sábado, 31 de outubro de 2009

Carta a uma amiga triste

Belém, 31 de outubro de 2009.

Se reconheces teus problemas e sabe onde estão tuas dificuldades, só me resta te dizer força, e não me cabe te irritar com as lembranças dos atos com os quais não concordei! Errar, todos nós erramos, e acho que é inerente ao ser humano fazer pequenas besteiras para depois se arrepender. O problema maior é que, depois de consumado o erro, parece mais fácil manter o rumo nesta direção do que dar a volta e seguir no rumo correto. E é aí que nos afundamos em direção a algo que nos consome e despedaça, que nos faz fracos, exatamente como estas agora.

Poucas vezes conheci alguém tão guerreiro quanto você! Lembra de todas as dificuldades que tiveste, dificuldades que também foram minhas pois estava do teu lado? As noites mal dormidas no quarto de madeira, que mais era um depósito de tralhas velhas, onde te colocaram uma cama, no fundo do quintal? E as vezes em que chegavas da aula, tão cansada, e não tinha mais o que comer, e que andávamos alguns quarteirões para devorar hot-dogs? Ou das vezes em que te maltratavam, tal como entulho que perturba no meio da sala, e ligavas para tua mãe, chorando, e ela tinha que ser forte e não chorar junto contigo? Se não lembras, saiba que eu lembro muito bem! Justamente por isso tenho dificuldades em crer no que dizes agora, que não tens mais forças para lutar, para resolver o que entulha a tua vida, sem forças para fazer o que sabes ser o certo.

Realmente deve ser difícil, mas quem guerreia sempre tem que ter força sempre! E se nas primeiras derrotas o guerreiro fraqueja, sinal de que nunca foi guerreiro, e de que lutou e ganhou somente por sorte, por que teve a felicidade de encontrar sempre diante de si quem não podia lhe oferecer resistência!

Antes de qualquer coisa, tens que te acalmar! A primeira derrota diante de uma situação desesperadora é a própria desesperança. Se acalmar, às vezes, é o mais difícil. Te acalma então, e não fica com tantas idéias tortas na cabeça, pois elas só vão te levar por caminhos igualmente tortos.

Depois, aprende a calar. A desesperança trás o destempero, e com ele surge o que não deveria ser dito. E a palavra dita não volta, e depois de ser falada, tal qual pedra que é jogada, fere.

Por fim, seja um pouco egoísta! Um dia me disseram isso, que em determinada situação eu deveria conseguir ser egoísta para poder remover meus entulhos. Achei de péssimo tom, mesmo porque falávamos de pessoas. Mas as pessoas, quando passam a depender de ti como se fosses a última bóia do barco que afunda, essas pessoas não se agarram a ti por querer, mas por necessidade. E ficar com alguém por necessidade, utilidade ou conveniência é a forma mais curte para a infelicidade.

Então amiga, força! Faz o que sugeri, toma tuas decisões e retira o que te entulha a vida. Não sei se o que te digo agora é o obvio que me pediste para não falar. Mas mesmo que seja, é o que tenho para te dizer e não poderia deixar de fazê-lo. Só não foge, por favor, pois todos os teus problemas vão continuar no mesmo lugar, te esperando. E se precisares de um canto em que possas chorar ou dormir, saiba que terei um bom sofá cama no apartamento que vem surgindo, meu canto que pode ser teu canto sempre que precisares ou quiseres. Afinal, amiga, temos tantas pessoas na nossa vida, mas pessoas que construíram a vida conosco, essa são poucas e preciosas. E vamos marcar aquela viagem juntos, conhecer tudo o que sempre quisemos conhecer e ser felizes, pois na vida, enquanto vivos, sempre teremos tempo!

3 comentários:

Anônimo disse...

queria um amigo pra me dizer isso...

Gleice

Luana C. disse...

Que carta linda, Tanto! Concordo com Gleice.

Se todos nós tivéssemos um amigo para escrever palavras tão bonitas, com certeza tudo seria mais fácil! Beijos.

Tanto! disse...

Bem. Aproveitem as dicas da carta e desentulhem a vida de vocês também! Façamos melhor: desentulhemos nos as nossas vidas, pq acho que ninguém é perfeito e todos temos entulhos.