no mérito sobre ser ou não uma antiga tradição, pois acho que ninguém pode discutir tal ponto. Mas o fato de ser uma tradição não significa necessariamente que seja coisa boa e que deva ser mantida.

Édouard Manet (1832 - 1883)
"O Toureiro morto" (1864)

Nasci em maio, signo de touro, e talvez isso explique a certa ojeriza que sinto ao ver as “bonecas” plantadas em seus cavalos cravando afiado espetos no dorso nu do animal, fim único de sangrá-lo e enfraquecê-lo para a entrada triunfal do “valente” toureiro e sua espada. É por isso que sinto grande prazer quando o animal vence, quando projeta o homem por cima de sua cabeça no mais puro ballet da vingança justa!

Touro faz toureiro dançar sobre suas orelhas,
sentir o prazer de ser furado.
Parabens touro.

Consegui dois vídeos curtos sobre a vingança do touro, e aviso logo que são cortantes como as pontas dos cornos da animal! Ou seja: quem achar não ter força para ver, melhor não ver! A mim, apesar de fortes as películas, causa prazer por ver o animal se vingar por puro instinto e ânsia de sobreviver à agressão covarde e planejada do outro animal , este sim irracional.

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A morte do toureiro

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Quando o touro vence

Que me desculpem as famílias de toureiros ou dos imbecis espectadores mortos, mas eu torço sempre pelo Touro.
Sempre!