segunda-feira, 8 de março de 2010

Elizabeth Smith e Edna Mellen

Belém, 08 de março de 2010.

Elizabeth Smith é missionária americana. Durante 17 anos viveu com os índios Kayapo, tarefa árdua que rendeu boas histórias e lembranças. Ela relata, com uma saudade não escondida, ter pescado e trabalhado com os índios, além da difícil missão de, em muitas ocasiões, ter feito às vezes de médico. Enfermeira por formação, não se fez de rogada quando precisou costurar braço e perna, ou qualquer intervenção mais perigosa, “perdidos“ que estavam no meio do nada. Apesar do curriculo admirável, não eram os índios Kayapo que Elizabeth Smith ajudava quando a conheci. Estava na casa de sua amiga, Edna Mellen, também americana, coordenando o que elas chamam, na terra delas, de Garage Bazaar.

A risonha Elizabeth Smith

O Garage Bazaar, ou Bazar de Garagem, acontece quando alguém se muda ou, simplesmente, quer trocar a decoração de sua casa. Eles colocam os objetos que não lhes servem no gramado, chamam os vizinhos, anunciam em igrejas e centros comunitários e vendem tudo por um preço tentador.

Vista da entrada do Bazar

Edna Mellen fraturou a bacia faz quatro anos e, por conta da queda, está sem andar por igual período. Há dois anos ela perdeu seu marido, George Mellen, americano que veio ao Brasil trabalhar com madeira e foi, durante muito tempo, proprietário da Madeiras Gerais S/A, uma das maiores madeireiras do país (sediada em Breves, Pa, contava, no ano de 1984, com cerca de dois mil funcionários, seis serrarias, 27 rebocadores e 22 balsas).

Mulher vasculhando

Sem poder andar, com o marido morto e toda a família morando nos Estados Unidos, Edna resolveu voltar para sua terra e se desfazer de tudo que agregou durante esses quase 30 anos de Brasil. A casa está sendo vendida, bem pertinho de onde mora minha mãe. Já os móveis e brique-braques, a razão da vinda de Elizabeth Smith, foram vendidos durante o Garage Bazaar promovido na grande casa térrea, no dia 06 de março de 2010, um sábado.

Vista da entrada

Minha mãe me avisou do evento e começou a relatar as diversas oportunidades (interessada em antiguidades como ela só, providenciou uma visita solo antes da abertura e pode, com tranquilidade, ver e comprar alguns objetos).

Estante de livros que fazia par com vários outros móveis

No sábado, bem cedinho, fomos os primeiros a chegar. De cara, fiquei perdido no mundo de objetos e móveis, coisa para todos os gostos e desejos. Impossível se ater a algo específico de cara, pelo que demos uma volta por toda a casa vendo os móveis que não tinham sido mudados de lugar, os espelhos e os quadros. Depois de um tempo, larguei minha mãe e irmão se divertindo com uma cômoda e, prontamente, também me distrai com objetos escondidos ao lado da porta de entrada.

Brique-Braques

Descobri uma máquina Canon A1, em perfeito estado de conservação e funcionamento, com diversas lentes e estojo de couro (R$-200,00); duas máquinas Polaroid, uma delas do modelo retráctil, ambas funcionando (R$-30,00 / as duas); um telefone antigo, de disco, na cor laranja, da Telebras (R$-10,00); e uma máquina de escrever elétrica, na cor marrom, com estojo e tudo, da marca Smith-Corona em perfeito estado de funcionamento (R$-20,00). Negociações feitas, fechamos o preço e me tornei o feliz proprietário das “joias“ que descrevi acima.

Meu tesouro

E com o passar das horas, mais pessoas iam chegando e mais coisas iam sendo compradas. Minha mãe fez boa aquisição, móveis lindos, fortes e antigos, totalmente diferente desses “lugar comum“ de MDF e aglomerados. Meu irmão comprou a cômoda que namorou, juntamente com um espelho que lhe fazia par.

Conjunto que meu irmão namorou e comprou

E a casa de Dona Edna ia ficando tristemente vazia, a velha senhora que nem conseguia andar para ver suas coisas partindo. Em um único dia, 30 anos de surpresas, ansiedades e escolhas foram embora, dinheiro feito que ajudará no duro tratamento nos Estados Unidos, a busca para restabelecer o andar.

O carrinho de madeira levando as coisas de Edna Mellen

E vendo as coisas que eram remexidas, que eram separadas para serem compradas, a casa cheia de pessoas ávidas por encontrar algo interessante, acabei por achar o olhar perdido de minha mãe que, singelamente, me pediu: “Vamos embora, meu filho. Isso aqui é por demais triste!“. Ainda tentei argumentar que era escolha de Dona Edna e que, por mais que fosse triste, era o melhor, a velha senhora que precisava do dinheiro e não tinha com quem deixar tanta tralha.

Minha mãe, vasculhando os brique-braques

Fomos embora com um misto de contentamento e embrulho no estômago, o sol do sábado a baixar a moleira e nós, cansados, carregando o que podíamos nas mãos. O resto dos móveis foi entregue logo depois, um carrinho de madeira servindo de transporte. E assim que chegaram foram arrumados por cantos improvisados da casa, sua nova moradia.

Elizabeth Smith deve voltar para os Estados Unidos ainda esta semana, já cumprida a tarefa de ajudar a amiga que não pode andar e é sozinha nesta terra. Dona Edna Mellen partirá somente quando vender a casa e der fim nos brique-braques que ninguém quis.

E assim é a vida de quem vai, e assim é a vida de quem fica, os móveis da velha Dona Edna Mellen que agora ornam a sala onde a jovem filha namora, a mesa de centro da velha mulher que não anda, novo apoio ao neto que aprende os primeiros pasos.

Placa na entrada da casa. A vida por uma pechincha.

P.s.: isso tudo me fez pensar na irresistível necessidade que temos de possuir coisas, o consumismo que nos obriga. Um dia morremos ou ficamos doentes, e nossas coisas serão levadas como as coisas de Edna Mellen, um amigo bondoso como Elizabeth Smith que ajudará a empacotar e levar embora...

Fotos: Fernando Gurjão Sampaio

15 comentários:

Paula Peniche disse...

Lindo o post! Bela história dessa forte mulher! Bem forte e verdadeira a observação: "a vida por uma pechincha"! E parabéns pelas aquisições!

Yúdice Andrade disse...

Uma postagem muito delicada, Fernando. Parabéns.

Jane Murback disse...

Lindo post, de verdade, achei doce a dedicatória.
Realmente, tem um lado triste, de término de ciclo e um lado alegre tambem, porq foi na verdade um início para outras pessoas, incluindo você!
Eu, na verdade, se tivesse ido ao Garage Sale sabado com vc correria o seríssimo risco de, em vez de arrematar antiguidades, ficar com todas as peças Marajoaras dela, que do fundo do coração é uma das coias mais lindas que ja vi na minha vida!
Ela, tanto quanto eu, certamente deve ser absolutamente encantada com a TUA terra.
Bjo

Anônimo disse...

Eu li o que você escreveu e cheguei a seguinte conclusão: a vida me endureceu, tipo coração de pedra, sabe.

O seu relato é muito poético, apresenta uma narração sentimental, que retrata a história de vida desse senhora.

Mas.............
Vamos a realidade:

> eu não consigo sentir compaixão por estrangeiros, que vêm ao Brasil em busca de riquezas.
Pense por um momento,no "estrago" que o dignissimo marido dessa senhora fez em terras brasileiras.

Você consegue imaginar o que o poder de destruição de 6 serrarias, em um estado tão cheio de árvores como o PA ????

Agora passado 30 anos neste país, e com uma saúde frágil, claro que é bem melhor retornar a sua terra natal, pq por aqui já não há mais nada de interessante para se explorar, não é mesmo?

Tanto disse...

Paula e Yudice, obrigado pelos comentários sempre gentis.

Jane, Como falei, tinha de tudo, para todos os gostos. Ias te perder mesmo nas coisas, ainda mais quando soubesses do preço.

Anônimo, não quis entrar neste mérito, pois o foco do Post era o Bazar e a transitoriedade da vida, mas você tem toda a razão. Imagine que ele teve a maior madeireira do Brasil, o que deve corresponder ao maior estrago possível. Mas essa tua observação pode acabar rendendo um outro post, pelo que você falou e também pela história de George Mellen (para quem não sabe, além de ter a maior madeireira do Brasil, ele foi um dos responsáveis por um dos maiores rombos nos cofres públicos paraenses, um rombo de 2 milhões de dolares no Banpará).

Para quem quiser saber mais, eis um link - http://www.terra.com.br/istoe-temp/1657/politica/1657_hora_do_pesadelo.htm

Anônimo disse...

Belo post! isso com certeza nos faz refletir...

Abraços e sucesso pra vc Tanto.

Ass: Mariana ( a anônima do dia 05/03).

Thiago disse...

Ótimo post...

e adorei a "bugiganga" que você comprou heueheue

Lia Sergia Marcondes disse...

Oi, Tanto! Ia comentar aqui, mas o comentário virou um post lá no meu blog: http://liasergia.wordpress.com/2010/03/08/das-coisas-que-ficam/

Depois dá uma passada para ler. :-)

Bjo!

Anônimo disse...

Belo texto e as fotos estao melhorando mais e mais. Pq eu nao fui rs

W

Anônimo disse...

fernando, é realmente isso, da vida nada se leva... mas ela é feitad essas escolhas, pequenas ou grandes, boas ou más.
mas te digo uma coisa, me conhecendo como conheces, não me avisar dessa parada? a próxima vez, se houver, E NÃO ME AVISARES: TE MATO!
ABÇ
MM

Tanto disse...

Obrigado, Mariana. Apareça sempre, viu?

Thiago, o pior foi não ter dinheiro para comprar muitas outras bugigangas que tinham lá.

Lia, obrigado pela divulgação.

W, eu só soube na sexta-feira, por isso não convidei ninguém. As fotos vão melhorando com o tempo, assim espero.

MM, da próxima, se souber com mais tempo, prometo que aviso.

Anônimo disse...

bonita história e texto, mas não gosto de coisa velha

Anônimo disse...

Como sempre, textos cada vez mais bonitos! De muita sensibilidade tamanha! Poxa, uma das melhores pechinchas, heim?

Muito bom!

Beijos.

Anônimo disse...

Ops. *de uma sensibilidade tamanha.

Nathy disse...

Texto emocionante...

Parabéns.