sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Pequenos prazeres

Quais são as pequenas coisas que fazem surgir uma felicidade enorme? Para uns, uma casa. Para outros, um carro melhor. Para alguns, por fim, uma máquina de lavar roupas.

E foi assim, sem saber nada sobre lavagens, sobre o mundo de sabão em pó e amaciantes, que me aventurei a desbravar o mundo das lavadoras de roupa. Por conselho da mãe, sabia que deveria comprar uma máquina da marca Brastemp (vais perceber a diferença!) que tivesse a centrífuga em aço inox (tudo que é de aço inox é melhor, meu filho. Dura mais...).

Com todas essas dicas, quase obrigações na cabeça, não foi muito complicado chegar na loja e simplesmente dizer: quero isso assim, assado. E como o preço estava melhor do que imaginava, na verdade bem menor do que pretendia encontrar, voltei para casa como feliz proprietário de uma linda máquina de lavar roupas da marca sugerida pela mãe, com todas as especificações observadas.

E dois dias depois chegou o brinquedo novo, assim como chegou a aflição da criança que ganha brinquedo e não ganha a pilha... Roupa suja, havia aos montes, toda a instalação no lugar. Mas como lavar roupa se não havia sabão e o que mais fosse preciso (e o que mais era preciso mesmo?)?

Certa vez pensei, e lembrei disso por razões obvias, que as prateleiras de xampu nos supermercados deviam se dividir da seguinte forma: uma para mulheres, com seus mil tipos de xampu, e outra para os homens, uma prateleira simples com somente um tipo de xampu, o Xampu para Homens, fácil assim... Um dos meus maiores dramas ao fazer as compras é saber qual meu tipo de cabelo, se o xampu deve ou não ter sal, se meu cabelo é danificado ou não... Imaginem então o que senti na parte de sabão em pó, amaciantes e alvejantes, tudo isso espalhado em longo corredor com trezentas opções de cada tipo de produto e marca. Fiquem felizes, fabricantes! Seus comerciais e milhões gastos em propaganda surtiram efeito: comprei as marcas que conheço, e nem sei se são boas, mas tudo é tão belo na TV que certamente servirão para lavar alguma coisa (p.s.: fiquei tentando a comprar sabão Tanto, mas achei o Omo mais confiável).

As pilhas chegaram, vamos testar o brinquedo novo - e é claro que tudo foi feito sem um pingo de planejamento. Simplesmente fui lavando roupa, lavando roupa, e acabei lavando tanta roupa que fiquei sem ter onde estender. Havia comprado um bom varal, os males do apartamento pequeno, mas acabei largando roupa pelas cadeiras e bancos, qualquer espaço que possibilitasse uma secura futura... Podem rir, eu mesmo ri da minha leseira, mas também saibam que me diverti e gostei de poder resolver meus problemas, a roupa suja que sempre era fardo pesado, tudo sempre lavado entre idas e vindas, tudo agora resolvido aqui, na minha área de serviço, por mim, de modo prático, rápido e simples.

De mais prático, vamos lá: [1] estou testando marcas e cheiros de tudo, e devo continuar assim até perceber que estou completamente indeciso e começar tudo de novo. Aceito dicas; [2] descobri a oitava maravilha do mundo, o amaciante de roupas... que invenção fabulosa e simples, que cheiro puro e alegre; [3] tenho medo de alvejante. Sempre acho que minha mão pode derreter e que minhas roupas podem sair manchadas e imprestáveis - lembro, inclusive, que mamãe baniu Q-boa de casa depois de uma desgraça com várias peças suas - é assim que se escreve Q-boa?; [4] Aprendi, da pior forma, que roupas escuras nunca, nunca mesmo!, podem ser lavadas com as roupas brancas. E não brinque com isso ou você corre o risco de ir trabalhar com todas as blusas brancas meio alaranjadas.

Por fim, também descobri que gosto de lavar roupas, e devo continuar gostando por mais uns dois meses, até começar a detestar lavar roupas e não querer mais olhar nos olhos da minha máquina nova.

Menterei vocês informados da minha nova diversão.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Resoluções

Uma das grandes questões que pretendia resolver com o Ipad era a postagem no Blog. Realmente, nessa correria de viagens e audiências, cada vez mais se tornavam raros os textos diante da pressa da vida cotidiana. Ocorre que a plataforma do Ipad se mostrou um pouco arredia às postagens do Blogger, as dificuldades e pequenas travadas na página da internete que me tiravam a paciência, e foi então que o blog ficou mais uma vez esquecido. Agora, fuçando na AppStore, acabo de encontrar esse programa chamado BlogPress ($2,99), bem recomendado e cheio de estrelas. Baixei e estou testando, e quem sabe isso não seja a solução para toda a via crucis relatada acima.

Somente a título de teste, posto uma foto feita em Ajuruteua neste final de semana, momento registrado com paciência pelo Wagner Mello. Espero que funcione!




- Posted using BlogPress from my iPad

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Importante

Segue uma informação importante. 1. Uma célula humana contém 75MB de informação genética; 2. Um espermatozóide contém a metade, o que significa 37,5 MB; 3. Um mililitro de sêmen contém 100 milhões de espermatozóides; 4. Uma ejaculação média dura 5 segundos e contem 2,25 ml de sêmen; 5. Isto significa que a produção dos membros de um homem igual a 37,5 MB x 100.000.000 x 2,25) / 5 = 1.687.500.000.000.000 bytes / segundo = 1,6875 Terabytes / segundo. Isto significa que o óvulo feminino suporta esse ataque DDoS de 1,5 terabytes por segundo, e é permitida a passagem apenas de um único pacote de informação… o que faz com que a mulher seja considerada o melhor firewall do mundo. A má notícia é que este único pedaço de informação que passa faz o sistema travar por cerca de nove meses... Mas todo firewall tem seu bug, né...?

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Em tempo

Em tempo: o blog esteve parado e vocês devem ter percebido isso - ou não. Acho desnecessárias explicações, ou prefiro me poupar delas, mas vou tentar voltar. Caso não queiram que volte, digitem a opção 5 após o bip.

Dia dos pais atrasado

Recebi essa mensagem do Fernando Dourado, um bom amigo. Faço delas minhas palavras atrasadas pelo dia dos pais.
Há anos que vivo o prazer de ser acariciado e homenageado como PAI.

De uns anos para cá, emocionado, percebo o quanto é bom ser carinhosamente festejado e chamado de AVÔ por nossos netos.
E, há muitos anos que lamento não poder abraçar meu PAI e ÁVÓS, pelo menos, no DIA DOS PAIS.
Mas, amanhã, quando o DIA DOS PAIS chegar, vou receber meus filhos e netos e dar-lhes as bençãos festejando meu PAI e AVÓS, pois, sem o exemplo deles, jamais viveria o prazer de ser homenageado por filhos e netos.
FELIZ DIA DOS PAIS, para você, também, homenageado por seus filhos e/ou netos e/ou homenageando/ festejando seu PAI ou AVÓS.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Para Iphone

Para quem curte Iphones e seu acessórios, aqui vão umas dicas imperdíveis publicadas pelo portal Terra (dica do Carlos Sampaio).
Este alto-falante para iPhone 4 é do tipo analógico, ou seja, ele não precisa de eletricidade para funcionar. O dispositivo tem um funcionamento similar ao do gramofone: ele apenas amplifica várias vezes o som que é produzido pelo próprio celular.

O Amphibx é uma braçadeira que transforma o seu iPhone ou iPod Touch em um dispositivo à prova d'água. O acessório suporta até 12 m de profundidade, conta com uma tela que facilita o controle do iPhone, traz entradas para fones de ouvido e flutua sobre a água.

Este dock para iPhone se conecta ao celular através do Bluetooth. Ele permite que o usuário atenda as ligações através do fone ou pelo alto-falante embutido que, segundo o fabricante, provê uma qualidade de som superior à do próprio iPhone.

Faixa ajuda o usuário a prender o celular na perna.

O iGrill é um conjunto de hardware e software que ajuda o usuário a monitorar a temperatura da carne que está assando. O termômetro é capaz de informar qual o estágio em que a refeição se encontra, além de agir como um timer.

O Lego iPhone Case é uma capa protetora para iPhone 4 que tem a parte traseira compatível com os famosos blocos de montar da marca Lego. O case permite que o usuário libere sua imaginação e crie as mais diversas estruturas, usando o acessório como base.

Além de ser um case para iPhone 3G, este acessório também serve como adaptador para lentes externas e intercambiáveis. Mas toda essa sofisticação e design têm um preço salgado. São US$ 200 apenas pelo protetor do celular e mais o custo de cada lente, que varia entre US$ 20 e US$ 60.

As Dots Gloves são luvas especiais desenvolvidas para que os usuários de aparelhos com tela sensível ao toque possam utilizar seus celulares mesmo em ambientes frios, onde tirar as luvas não é uma opção agradável.

Compatível com qualquer modelo do iPhone e do iPod, esse suporte de papel higiênico funciona como caixa de som.

A fabricante Griffin revelou recentemente um case para iPhone e iPod Touch que foi desenvolvido pensando especificamente nas crianças. Ele é semelhante a um bicho de pelúcia, com seis braços e um bolso para o dispositivo no centro.

O ThinkGeek TK-421 é um case para iPhone 3GS e 4 que adiciona uma teclado QWERTY físico ao celular. O dispositivo fica escondido na parte traseira do aparelho e é rotacional.

Adicionar um teclado de notebook ao iPhone não parece má ideia, mas o acessório ocupa dez vezes mais espaço do que o smartphone.

O Trumpet Analogue iPhone Speaker é um alto-falante analógico para o iPhone. Além do seu visual completamente inusitado e cheio de personalidade, o Trumpet Speaker não utiliza nenhum tipo de energia ou dispositivo elétrico. A não ser, é claro, o próprio celular.

O iFan é um dispositivo que utiliza uma pequena hélice e um dínamo para captar a energia do vento e transformá-la em energia elétrica, que é usada para carregar a bateria do iPhone. Entretanto, o tempo estimado para uma recarga total é de seis horas.

domingo, 8 de maio de 2011

Quanta dificuldade


O cara termina o segundo grau e não tem vontade de fazer uma faculdade.  O pai, meio mão de ferro, dá um apertão: 
- Ah, não quer estudar? Bem... perfeito! Como não mantenho vadio dentro de casa, vais trabalhar!
O velho, que tem muitos amigos influentes, fala com um deles, que fala com outro, até que consegue audiência com um político que foi seu colega na época de colégio: 
- Rodriguez, meu amigo... Tu te lembras do meu filho? Pois é! Terminou o segundo grau e anda meio à toa, não quer estudar... Será que tu não consegues nada pro rapaz, só para que ele não fique em casa vagabundeando? 
Depois de três dias, Rodriguez liga:
- Zé, já tenho o emprego pro teu filho! Ele vai ser Assessor na Comissão de Saúde do Congresso, salário de R$ 9.000,00 por mês, prá começar. 
- Tu estás louco! O guri recém terminou o colégio. Se começar ganhando essa fábula não vai mais querer estudar. Consegue um salário mais baixo... 
Dois dias depois, Rodrigues liga novamente:
- Zé! Arranjei uma nova colocação pro teu filho: vai ser secretário de um deputado amigo meu, salário modesto, uns R$ 5.000,00. Tá bom assim? 
- Não, Rodriguez! Preciso de algo com um salário menor. Eu quero que o guri tenha vontade de estudar depois... Me consegue outra coisa, por favor. 
- Olha, Zé... a única coisa que posso conseguir é um carguinho de ajudante de arquivo, alguma coisa de informática, mas aí o salário é uma merreca, uns R$ 2.800,00 por mês...
- Rodriguez, ainda acho muito. Eu estava pensando em alguma coisa por volta de 500, 600 reais. 
- Bem, mas aí é impossível...
- Mas por que???
- Porque esses salários são reservados para concurso público para professor ou médico. E aí já viu, né? Precisa de curso superior, de mestrado, doutorado... Complica arranjar um emprego destes pro teu menino.
[RISOS]

Chicória

A notícia é antiga, data de 30 de março de 2011, mas decidi colocá-la no blog mesmo assim. Sem qualquer viés religioso, ou algo parecido, é perfeita ilustração de que não se deve reclamar da vida por nada (o que parece ser característica usual do ser humano). A matéria, na verdade, é basicamente o relato de vida de Karina Aparecida Chicória, 27 anos, que ficou tetraplégica aos 14 anos, após levar uma facada na nuca que atingiu a coluna cervical. Segundo informações da Folha, Karina viveu por 13 anos no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e era considerada a mais antiga moradora da instituição. Leia o relato:
"Faltava quatro meses para meu aniversário de 15 anos. Me lembro bem da data de quando tudo aconteceu, 13 anos atrás. Estava na casa de uma amiga, que cuidava de uma bocada de drogas.
Outra colega, a Cirley, que queria visitar o namorado na cadeia, me pediu para ficar no lugar dela. Em troca, me daria R$ 80.
Eu aceitei. Eu tinha 14 anos, era uma época que eu estava meio revoltada, com más companhias. Nunca havia experimentado droga, só maconha, nem vendido.
Ela me deu 28 papelotes de cocaína. Vendi um deles, mas depois percebi que havia perdido um.
Tive então uma ideia. Sabia que as meninas abriam os papelotes, pegavam um pouco de cada e refaziam um outro para vender e ganhar dinheiro. Pensei em fazer isso para repor a perda.
Estava terminando [o serviço] quando chegou o dono da droga. Ele ficou furioso com a Cirley e ela, brava comigo porque perdeu o emprego. Eu estava encostada no portão quando senti um negócio passar no meu pescoço. Era ela [a Cirley], que veio por trás e me deu uma facada na nuca. Antes de cair, eu a vi com a faca.

A NOTÍCIA
Minha cirurgia durou oito horas. Depois, foram 18 dias em coma e seis meses no CTI. No dia seguinte [à cirurgia], acordei com minha mãe me chamando. Eu me lembrava de tudo. Só xingava e queria me vingar da menina.
Três meses depois veio a notícia. A médica veio e disse que eu ia ficar tetraplégica. Perguntei: "o que é isso?"
Ela disse que eu perdi os movimentos do pescoço para baixo e que ficaria dependente de um respirador. Eu perguntei até quando. Ela respondeu: "Até quando Deus quiser".
Só chorava. Era conversar comigo que eu chorava. Foi assim uns quatro meses.
Até que o médico me deu uma bronca. "Já te expliquei várias vezes o que você tem e não é para você ficar chorando. Essa é a última vez que você vai chorar." E não chorei mais, só quando ficava muito triste.
VIDA NO HOSPITAL
Fiz muitos amigos aqui. É uma segunda família. E muita gente já aposentou.
Voltei a estudar --parei na 3ª série. Agora, já conclui o ensino fundamental. Também aprendi a pintar com a boca. Fiz oito quadros.
A internet me ajuda também. Tenho Orkut, MSN.
Converso com os pacientes novos, com os acompanhantes. Até o cantor Belo, meu ídolo, já veio me visitar.
SUICÍDIO
Há dois anos, entrei numa depressão feia, até tentei me matar. Tentei tirar o respirador à noite, mexendo o pescoço. Só que não consegui.
Acho que Deus falou: "Vou dar um susto nela, para ela acordar pra vida." Porque no outro dia, estava dormindo e o respirador saiu sozinho, sem eu querer.
Quando as enfermeiras chegaram, estava perdendo a consciência. Pedi perdão a Deus, vi que não queria morrer, eu queria viver.
CASA
Hoje [dia 29 de março de 2011] me despedi dos meus amigos do hospital [Ela voltou para casa no dia seguinte, 30 de março].
Planejei como seria a festa de despedida: as fotos projetadas em um telão, a música de fundo. Teve até convite.
Eu não via a hora de ir para casa. Tudo graças ao respirador que o Estado enviou, à ajuda do pessoal do HC e também porque minha mãe poderá ficar comigo.
SONHO
Quero continuar estudando, terminar o ensino médio. No começo, queria fazer enfermagem. Agora estou pensando em jornalismo, porque no hospital criei um jornal mural. Meu desejo era ir para casa. E esse é o primeiro sonho que estou realizando."

terça-feira, 26 de abril de 2011

Sinfonia na TransBrasiliana

Comecei me assustando com um ônibus moderníssimo, bem diferente dos veículos que geralmente fazem a rota Belém-Garrafão do Norte. Mas a felicidade pela viagem aparentemente mais confortável logo desapareceu quando várias telas se abriram do teto e, tal qual um avião, descobri que o ônibus novo estava equipado com um completo sistema de entretenimento. Levando em consideração o gosto musical quase massificado de motoristas e cobradores, certamente aquilo se revelaria uma desgraça, o que não demorei a comprovar.
A primeira obra audiovisual foi de um grupo chamado Limão com Mel, a gravação ao vivo do primeiro DVD deles: eram músicas que nunca ouvi, cantadas por pessoas que não sei quem são, tudo isso num local enorme, tal qual um estádio de futebol. Apesar do meu completo desconhecimento, parece que o grupo faz um sucesso danado. O ônibus inteiro começou a cantar músicas sobre amor, traição, paixão e Deus - e o cobrador, esperto, aproveitou para "manicar" uma menina novinha, com cara de colegial.
Depois colocaram um DVD do Belo, pedido exaltado da senhora que estava bem atrás de mim. O Belo eu já conheço (acho que todos conhecem), se não pela qualidade musical, pelas notícias das páginas policiais. De qualquer forma, surge novamente uma dúvida eterna - qual a razão de se chamar Belo um homem daqueles?
Por fim, como se não fosse o bastante após quase quatro horas na estrada, me arranjaram um DVD do Bonde do Forro. Nem vou fazer comentários sobre essa banda, misto de forro com sertanejo, uma das coisas mais toscas que já vi ou ouvi. Mas, novamente, o problema parecia ser só meu - todos conheciam as músicas e chamavam os cantores pelo nome, tal qual bons amigos. Realmente, aho que preciso me inteirar das coisas...
Já quase chegando em Garrafão, por sorte (Sangue de Jesus tem poder!!!), o aparelho de DVD travou e nada o fez funcionar novamente. A desgraça geral da nação TransBrasliana ficou estampada em lamentos e gemidos de dor, reclamações mil pelo fim da programação "maravilhosa". Mas o cobrador, sempre ele, logo descobriu uma solução: um dos vários CDs piratas que havia acabado de comprar. Juro que, nesta hora, gelei!!
O que poderia sair dali? Que outra pérola da Música Popular Brasileira poderia surgir daquele "case" preto? Para meu espanto, ele escolheu justaente um Cd do Ritchie, algo humanamente aceitável diante das escolhas anteriores. O problema foi ter repetido umas 10 vezes Transas, de modo que "quando se quer mais, gente diz 'bye-bye'" não sairá da minha cabeça pelas próximas horas.
Amanhã, na volta, colho outras observações para dividir com vocês. E me desejem sorte.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Dano moral?

Juiz dá bronca em homem que pretendia indenização por ser impedido de entrar em agência bancária
"O autor quer dinheiro fácil". Dessa forma começa o despacho da sentença do juiz de Direito Luiz Gustavo Giuntini de Rezende, da vara Especial Cível e Criminal do Fórum de Pedregulho/SP. O autor da ação foi impedido de entrar na agência bancária pela porta giratória, que travou por quatro vezes. Assim, pretendia ser indenizado pela instituição financeira por danos morais, sob a alegação de que foi lesado em sua moral, uma vez que passou por situação "de vexame e constrangimento".
Veja abaixo a íntegra da sentença.
434.01.2011.000327-2/000000-000 - nº ordem 60/2011 - Reparação de Danos (em geral) - - R.P.S. X BANCO DO BRASIL SA - Vistos. Roberto Pereira da Silva propôs ação de indenização por danos morais em face de Banco do Brasil S/A. O relatório é dispensado por lei. Decido. O pedido é improcedente. O autor quer dinheiro fácil. Foi impedido de entrar na agência bancária do requerido por conta do travamento da porta giratória que conta com detector de metais. Apenas por isto se disse lesado em sua moral, posto que colocado em situação "de vexame e constrangimento" (vide fls. 02). Em nenhum momento disse que foi ofendido, chamado de ladrão ou qualquer coisa que o valha. O que o ofendeu foi o simples fato de ter sido barrado - ainda que por quatro vezes - na porta giratória que visa dar segurança a todos os consumidores da agência bancária. Ora, o autor não tem condição de viver em sociedade. Está com a sensibilidade exagerada. Deveria se enclausurar em casa ou em uma redoma de vidro, posto que viver sem alguns aborrecimentos é algo impossível. Em um momento em que vemos que um jovem enlouquecido atira contra adolescentes em uma escola do Rio de Janeiro, matando mais de uma dezena deles no momento que freqüentavam as aulas (fato notório e ocorrido no dia 07/04/2011) é até constrangedor que o autor se sinta em situação de vexame por não ter conseguido entrar na agência bancária. Ao autor caberá olhar para o lado e aprender o que é um verdadeiro sofrimento, uma dor de verdade. E quanto ao dinheiro, que siga a velha e tradicional fórmula do trabalho para consegui-lo. Ante o exposto, JULGO IMPROCEDENTE o pedido. Sem custas e honorários advocatícios nesta fase. PRIC Pedregulho, 08 de abril de 2011. Luiz Gustavo Giuntini de Rezende Juiz de Direito VALOR DOPREPARO - R$ 324,00 + R$ 25,00 DE PORTE DE REMESSA E RETORNO DOS AUTOS. - ADV FLAVIO OLIMPIO DE AZEVEDO OAB/SP 34248 - ADV RENATO OLIMPIO SETTE DE AZEVEDO OAB/SP 180737 

terça-feira, 12 de abril de 2011

Sinceridade

Dentre todas as entrevistas ou relatos referentes ao ocorrido em Realengo, o do estudante Carlos Matheus Vilhena de Souza, de 13 anos, me chocou especialmente por razões diversas. Após ser atingido com dois tiros no braço, Carlos foi ao chão e permaneceu quieto, se fingindo de morto, como forma de escapar à desgraça que se abatia aos outros colegas. A entrevista ao Estado de São Paulo seguia seu curso 'normal', como outras, até que o menino nos dá uma demonstração incomum de sinceridade e realismo:

Estadão: Em qual sala você estava?
Carlos: Na sala da professora Patrícia. Ela se mandou na hora e deixou a gente sozinho.
Estadão: Você está chateado com a professora?
Carlos: Não. Foi uma reação normal. Ela saiu correndo. Se tivesse ficado, talvez também fosse atingida. É assim mesmo. Eu teria feito a mesma coisa. Não adianta ficar chateado.
Estadão: Você entendeu o que aconteceu?
Carlos: Nem tentei. Não tem nenhuma explicação.

A vocês as conclusões.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Para Benedito, Estrella

Benedito Nunes morou por muitos anos na rua da Estrella, no bairro do Marco, Belém, até que a Estrella foi renomeada e passou a ser Mariz e Barros, a necessidade "premente" de que fizesse alusão à Guerra do Paraguai (apesar de que Estrella também fazia, não é Lafayette?). 
E foi assim que, durante muitos tempo, Benedito Nunes começou verdadeira guerra contra a mudança, guerra bem ao seu estilo - educada, inteligente e sem qualquer tipo de agressão. A marca mais incisiva a mostrar contrariedade diante da mudança é a placa, ainda fixada no muro do filósofo, indicando sua vontade de que permanecesse Estrella. 
Depois que Benedito Nunes morreu, muitas idéias de homenagens surgiram (algumas bem inusitadas), e acho que nenhuma o deixaria mais feliz do que a proposta do vereador Carlos Augusto, do DEM, apresentada à Câmara Municipal de Belém em forma de projeto de lei: nada tão grandioso como uma movimentada avenida ou calorento aeroporto, a responsabilidade de carregar o nome do ilustre paraense. Somente a singela mudança pretendida durante anos - que Mariz e Barros voltasse a ser da Estrella.
Amanhã, dia 12 de abril de 2011, às 09 horas, a viúva do filósofo, Maria Sylvia Nunes, o secretário de cultura do Estado, Paulo Chaves, mais as amigas Lilia Chaves, Andrea Sanjad e Regina Maneschy, juntamente com o vereador Carlos Augusto, participarão de audiência com o presidente da Casa, Raimundo Castro, para manifestar irrestrito apoio ao projeto que, no entender de todos era a mais pura vontade de Benezinho.
O filósofo por Luis Braga.
Benedito ri.
Para mais informações sobre o projeto, recomendo que leiam aqui: Blog do Carlos Augusto.

Onde as crianças dormem

James Mollison viajou ao redor do mundo e decidiu criar uma série de fotografias mostrando os quartos infantis por onde passava. As fotografias foram depois compiladas em um livro intitulado Onde as crianças dormem. Cada par de fotografias é acompanhada por uma legenda estendida que conta a história da criança. As diferenças entre um e outro espaço do sono é impressionante.
Mollison nasceu no Quênia em 1973 e cresceu na Inglaterra. Depois de estudar arte e design na Universidade de Oxford Brookes, e cinema e fotografia em Newport School of Art and Design, ele se mudou para a Itália para trabalhar no laboratório criativo da fábrica da Benetton.
O projeto tornou-se uma referência de pensamento crítico sobre a pobreza e a riqueza, sobre a relação das crianças com as suas posses -ou a falta delas-. O fotógrafo espera que seu trabalho ajude outras crianças a pensar sobre a desigualdade no mundo, para que, talvez, no futuro pensem como agir para diminuir esta diferença.
Lamine, 12 anos, vive no Senegal. As camas são básicas, apoiadas por alguns tijolos. Aos seis anos, todas as manhãs, os meninos começam a trabalhar na fazenda-escola onde aprendem a escavação, a colheita do milho e lavrar os campos com burros. Na parte da tarde, eles estudam o Alcorão. Em seu tempo livre, Lamine gosta de jogar futebol com seus amigos.
Tzvika, nove anos, vive em um bloco de apartamentos em Beitar Illit, um assentamento israelense na Cisjordânia. É um condomínio fechado de 36.000 Haredi. Televisões e jornais são proibidos de assentamento. A família média tem nove filhos, mas Tzvika tem apenas uma irmã e dois irmãos, com quem divide seu quarto. Ele é levado de carro para a escola onde o esporte é banido do currículo. Tzvika vai à biblioteca todos os dias e gosta de ler as escrituras sagradas. Ele também gosta de brincar com jogos religiosos em seu computador. Ele quer se tornar um rabino, e sua comida favorita é bife e batatas fritas.
Jamie, nove anos, vive com seus pais e irmão gêmeo e sua irmã em um apartamento na quinta Avenida em Nova Iorque. Jamie frequenta uma escola de prestígio e é um bom aluno. Em seu tempo livre, ele faz aulas de judô e natação. Quando crescer, quer se tornar um advogado como seu pai.
Indira, sete anos, vive com seus pais, irmão e irmã, perto de Kathmandu, no Nepal. Sua casa tem apenas um quarto, com uma cama e um colchão. Na hora de dormir, as crianças compartilham o colchão no chão. Indira trabalha na pedreira de granito local desde os três anos. A família é muito pobre para que todos tenham que trabalhar. Há 150 crianças que trabalham na pedreira. Indira trabalha seis horas por dia além de ajudar a mãe nos afazeres domésticos. Ela também freqüenta a escola, a 30 minutos a pé. Sua comida preferida é macarrão. Ela gostaria de ser bailarina quando crescer.
Kaya, quatro anos, mora com os pais em um pequeno apartamento em Tóquio, Japão. Seu quarto é forrado do chão ao teto com roupas e bonecas. A mãe de Kaya faz todos os seus vestidos e gostos -Kaya tem 30 vestidos e casacos, 30 pares de sapatos, perucas e um sem contar de brinquedos. Quando vai à escola fica chateada por ter que usar uniforme escolar. Suas comidas favoritas são a carne, batata, morango e pêssego. Ela quer ser cartunista quando crescer.
Douha, 10, mora com os pais e 11 irmãos em um campo de refugiados palestinos em Hebron, na Cisjordânia. Ela divide um quarto com outras cinco irmãs. Douha freqüenta uma escola, a 10 minutos a pé, e quer ser pediatra. Seu irmão, Mohammed, matou 23 civis em um ataque suicida contra os israelenses em 1996. Posteriormente, os militares israelenses destruíram a casa da família. Douha tem um cartaz de Maomé em sua parede.
Jasmine (Jazzy), quatro anos, vive em uma grande casa no Kentucky, EUA, com seus pais e três irmãos. Sua casa é na zona rural, rodeada por campos agrícolas. Seu quarto é cheio de coroas e faixas que ela ganhou em concursos de beleza. A garota já participou de mais de 100 competições. Seu tempo livre é todo ocupado com os ensaios. Jazzy gostaria de ser uma estrela do rock quando crescer.
A casa para este garoto e sua família é um colchão em um campo nos arredores de Roma, Itália. A família veio da Romênia de ônibus, depois de pedir dinheiro para pagar as passagens. Quando chegaram em Roma, acamparam em terras particulares, mas foram expulsos pela polícia. Eles não têm documentos de identidade, de forma que não conseguem um trabalho legal. Os pais do garoto limpam pára-brisas de carros nos semáforos. Ninguém de sua família foi um dia para a escola.
Dong, nove anos, vive na província de Yunnan, no sudoeste da China, com seus pais, irmã e avó. Ele divide um quarto com a irmã e os pais. A família tem uma propriedade que permite cultivar quantidade suficiente de seu próprio arroz e cana de açúcar. A escola de Dong fica a 20 minutos a pé. Ele gosta de escrever e cantar. Na maioria das noites, ele passa uma hora fazendo o seu dever de casa e uma hora assistindo televisão. Dong gostaria de ser policial.
Roathy, oito anos, vive nos arredores de Phnom Penh, Camboja. Sua casa fica em um depósito de lixo enorme. O colchão de Roathy é feito de pneus velhos. Cinco mil pessoas vivem e trabalham ali. Desde os seis anos, todas as manhãs, Roathy e centenas de outras crianças recebem um banho em um centro de caridade local, antes de começar a trabalhar, lutando por latas e garrafas de plástico, que são vendidos para uma empresa de reciclagem. Um pequeno lanche é muitas vezes a única refeição do dia.
Thais, 11, mora com os pais e a irmã no terceiro andar de um bloco de apartamentos no Rio de Janeiro, Brasil. Ela divide um quarto com a irmã. Vivem nas vizinhanças da Cidade de Deus, que costumava ser conhecida por sua rivalidade de gangues e uso de drogas. Thais é fã de Felipe Dylon, um cantor pop, e tem pôsteres dele em sua parede. Ela gostaria de ser modelo.
Nantio, 15, é membro da tribo Rendille no norte do Quênia. Ela tem dois irmãos e duas irmãs. Sua casa é uma pequena barraca feita de plástico. Há um fogo no centro, em torno do qual a família dorme. As tarefas de Nantio incluem cuidar de caprinos, cortar lenha e carregar água. Ela foi até a escola da aldeia por alguns anos, mas decidiu não continuar. Nantio está esperando o seu moran (guerreiro) para casar. Ela só tem um namorado no momento, mas não é incomum para uma mulher Rendille ter vários namorados antes do casamento.
Joey, 11, mora em Kentucky, EUA, com seus pais e irmã mais velha. Ele acompanha regularmente o seu pai em caçadas. Ele é dono de duas espingardas e uma besta, e fez sua primeira vítima -um cervo- quando tinha sete anos. Ele está esperando para usar sua besta durante a temporada de caça seguinte. Ele ama a vida ao ar livre e espera poder continuar a caçar na idade adulta. Sua família sempre come carne de caça. Joey não concorda que um animal deve ser morto só por esporte. Quando não está caçando, Joey freqüenta a escola e gosta de ver televisão com o seu lagarto de estimação, Lily.

Dica do Carlos Sampaio e da Regina Manescky. Aqui também tem.

sábado, 9 de abril de 2011

E Então, Que Quereis?...



Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado.
As ameaças e as guerras, havemos de atravessá-las,
rompe-las ao meio,
cortando-as como uma quilha corta
as ondas.

Maiakóvski (1927)

Minha Lua Crescente

Me espanta que ela tenha vivido tanto... Começa que ela nasceu pequena, tão pequena que foi deixada de lado pela mãe em dedicação quase exclusiva ao resto da ninhada. Me lembro bem desse dia: a mãe estava presa em uma outra cela para que pudéssemos escolher os filhos em relativa calma. Na grade principal, onde estavam os pequenos, todos se colocavam no gradil em busca do afago e da escolha. Ela não. Ficou o tempo todo em pose aristocrática, no fundo do canil, em olhar firme e decidido àqueles que poderiam ser seus donos. Em momento algum ela latiu e fiquei curioso com aquela atitude. Pedi para vê-la e foi incrível o que aconteceu: fui escolhido. Pequenina, com pouco mais de três meses, ela me lambia e tentava escalar pelos meus braços. E então escutei os latidos, baixos mas fortes, prenuncio de cachorro valente. E se escolhido fui, sacramentei tudo e viemos embora. Seu nome seria Luna.
Logo depois surgiu um tumor em uma das patas e não demorou para que ela não pudesse andar. Foram dois meses internada, duas clínicas diferentes, quatro médicos-veterinários e seis operações. No final, o problema marcado de forma definitiva nas cicatrizes, recebemos a pior das notícias: em uma das clínicas ela havia contraido cinomose, doença que é quase uma sentença de morte para um cão. Ela estava com seis meses quando diagnosticamos e não havia muito a ser feito: segundo os médicos, ela já havia passado por todas as fases da veloz doença (febre, secreção nasal e ocular, indisposição, anorexia, depresão, vômito, diarrei, desidratação, leucopenia, dificuldades respiratórias, hiperceratose do focinho e dos coxins plantares, mioclonia e sintomatologia neurológica) e estava no final de tudo, já nessa terrível sintomatologia neurológica
"Não sei como ela chegou até aqui", "Ela não vai sobreviver muito tempo" e o temível "Melhor sacrificar" foram as frases que mais escutamos, mas preferimos ver o quanto ela aguentaria, ela que havia sido sempre tão valente. Pois acreditem, ela não somente sobreviveu como teve mínimas seqüelas: o andar, que já era balançante por conta do tumor, ganhou um ritmo especial, um jeito de correr que era só dela. Quem a visse em disparada pelo jardim poderia crer que se seguiria feia queda, ou que a cadela estava bêbada - mas ela corria mais rápida que todos os outros cachorros. Corria sim.
Depois disso, creio eu, ela teve uma boa vida, dona de um enorme quintal, um grande canil e ração farta. Conseguimos um veterinário que fazia visitas semanais e tudo parecia sob controle. Foi quando ela deu provas do seu valor: um dia a casa foi assaltada, ou houve uma tentativa. O plano dos bandidos era abrir o portão e esperar que todos os cães fugissem para concretizar o crime. E como era de se esperar, e ninguém pode culpá-los, todos os cachorros escaparam em busca dos prazeres sempre negados da rua. Menos ela. Enquanto os demais passeavam e namoravam, curtindo a liberdade, ela ficou sentada no portão em gesto agressivo e protetor. Segundo contou uma testemunha, os homens ficaram por quase 30 minutos esperando que ela abaixasse a guarda, mas não esperavam que ela se mantivesse firme. Quando foram embora, a situação aparentemente controlada, ela fez o inimaginável: se postou embaixo da minha janela e começou a latir de forma curta e sofrida. Intrigado com aquilo, não demorei a acordar e descobri-la deitada ali, o olhar triste como se pedisse ajuda. Estranhei a ausência dos outros bichos e não tardei a descobrir o ocorrido. Chamamos a polícia, fizemos todos os procedimentos e comemoramos a heroína. Não sei o que teria acontecido, nada descoberto e um mundo de suposições, mas certamente ela nós poupou de algo ruim.
Com a fama e a moral elevada, os outros bobalhões que de guarda só tinham o nome, Luna se tornou conhecida na vizinhança e logo arranjou um namorado. Era um bom cão, se chamava Bidu e não viveu muito (maldita cinomose, doença que mais detesto). Enquanto estiveram juntos foram felizes e, antes de morrer, ele deixou um presente para sua companheira: uma surpreendente ninhada.
Por conta de todo o histórico de saúde, Luna foi acompanhada dia e noite por médicos. Fizemos todos os exames e nos revezávamos ao lado dela. No dia do parto, lembro bem, estava no meio de audiências. Larguei tudo e me meti no canil. Fiquei ali, sentado no chão, ela deitada ao meu lado enquanto o veterinário cuidava de tudo. O clima era pesado, cheio de intranqüilidade e  aparente sofrimento. O veterinário estava visivelmente preocupado. 
E como foi trabalhoso aquilo: o parto começou às 13 horas de um dia e só terminou ao meio dia seguinte. Durante todo esse tempo, Luna suportou com serenidade todas as dores, exatamente como era dela. Ela só não suportou quando suas crias começaram a nascer e não se mexiam, imobilidade que somente a morte pode ofertar. Ela foi uma boa mãe, livrava os bichinhos da placenta e os lambia, se esforçava para que eles se mexessem e esboçassem alguma reação. E a cada tentativa ela me olhava, eu que já não segurava o choro, e sentia como se ela me perguntasse "o que estava acontecendo". "Não sei o que está acontecendo", era só o que conseguia pensar (e nunca soube explicar o porque de a sorte ter sido especialmente cruel com ela em determinados momentos). No final, o veterinário só conseguiu salvar dois dos  nove filhotes, a Preta e a Pintada - ouvimos que, provavelmente, havia sido culpa da cinomose, ou algum tipo de seqüela do tumor anterior. Soubemos de tantas coisas e não soubemos de nada, afinal.
Nos últimos anos, depois da separação, eu pouco convivi com ela. Me limitava aos breves afagos por entre a grade, ela que sempre foi exemplo de carinho e dedicação a mim, e sei que sobreviveu a muitas coisas, muitas brigas, e que vivia feliz no enorme quintal, ela e suas filhas, em alegres brincadeiras com meus filhos.
Há um mês, com poucos seis anos de vida, Luna começou a mancar mais intensamente e, um dia, não conseguiu levantar. Novas visitas de diversos veterinários que, novamente, não souberam explicar o que acontecia. Hoje, dia 09 de abril de 2011, ela não acordou. Deitou para dormir e resolveu que assim seria melhor, ficar quieta e serena. Talvez estivesse cansada de tanta atribulação na vida ou, quem sabe, simplesmente não haja nenhuma explicação, as coisas todas que pararam de funcionar e pronto. Fim. 
O enterro foi hoje mesmo, em um dos cantos do quintal, justamente onde ela gostava de pegar sol todas as manhãs.
De cima para baixo: Bombom, Pintada e Luna (única foto que tenho dela)
E para todas as coisas sem respostas, muitas outras se revelaram claras e certas: o quintal não será mais o mesmo e nem será a mesma brincadeira das crianças, o cão-cavalo preferido por sua paciência e sabedoria, o cachorro enorme e confiável que soube sofrer de forma valente e também soube dar lições. Não abandonar, não desistir e não fraquejar. Ser leal e ser firme. Ser valente ao mesmo tempo que dura e carinhosa. E hoje a Lua não se põe, eis que foi feliz.

Segredo do Chupa-Cabra





Descoberto o verdadeiro Chupa-Cabra.
Enviada pelo Wagner Mello, tirada do Jesus Kid.

Domisteco no Comida di Buteco

O Domisteco recebeu convite para participar do 1º Comida di Buteco de Belém, concurso gastronômico que elege, em várias cidades, o boteco com a melhor comida. Tudo começou em 2000 na cidade de Belo Horizonte, MG, com apenas 10 botecos concorrendo. Hoje o concurso acontece em 15 cidades e registra, somente em BH, um público estimado de 800 mil pessoas por edição, com mais de 160 mil votos nos pratos participantes.
Segundo Leonardo Aquino, assessor de imprensa do evento aqui em Belém, serão 16 bares participantes. A lista ainda é sigilosa e será divulgada somente na noite da caravana inicial, na quarta-feira, 13 de abril (o local de partida ainda não foi definido. Assim que souber, aviso a vocês).
Nesta primeira noite haverá visita a três dos 16 botecos e já vamos experimentar alguns dos petiscos que estarão na votação. Para mais informações, se deliciem no site do Comida di Buteco e no Twitter @_comidadibuteco. E acompanhem aqui no Domisteco e no Twitter @tantotupiassu.

Frutos do Mar

Vocês preferem lagosta ...
 ... ou Lula?

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O que vemos e o que as crianças vêem!










Enviada pela Regina Maneschy.

O resultado



- Papai, por que ele fez isso?
- Filha... Acho que a gente nunca vai ter essa resposta.
- Mas esse colégio não tinha segurança? Como ele entrou com as armas?
- Ele enganou a segurança, disse que ia dar uma palestra e entrou.
(silêncio)
- E isso não pode acontecer aqui, pai?
- Não, filha! Nunca! Nunca aconteceu e nem vai mais acontecer.
- Você tem certeza, papai?
- Tenho, filha. Tenho certeza.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

As regras

Panorama. Holofote. Felipe Patury. Revista Veja desta semana.
A nota segue um roteiro imprevisível e começa deixando algo claro:
"Até os adversários do diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, o reconhecem como um dos quadros de maior competência da estatal". Maravilha! Significa dizer que o cara é bom e que mesmo quem não gosta dele o admira. Segue a nota: "Apesar disso, sua permanência no cargo não está garantida."
- Poxa, que pena! - deve pensar quem concorda que perder um dos quadros de maior competência é algo triste e indesejável, ainda mais em uma empresa como a Petrobras. E por que o perderemos? "De acordo com Palocci [ministro da Casa Civil], Costa tem muitos apoios políticos, mas não os adequados."
Mas ele não é reconhecido pela sua incrível competência, mesmo por seus adversários? E o que seriam apoios políticos inadequados?
"Ele chegou ao posto graças [à] (...) ala do PP envolvida com o mensalão e chefiada pelo falecido deputado José Janene (PR). No último governo, recebeu também o aval da ala mensaleira do PT e do PMDB do Senado."
Então ele teve apoio de gente ligada ao PT, que agora é criticada e afastada pelo próprio PT, e acabou se mostrado "um dos quadros de maior competência da estatal". E agora, como resolver esse impasse?
A solução: "Alertado por Palocci, o líder desse partido [PMDB] na casa, Renan Calheiros (AL), tenta encontrar o endosso certo para o diretor."
Mas então eu pergunto: o endosso certo já não foi encontrado? Não seria a reconhecida competência? Afinal, o homem é considerado, mesmo pelos adversários, "um dos quadros de maior competência da estatal"? Não há mérito nesse reconhecimento ou o mérito é somente o endosso correto? E que dizer do endosso anterior, que seria razão mais do que suficiente para um afastamento ou, mesmo, uma não nomeação?
O fato é que nada muda, continuam as mesmas regras (e a crítica vale para todos os partidos e para todos os níveis de governo): fica quem tem o apoio correto e dane-se o mérito!
Quem não tiver apoio roda, mesmo que seja "um dos quadros de maior competência da estatal" - o que, em se tratando de Petrobras, significa muita coisa.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Fazer filhos dormir III

É estranho ouvir a casa silenciosa assim tão cedo. Não é uma da manhã e tudo dorme, tudo apaga, a casa que repousa por conta da pequena que precisa descansar.
Aqui dormimos sempre tarde, os barulhos de teclado e tevê que facilmente alcançam duas ou três da madrugada em insônia constante.
Fazia tempo que a paz não reinava dessa forma.
...
Priscilla me ligou no meio da manhã: havia começado uma obra em sua casa e o cheiro de tinta e gesso despertou a asma de Maria. Agora elas se encontravam em um mundarel de ampolas, soros e exames, nada de grave, mas as chateações de sempre. E como não havia condições de ficar na casa empoeirada, surgiu o pedido: Ela pode ficar contigo esse resto de semana?
Nem precisaria de resposta se Priscilla pudesse ver meu sorriso besta, de orelha a orelha, rasgando a carranca matinal. Tive, inclusive, que me segurar para não dizer que podia ser sempre assim, os dias todos comigo, o pai sempre saudoso dos seus pequenos (mas minha mãe ensinou que mães têm direitos sagrados - e quem sou eu para contradizer uma mãe!).
...
A menina está doente, respiração funda e pesada por conta da asma detestada. Mesmo assim ela insiste em pular e cantar, os mil convites para desenhos e jogos e o pai que se transforma no grande brinquedo ao sabor das vontades da filha.
Farinha Lactea tomada, dentes escovados e menina asseada, deitamos então para ler um pouco: ela devora em letras sua nova paixão - um tal de Percy Jackson. Já eu, tentava terminar a última Piaui quando ela se virou e disse: Papai, acho que já quero dormir. Canta uma música para mim?
...
Cantar músicas... Minha mãe diz que filho que dorme com cantoria cresce bom cantor. Não sei se é verdade, mas até acho que canto bem e que Maria segue meus passo. E como cantava bem minha avó, agora calada no fundo de sua rede. E como canta bem minha mãe, a voz doce e melodiosa que me dá sempre paz, agora embalando seus netos.
Tal como elas faziam, tenho repertório próprio, tudo já bem conhecido dos meninos (na verdade, são as únicas músicas que sei de cabo a rabo, letra inteira): João e Maria, do Chico; Sampa, do Caetano; Como Nossos Pais, da Elis; Boi Bumbá, do Waldemar Henrique; Tem Gato na Tuba, do João de Barros; e Sua Majestade, o Nenem, a única que não sei o compositor.
Geralmente Maria dorme já em Sampa. Já o Carlos pede sempre Tem Gato na Tuba e Sua Majestade, o Nenem. E sinto que ambos dormem mais tranqüilos quando canto, que ambos acordam felizes e mais sorridentes como se embalados por sonhos bons. Sinto - e na verdade eu sei - pois acontecia o mesmo comigo e com meu irmão.
Hoje, depois da pequena cantoria - tudo bem rápido pois ela estava morta de sono - houve uma última atitude de consciência. Interrompida a música, puxei minha mão da dela e senti o protesto: fui puxado de volta ao abraço que não deveria se desfazer e me deixei ficar, aninhando-a, por quase uma hora.
Nesse tempo pensei em muita coisa: pensei em Paris, nossos dias intermináveis e perfeitos; pensei no Carlos, meu moleque tão distante, sempre visto em breves encontros repletos de novidades; e senti saudades da rede do Gualo, um filho de cada lado e a mãe no centro, nossas músicas preferidas entoadas em suavidade, tudo embalado pelo ranger da rede.
E aviso logo: amanhã haverá mais cantoria, para alegria da filha e plena felicidade do pai.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Trumack e Potdjawa

Em meados de 1750 eram cerca de três mil índios Avá-Canoeiro no Brasil. Hoje são somente dez. Na tribo, quase inteiramente envelhecida, somente duas crianças poderiam gerar um descendente que continuasse a linhagem. São Trumack (nascido em 1987) e Potdjawa (nascida em 1989) os portadores de tal responsabilidade. Ocorre que Trumack e Potdjawa são irmão! Mas para os Avá-Canoeiro, assim como para muitos povos, o incesto é crime dos mais graves,  punido com a morte, pelo que fica posto o dilema mortal: passar por cima das regras tribais, das leis do homem e aceitar descendentes incestuosos, ou aceitar de forma pacífica o fim da etnia.
Quando os portugueses chegaram ao Brasil existiam cerca de três milhões de índios nessas terras. Hoje não passam de 325 mil, menos do que dois Maracanãs lotados.
Ainda existem 215 nações falando 170 línguas diferentes, mas certas situações são desesperadoras: segundo a FUNAI, os Xetá, no Paraná, são somente sete indivíduos; os Juma, do Amazonas, somente cinco; sem contar os Avá-Canoeiro, com seus poucos dez, sendo que somente seis tem contato com a 'civilização'. As tribos mais numerosas são Ticuna (23 mil índios), os Xavantes e Kayapó.
Fonte: Bueno, Eduardo. Brasil: uma história. O Brasil indígena, p. 27.

domingo, 13 de março de 2011

Se vestir para a morte

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, em 19 de maio de 1890. Decidiu morrer em Paris, em 26 de abril de 1916, com poucos 25 anos de idade. Para isso ele escolheu o Hôtel de Nice, em Montmartre, e cinco frascos de estricnina. Convidou José Araujo, seu amigo, para ser testemunha de sua morte.
O amigo partiu depois da morte e não avisou sobre o ocorrido. E como Mário esperava ser encontrado logo, havia vestido sua melhor roupa para criar bom efeito quando fosse encontrado. 
Ocorre que os planos falharam e demorou para que notassem sua falta, o que resultou em uma cena terrível: o corpo, já completamente desfigurado pelo avanço da morte, estava ainda maltratado pelos efeitos devastadores do veneno. A roupa de gala, que deveria causar boa impressão, estava completamente rota e manchada, desfigurada como o dono.
P.s.: Mario de Sá-Carneiro foi poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d´Orpheu (Wikipédia).