quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Para todos vocês

Para todos, a mensagem que a Thaynara e o Estevão mandaram via comentário no post anterior:
"Gente, eu simplesmente não tenho palavras pra descrever o que estou sentindo, tampouco pra agradecer tudo o que estão fazendo para nos ajudar a dar uma chance de vida ao meu pequeno Lucas que ainda nem nasceu, mas que já é tão amado. É incrível como as coisas estão acontecendo. Ainda em Goiânia recebemos várias ligações de pessoas de todo o Brasil se dispondo a ajudar das mais diversas formas possíveis. Fico constrangida da forma como Deus tem demonstrado Seu amor por minha família através de todos vocês que estão ajudando de uma forma ou de outra. Só tenho que agradecer e dizer que minha vontade era poder dar um abraço em cada um pra tentar demonstrar minha gratidão de mãe, mas não há como. Desejo que esse Deus tão maravilhoso a quem tenho crido, abençoe suas vidas de forma tremenda para que venham sentir Seu cuidado assim, bem pertinho como tenho sentido. Um grande beijo. Thaynara, Estevão, João Pedro e Lucas."

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Bora Ajudar

E diante de tanta coisa ruim nesse mundo, de tanta coisa podre que vemos no nosso dia-a-dia, pequenos milagres vão acontecendo e permitindo que ainda possamos crer no ser humano.
Ontem, depois da publicação da história da Thaynara e do Estevão, que lutam para dar uma chance ao Lucas - bebezinho deles que ainda está na barriga - criou-se uma corrente de compartilhamentos e de Retuites que ainda continua. Sinceramente, perdi a conta de quantos foram, mas nem me importa saber - quero mais que a história se espalhe a mais gente ajude.
Em poucos minutos a Thaynara já tinha recebido doações na conta corrente informada - e a ajuda de todos continuou ao longo do dia:
- Pelas minhas contas já foram doadas quase 100 mil milhas, gente que tem pouco, gente que tem muito, tudo junto em um amontoado que faz um grande bocado;
- Recebemos ligações do Rio de Janeiro, Curitiba, Maringa, Brasília, além de muitas daqui de Belém - pessoas que queriam confirmar a veracidade da história, assim como muitas outras que, tocadas pelo problema, queriam saber como ajudar;
- Recebemos propostas de pessoas que querem doar trabalho - seja se apresentando, cantando ou fazendo os outros rirem, tudo com renda integral para a Thaynara e Estevão;
- Recebemos até mensagens da Argentina, de gente querendo saber como doar de tão longe;
- Tem gente procurando lugar para eles ficarem lá em Goiânia - e muitos outros se mobilizando para tentar viabilizar uma participação do Estado por meio do TFD, Tratamento Fora do Domicilio. Se der certo, maravilhoso!
- Uma pessoa doou 15 reais e disse: "São os 15 reais mais lindos da minha vida" - da nossa também, acredite!;
- Por fim, recebi a mensagem hiper alegre de uma amiga maravilhosa dizendo: "Fui ao banco doar e encontrei mais três pessoas doando ao Lucas. Fiquei muito feliz."
São pessoas que não conhecem a Thaynara e o Estevão, que talvez nunca conheçam ou carreguem o Lucas no colo, mas que acreditam que, juntos, podemos fazer algo e, por isso, resolveram dar uma chance.
O ponto engraçado de tudo isso é que deixei meu celular à disposição no blog e disse que podiam ligar a qualquer hora! Pois não é que troquei mensagens com um cara muito bacana, o Rodrigo, quase duas da manhã!? Ele leu a notícia no blog, ficou agoniado e resolveu mandar mensagens dando força, perguntando por todos e dizendo que assim que tiver um dinheiro vai doar.
Maravilhoso!
É isso mesmo Rodrigo! Podem ligar a qualquer hora, estamos aqui para dar informações, repassar mensagens de força e para o que for necessário.
O importante agora é não deixar essa corrente cair: a gestação do Lucas ainda vai entrar no sexto mês - o que significa mais três meses de muita luta e força de vontade.
Vamos continuar com as doações, por menores que sejam, pois o fundamental é ter dinheiro para fazer frente aos gastos que ainda vão vir.
Esse movimento de ajuda para dar uma chance ao Lucas não pode terminar aqui! Nesse exato momento a Thaynara e o Estevão estão em Goiânia para mais uma punção de líquido (aquele procedimento já descrito no texto anterior, doloroso procedimento, mas única solução). Segundo me contou o Estevão foram tirados 50 ml de urina - e tentem imaginar o que são 50 ml de urina na minúscula bexiga de um bebezinho de cinco meses, ainda na barriga!
Mas bem, não vamos falar disso agora, vamos deixar as minúcias de todo esse procedimento para um próximo post. Esse é um texto alegre pelo simples fato de que não estamos tristes - pelo simples fato de que temos ESPERANÇA, e quem tem esperança não fica triste. Assim como não é triste e desamparado aquele que tem amigos.
Obrigado.

P.s.: não se esqueçam da conta da Thaynara,
Thaynara Freitas Corrêa
Banco Itaú
Agência 2939
Conta Corrente 22247-3

E nem dos nossos telefones:
Thaynara e Estevão: (91) 8291-0974 / 8336-2779 / 8764-1219.
Fernando (eu): 91-8131-2333.

Por fim, aquele último comentário sobre doações em dinheiro:
Você não precisa doar mil reais!
Você não precisa doar cem reais!
Você não precisa doar 50 reais!
Você pode doar qualquer coisa, qualquer valor, por menor que seja.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Precisamos de Ajuda

Quantos de vocês já receberam e-mail ou mensagens via Facebook ou Twitter pedindo ajuda para a criança tal, filha do fulano de tal, na distante cidade de não sei onde, que, sofrendo de uma doença terrível irá morrer caso não ajudemos? Provavelmente todos que estiverem lendo isso vão responder que já receberam algo desse tipo - e bem provavelmente uma grande parcela vai dizer que nunca mexeu uma palha para fazer algo para ajudar...
Num mundo como esse, o virtual, é tão fácil se criar uma história, um drama, uma vida ou uma morte, e a conclusão é que ficamos meio secos ou indispostos a ajudar quem quer que seja. Também há a justificada desconfiança, claro, diante de pedido para ajudar pessoas que nem sabemos se existem – ainda mais quando somos bombardeados com notícias sobre fraudes e engodos, pessoas de má-fé que usam a boa-fé dos outros para se dar nessa vida terrestre. Eu mesmo sempre fiz assim: recebo algo e logo duvido, nem me preocupo em saber mais pois sempre acho que é alguém querendo me enganar, alguma besteira que não merece meu tempo. Não sei quantas pessoas deixei de ajudar por conta desa minha atitude, mas ao menos tenho estado seguro aqui no meu canto, na minha zona de conforto instransponível.
E hoje, olhem só, apesar de sempre ter feito assim, sou eu quem mando a mensagem pedindo ajuda!

A Thaynara Freitas é uma amiga minha. Ela mora logo ali, em Ananindeua, e é uma pessoa maravilhosa – como toda sua família, por sinal. A Thaynara deu a sorte de, nesse mundo enorme, ter encontrado o Estevão, rapaz bom, amigo, trabalhador ao estremo, bom pai e bom marido. Desse encontro nasceu o João Pedro, um moleque que infelizmente acompanho crescer somente por fotos do Facebook, um moleque que acalentei no colo diversas vezes, que me babou um bocado e que está cada vez maior e mais bonito. Diante disso vocês podem imaginar minha felicidade quando soube que eles estavam grávidos novamente – outro menino que se chamaria Lucas. “Que bom”, pensei... “O mundo está precisando de mais pessoas boas mesmo”.
Acontece que a vida é cheia de surpresas e vive nos pregando peças muitas vezes sinistras – não importa quem você seja: faz pouco tempo, com cinco meses de gestação, a Thaynara percebeu que Lucas era quietinho, que ele não fazia tantas gracinhas e nem dava muitos chutes como tinha feito seu irmão. Preocupada, procurou um médico e teve a notícia ruim, como um nome quase impossível ao leigo –HIDRONEFROSE ACENTUADA BILATERAL. Em resumo, Lucas não estava conseguindo urinar e a bexiga estava completamente cheia de xixi, com o volume aumentado e causando incomodo. Por isso a escolha do bebê em ficar o mais quietinho possível, porque mexer fazia doer e sofrer mais. O médico examinou mais e percebeu que os rins estavam parcialmente machucados, e imediatamente deixou-os à par do que deveria ser feito: a colocação de uma válvula na bexiga do Lucas para que a urina pudesse ser eliminada - e isso tinha que ser feito o mais rápido possível ou o Lucas morreria. Para piorar tudo, esse procedimento NÃO poderia ser feito em Belém por falta de profissionais especializados na área de medicina fetal – e eles foram encaminhados imediatamente para o Dr. Waldemar Amaral, em Goiânia, GO. Com dificuldades eles compraram as passagens e se prepararam para os gastos que resultaria do procedimento. Em Goiânia ficaram na casa de pessoas que, conhecidas por acaso, foram maravilhosas e resolveram oferecer hospedagem.
No dia seguinte, o médico Waldemar achou que os rins do Lucas estavam muito feridos e, por isso, preferiu fazer mais exames antes de instalar a válvula. Mas também resolvou fazer uma drenagem da urina acumulada – e imaginem o que representa isso: um cateter perfura a barriga da mãe, segue perfurando a barriga do Lucas e, por fim, os minúsculos rins. Assim terminou um dia!
No outro dia, como a vida não é fácil, as notícias ruins não pararam: com o resultado da análise da urina recolhida, e com exames mais minuciosos do bebê, o médico sentenciou: “Thaynara, o exame comprova que os rins do bebê estão completamente parados e, por este motivo, não vamos poder colocar a válvula. Colocá-las seria um risco muito grande, tanto para o bebê quanto para ti. Há somente duas alternativas: ou não se faz nada, ou, de dez em dez dias, fazemos novas punção (retirar a urina da bexiga do bebê como foi feito para coleta do exame). Só que este processo não garante que seu filho, ao nascer, sobreviverá! Os rins de uma pessoa são órgãos dos mais nobres e necessários ao corpo humano, ou seja, ninguém sobrevive sem os rins. A chance dele nascer e não sobrevier é de 99%, mesmo porque, para a medicina, não há 100% nem 0%. A punçãoo é uma tentativa de obter uma melhora nos rins para ver se, por UM MILAGRE, eles voltam a funcionar.”
É da natureza humana não desistir, seguir em frente por maiores que sejam as dificuldades – ainda mais quando se fala de uma mãe, de uma pai, fazendo de tudo para tentar salvar um filho.
Só que, decidindo pela pulsão de dez em dez dias, mais uma surpresa nos bate à cara: não existe punção intra ulterina em Belém. O Centro mais próximo e qualificado fica em Goiânia, justamente na clinica do Dr. Waldemar Amaral. Ou seja: Thaynara e Estevão, mais a barriga cheia de Lucas, terão que ir a Goiânia de dez em dez dias para realizar o doloroso procedimento – e isso significa passagens, hospedagem, alimentação, gastos médicos e todos os outros gastos que possam surgir! Pelas nossas simples contas, até o nascimento do Lucas serão necessárias 48 passagens ida-volta.
Não são coisas baratas e os dois não são ricos, nem tem tanto que possa garantir tranquilidade ou mesmo a mínima viabilidade para fazer o necessário.

Resumindo, as coisas estão assim: Precisamos de ajuda para tentar salvar a vida do Lucas. Não temos certeza de que ele vai sobreviver depois de nascer – ninguém pode nos dar essa certeza – mas sabemos que podemos tentar até onde der!
Do que precisamos? Qualquer coisa!
Eles já têm as passagens de 20/11 e de 30/10.
Hoje me comprometi a dar as passagens do dia 10/12, mas ainda faltam as dos dias 20/12 e 30/12, e todas as outras que forem necessárias até que ele nasça - de dez em dez dias.
Da mesma forma precisamos de dinheiro: seja para pagar os procedimentos – que são caros -, quanto para arcar com passagens aéreas, estadia e alimentação, além de todos os demais gastos que forem necessários.
Por outro lado, se algum de vocês souber de um local que possa ser o porto seguro dos três em Goiânia, isso também serve (e muito). Pode ser a casa de um amigo, um quarto na casa de uma tia, qualquer lugar onde eles sejam recebidos e bem cuidados - e garantam uma economia com hotel. O que posso garantir é que quem os receber também vai ganhar muito, pois são pessoas maravilhosas e adoráveis.
Também, se você tiver milhas aéreas aceitamos – as passagens do dia 10/12, que eu dei, vão ser compradas com milhas. Infelizmente são muitas milhas, 20 mil para cada um deles, mas acho que não existe forma melhor de gastá-las do que ajudando uma mãe a tentar salvar a vida do filho.
Para terminar, afirmo que qualquer coisa ajuda – e ajuda muito: seja com uma prece, uma reza, um pensamento positivo, um telefonema, um RT ou um compartilhamento de postagem. Qualquer ajuda, por favor.
Só peço que não passem por esse texto de forma indiferente, que percebam que é alguém tangível, uma pessoa próxima de qualquer um de nós e que tem um problema real – se é que podemos chamar de problema, assim, simplesmente, a sobrevivência de uma criança.
Para quem quiser conversar diretamente com a Thaynara e com o Estevão, seguem os contatos: (91) 8291-0974 / 8336-2779 / 8764-1219.
Também, se quiserem passar alguma informação, tirar dúvidas ou perguntar como podem ajudar, não se acanhem e me liguem (91) 8131-2333 – e podem ligar a qualquer hora.
Por fim, um último comentário sobre doações em dinheiro:
Você não precisa doar mil reais!
Você não precisa doar cem reais!
Você não precisa doar 50 reais!
Você pode doar qualquer coisa, qualquer valor, por menor que seja.
Se 100 pessoas doarem 10 reais já teremos 1000 reais – e venhamos e convenhamos, é muito fácil doar dez reais.
A conta corrente da Thaynara segue abaixo:
Thaynara Freitas Corrêa
Banco Itaú
Agência 2939
Conta Corrente 22247-3

E se você achar trabalhoso fazer o depósito, basta avisar que eu vou até onde for para pegar a doação e entrego para eles - ou faço eu mesmo o depósito. Basta chamar.
​Desde já, obrigado a todos!

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Como explicar?

Chega a amiga de São Paulo e informa o desejo enorme de voltar ao Marajó. Se der, quem sabe?, até alongar a ida e visitar a casa onde nasceu Dalcídio Jurandir em Cachoeira do Arari. A primeira pergunta feita é: "como andam os assaltos aqui na região, aquelas histórias horríveis sobre piratas?" Quisera eu poder responder que tudo anda calmo, que nada mais acorre que justifique qualquer preocupação, mas tive que ser sincero. Disse que vez ou outra ainda ocorrem assaltos, vez ou outra ainda surgem histórias de crimes cometidos por Piratas, os Ratos d'água, e completei pedindo que eles viajassem pela parte da manhã e que tudo correria bem.
Infelizmente é isso que corre por aí, as notícias do Pará e de Belém que sempre falam de problemas, mortes e total descrença numa terra em que possamos viver em paz.
E bem... A amiga viajou, curtiu o Marajó e viu que a casa de Dalcídio foi derrubada... Na volta, hoje, foi ela quem me deu a notícia de mais um assalto nos rios do Pará - destaque regional na página pricipal do G1. Nas palavras do encarregado da balsa, “eles foram só assaltar. Eles acabaram, soltaram a gente e foram embora. Saíram como se nada tivesse acontecido. Infelizmente é comum as embarcações serem assaltadas na região. Já fomos assaltados outras vezes”. Smples assim... E seguimos nos acostumando com essa vida, com essas notícias e crimes. Ser vítima neste Estado é normal, já fomos assaltados outras vezes. Felizmente a amiga ama o Pará mais do que ama sua terra, ou então eu ficaria gago de vergonha tentando explicar que isso por aqui é normal, e que não fosse embora levando uma ideia ruim do Estado, a gagueira típica dos que ficam sem explicação para dar diante dos absurdos da vida nessa terra.

Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígios

Acho que as lembranças que teremos, todos, serão mais ou menos iguais: a voz delicada que invadia todos os cantos com as canções que somente ela sabia cantar, o tec tec da máquina de costura que fazia adormecer nos finais de tarde e os cheiros, os muitos cheiros de chá de canela, café com leite, doce de cupuaçu, bolo branco e tantos outros. Até pouco tempo ela perambulava pelo quintal da Mundurucus plantando e cuidando, a mão que se fazia preta da terra e logo estava banhada e cheirando a colônia ou talco, ela sempre tão cheirosa e vaidosa.
Ela era valente, nenhum medo que fosse de meu conhecimento. Do que contam, sei que enfrentou bandido e visagens, que afugentou bicho e homem criado – e ela deixou sua valentia bem clara quando decidiu que enfrentaria o hospital pelo tempo que pudesse (e foram longos cinco meses entre quartos e UTI, sempre surpreendendo médicos e enfermeiras com melhoras miraculosas e reações inesperadas).
Certa vez, ainda pequenos, estávamos no quintal eu e meu irmão, mais meus primos Álvaro e Artur, tentando carregar uns pesos que um primo mais velho havia feito com latas de leite e cimento, mas todo o esforço era em vão. Quatro meninos lutando com todas as forças para carregar um peso que devia ter uns bons 20 quilos. Para nossa surpresa, vovó apareceu do nada gritando que iríamos ficar “rendidos” carregando aquele mundarel de cimento, e, com uma mão, com uma única mão, agarrou o haltere e o jogou longe fazendo-o sumir por entre as plantas do quintal. Deveríamos ter corrido da bronca que seguiria, mas ficamos tão surpresos e assustados com aquela força hercúlea, a frágil avó que não somente era mais forte do que os quatro netos – mais era MUITO mais forte – que acabamos cedendo ao ralho enquanto nos olhávamos boquiabertos.
Também lembro que, ainda criança, achava extremamente intrigante ela fazer roupas tendo como molde uns recortes que vinham em revistas de costura – era um emaranhado de linhas contínuas, linhas pontilhadas, linhas tracejadas, algo que me lembrava dum mapa de guerra, as informações secretas do avanço de uma hipotética tropa inimiga, mas que para ela eram vestidos e camisas que logo estariam cobrindo algum de nos.
Virou lenda a vez em que mamãe, tendo que viajar, pediu que ela me ajudasse em matemática. Após um dia de longo estudo, fomos dormir cedo depois de jantar e assistir tevê. Dormíamos em redes com mosqueteiro, um ao lado do outro, e eu, com poucos nove ou dez anos, tive medo de ir ao banheiro sozinho, a casa da Mundurucus que era um mundo de corredores, quartos e sombras. Resolvi acordar vovó para que me acompanhasse e juro, por tudo que é sagrado e a quem estiver lendo, que da hora em que ela acordou e durante todo meu xixi e até voltar para a rede, fui sabatinado de forma impiedosa com toda a tabuada do dia anterior. Eram 3 horas da manhã e tirei uma nota maravilhosa na prova.
Mas ela também era toda doçura. Uma vez em Salinas, depois de três dias que lá estávamos, ela me disse que queria voltar para casa, que suas plantas precisavam de cuidados e ela precisava colocar comida para os passarinhos. Voltamos e ainda fiquei com ela pelo resto do dia, deitado na sua cama entre breves cochilos, até que ela me acordou para avisar que já tinha chegado o pão quente – e foi fazer meu café com leite do final de tarde de sempre.
Acho que a grandiosidade está em tudo que se faz durante a vida.
Acho que grandioso é aquele que pensa em todos os seus atos sempre buscando fazer o melhor, não somente para si, mas para todos. E Vovó foi mãe de muitos, a casa da Mundurucus que estava sempre cheia de gente, de pessoas que, ainda hoje, encontro e me contam como aquele local serviu de porto confortável e seguro sempre que precisaram; vovó se dedicou a todos e em poucas vezes pensou nela, eram sempre os outros, os dela.
Quando meu avô Álvaro morreu em 1964, ainda nem completados 50 anos, minha avó se viu mais responsável ainda pela criação de seus oito filhos. Entre lutas e dificuldades, criou a todos e fez com que todos estudassem e fossem pessoas boas – e hoje não consigo ver um tio meu, ou um primo meu, cometendo uma iniquidade ou ato desumano que seja, sempre o ensinamento de que devemos fazer o bem e pensar em nossos atos e em nossas responsabilidades. Não é gabolice e nem estou contando vantagem – é simplesmente o que ela era e o que nos deixou.
Além disso, além de tudo que somos, ficou da vovó o cuidado que tio Amilcar tinha com os irmãos, ficou o cabelo do tio Amado, o sorriso da tia Bela e a sabedoria da tia Alvarina; a inteligência do tio Dinho, o carinho da tia Alba e aventurisse e olhar da tia Ana. Em minha mãe percebo vovó quando ela canta as mesmas músicas que sua mãe cantava, a mesma voz suave e afinada que ainda me canta canções bonitas. Em cada rosto vejo um pouquinho dela, assim como em cada atitude consigo ver coisas que ela foi mostrando nesses 96 anos de vida plena.
E isso tudo significa que ela não morreu, que ela ficou conosco e estará entre os seus pelo tempo que estivermos aqui – nas marcas físicas que temos, nos gostos que compartilhamos e nas características que demonstramos, nas atitudes que tomamos e nas certezas que permaneceram – e acho que, no final, é exatamente isso que significa família – não algo que surge do nada ou se cria, mas sim o que ela nos ensinou a ser pelo amor e pelo cuidado de sempre.
Como disse Drummond, morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígios. E se é assim, fico tranquilo por saber que ela não se foi, que ela permanece e assim será em cada sorriso e olhar nos almoços de sábado, ainda na mesma Mundurucus de sempre, a casa da vovó.