sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Em Redenção, Gritos e Avon!

Marabá, 19 de novembro de 2009

Odete não era maluca! Ficou assim depois que perdeu o filho assassinado...” Quem me conta isso é Maria de Nazaré, ou simplesmente a Irmã do Perfume, “mas Irmã do Perfume morena, por que tem outra irmã que vende Avon aqui no terminal, e essa é branca.

Odete é a mulher que vi pelas ruas de Redenção andando a esmo, gritando seu desespero a pleno pulmão para todos. Na vinda à rodoviária a vi mais uma vez, o choro copioso em pleno sol e poeira da cidade, os olhos vermelhos. E sua dor virou riso descontrolado quando percebeu que eu a observava da janela do táxi, a mudança de humor que assusta por ser medida exata da loucura. A reencontrei então já no terminal rodoviário: esperava o ônibus que me levaria a Marabá quando ela entrou precedida por gritos desconexos, início de peregrinação sem objetivo, o caminhar de um lado ao outro segurando um saco plástico cheio de flores! E os gritos começaram a ter algum sentido:

“Não vai ter mais passagem até dia 28 de dezembro! Vão embora... Acabou...”

Foi nesta hora, na aparição da mulher que gritava, que a Irmã do Perfume também surgiu e me ofereceu Avon. Ela viu que tirava fotos da mulher, discreto, e resolveu sentar ao meu lado para contar o que sabia: “Ela já foi minha vizinha, assistia ao culto comigo. Depois o filho virou bandido, único filho. Morreu novo, baleado, não tinha nem 20 anos... Desde então a Odete vive como louca, largada... Só tinha ele no mundo!” Odete passa novamente e levanto para mais fotos, infelizmente todas desfocadas pelo malabarismo da discrição, a máquina aninhada entre os braços de forma errada.

“... acham o quê? Isso é tudo culpa da política...”

Sento novamente, a Irmã do Perfume ao meu lado olhando cheia de piedade a mulher que um dia dividiu consigo o mesmo banco de igreja.
E a senhora, Dona Nazaré? Me fale da senhora!” A Irmã do Perfume mora em Redenção desde 1983 vinda de Brejinho, Maranhão, a família toda deixada para trás, família nova feita no Pará. Vende seus Avons há 15 anos e, com a venda, se mantém e criou as duas filhas, uma delas agora na Espanha, estudante. O marido recentemente se acidentou, a perna quebrada após ter sido colhido por carro, o arriscado pedalar no trânsito maluco de Redenção. E como ele trabalhava na roça, pedacinho de terra que eles têm, cabe a ela agora fazer todo o dinheiro, a missão redobrada nas ruas com a sacola pesada, cheia de Avon, que caleja o ombro: “Ele está de cama e eu tenho que segurar as pontas, né?

Malditos sejam! Vão pagar caro por tudo!

Com Odete parcamente registrada, peço uma foto à Irmã do Perfume: “Prefiro não! Nunca fico bonita em retrato!” Diante da insistência ela cede, faz pose e ri: “O senhor vai colocar isso na internet, é? Acredita que eu nunca entrei na internet?” e ela me pergunta como faz para mostrar à filha distante: “Assim ela pode ver minha foto!” Escrevo o endereço do Domisteco em pedacinho de papel e compro um Avon, desodorante novo para meu kit de viagens, o meu que está quase no fim! E não deixo de pensar em Odete, a mulher que ainda grita pelo terminal e pela cidade, a dor por ter perdido o único filho, a morte que endoideceu a mãe: “Não se preocupe com ela... Logo mais ela some, vai deitar no túmulo do filho e arrumar as flores que colheu para ele! Fica lá, conversando com o menino e depois desaparece... se aquieta em algum canto!

Fotos: Fernando Gurjão Sampaio

7 comentários:

Malicia de toda a mulher disse...

Arrancou-me lágrimas este texto agora. Pensei em como deve ser absurda a dor de perder um filho. Nós, como pais que somos, sentimos uma engasgo só de imaginar. Pobre Odete!

Anônimo disse...

Lindamente triste a história de Odete,a mãe que a dor fez louca.

Tomara que a Irmã do Perfume explique direito para a filha da Espanha como chegar a teu blog kkk, muito legal se lermos aqui algum comment dela no futuro..

Parabéns pelo texto, cabra... os das viagens continuam sendo os melhores.

W

Tanto! disse...

Olha... Assumo a dificuldade em conter lágrimas quando a Irmã me contou sobre as tardes passadas sob o túmulo. Imaginei a mulher, transtornada, conversando com o filho, com a pedra do túmulo, contar da vida ou tentando entender a perda. Vim a viagem inteira pensando nos meus, no que aconteceria comigo se os perdesse!

Realmente, pobre Odete!

Joyce disse...

Pobre Odete!... Loucura que lhe foi dada pela criminalidade em que vivemos... Pobre Odete!

Anônimo disse...

é , meu caro, a odete... para mim, ela ganhou mais colorido, pois conversmos sobre ela lá no bené e vim com ela de lá na cabeça e a "vejo" aqui nas tuas escrituras. sempre penso e fico intrigado com os loucos. sempre penso nas mães e pais (mais nas mães) que perdem seus filhos. eu não saberia conviver com uma dor dessas. nem uetivesse que sair td dia para vender avon pra sustentar a família.
hj, ainda a pouco, persenciei da janela uns caras pegarem um ladrão de bolsa e quase matarem o cara de tanta porrada.
um dia vamos tds descansar, como odete, no túmulo de um ente querido... ou no nosso. eita violência danada!
abç
marton

Anônimo disse...

Não tenho filhos e não consigo imaginar a dor de perder um. Mas teu texto deu uma boa noção pois imaginar a Odete deitada no tumulo o filho é muito triste. Adorei o texto

Luana C. disse...

Perder um filho deve ser a pior dor existente...enlouquecedora, com certeza! Não tenho filhos meus, mas considero alguns como e não consigo imaginar perdê-los.

Pobre Odete que perdeu o seu!
Lindo texto!