quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Estive com Shiva e lembrei de você

Carta enviada ao amigo Toni em 1º de dezembro de 2010

"Querido Toni,

Ontem resolvi participar, como convidado, da equipe de corrida do Banco onde trabalho. Correr é algo que me dá bastante prazer, mas foi também um ato de educação. Eles viviam me convidando para, pelo menos, umas voltinhas, então achei educado aparecer. Assim, estava eu ontem paramentado como um queniano, pronto para dar umas voltas pela Praça da República perto das 19 horas de uma noite agradável. 

Havia chovido e o clima estava muito gostoso - além do que a praça, quase sempre deserta, se torna um convidativo lugar para fracassadas exibições físicas.

Quando cheguei, me deparei com um simpático grupo de senhoras e dois senhores, além do professor de corrida que o Banco contrata, um homem distinto e por diversas vezes campeão brasileiro de corrida. Começamos com uns alongamentos estranhos, uns movimentos que mais lembravam lúdicas danças circulares (adoro danças circulares e a palavra lúdica, só que não).

Depois de uma série de breves perguntas e de breve avaliação física, foi determinado pelo grande homem-professor que eu estava no mesmo nível que uma das senhoras que fazia parte do grupo, uma senhora magrinha e franzina, delicada a quase não poder mais.

Como era intruso, e ainda mais por uma questão de gentileza, fiquei calado e aceitei minha sina: ter de acompanhar aquela senhorinha quase empalhada, quase dormindo, pelos próximos 40 minutos ao redor da praça em trote engomado e vagaroso que seria verdadeiro exercício de paciência. Internamente, ria da bobagem estabelecida pelo professor, que eu, homem feito, no auge dos seus 32 anos de perfeita forma física e moral, pudesse estar no mesmo nível daquela semi-velhota que parecia mais interessada na sua casa, no seu sofá e no seu crochê. Me enchi com aquele espírito de superioridade que sempre está presente nas pessoas bestas e muito seguras de si, e então aceitei que deveria ser piedoso e tratar aquilo como algo normal. 

Se deveria acompanhar aquela senhorinha, pois ela estaria no mesmo nível que eu, que fizesse aquilo com respeito e piedade cristão (também adoro piedade cristã).
Fomos então para um imaginário ponto de largada e começamos a correr. Para meu espanto, a velhinha desandou a correr de tal forma, com tal velocidade, que mais parecia estar fugindo de alguém que pretendia roubar sua aposentadoria. E ela corria com uma gana, com uma determinação, que só me 
restou apertar o passo e tentar manter o mesmo ritmo. Deus sabe, somente ele e tu, como fiquei espantado com aquela situação, aquela mulher já quase empalhada que começou a correr, ela sim, como uma queniana que precisava daquela velocidade para poder, no final, comer. 

O mais difícil não foi acompanhá-la. O mais difícil foi acompanhá-la sem demonstrar que estava surpreso e quase me matando para fazê-lo. Eu fingia correr como se corresse desde criancinha, mas a verdade é que a cada volta, a cada reta percorrida, mais sentia todos os meus órgãos gritando de dor e pavor por aquele esforço inesperado.

O pior era manter a respiração adequada: no início consegui fazer barulhos aceitáveis, nada de muito vergonhoso para aquele homenzarrão de 32 anos que corria ao lado de uma velhinha. Ela sim parecia fazer aquilo desde criancinha. Depois de segunda volta não pude mais manter as aparências e comecei a respirar como um porco nervoso indo em direção ao abate. Primeiro foi meu nariz, que começou a fazer sons como se fosse um oboé, e que depois começou a fazer sons como um
pequenino trompete. Fim Fom, corria eu e fazia meu nariz, enquanto e senhora respirava como se acabasse de sair de um relaxante banho quente.

Depois, os sons começaram a sair pela boca, uns grunhidos involuntários provocados pelo ar que entrava de forma desordenada pela traquéia. Por fim, meu nariz e minha boca, conjuntamente com meu peito, passaram a atuar como orquestra sinfônica de sons escabrosos que certamente meteram medo na minha companheira de corrida (que vez ou outra olhava para o lado como se para verificar se eu estava bem, ou para se certificar de que eu não precisava de socorro imediato). 

Depois, começaram as dores nas pernas, nas articulações e na barriga - o que comumente chamamos de 'dor de viado'. Juro que pensei na morte e no fim dos meus dias, ou que não conseguiria dar mais um passo para acompanhar aquela velha tinhosa que parecia correr do Imundo.

Mesmo morrendo, praticamente nas últimas forças, decidi que meu orgulho não seria ferido naquele episódio e que manteria a chama de minha honra acesa. Olhei para a frente e mantive a respiração barulhenta e irregular, tal qual caldeira de antigo barco a vapor, e decidi que ficaria ao lado daquela pequena senhora, que agora não tinha nada de pequena ou de empalhada, mas sim a grandeza daqueles que superam seus limites com nobreza e sucesso. 

Foram cinco voltas ao redor da Praça da República, cinco voltas que representaram verdadeiro martírio. Somente para esclarecer, cada volta corresponde a uns 1.200 quilômetros, pelo que devo ter percorrido cerca de 6 quilômetros naquela noite - quase a somatória de tudo que já corri na vida. Na penúltima das voltas, já perto das 19 horas e 40 minutos, percebi que deveria parar ou meu corpo entraria em greve e se pararia por mim. 

Esperei que ela fosse encerrar a corrida ali, naquela quarta volta, e fui até diminuindo o ritmo à medida que nos aproximávamos da imaginária linha de chegada. Desgraça. A super-senhora impiedoso não só não parou, como aumentou o ritmo nesta quinta volta. Segui no ritmo enquanto os olhos latejavam, assim como os dedos da mão, o pescoço e a língua. Se aquela não fosse a última volta da mulher, certamente seria a minha, mas isso de uma forma definitiva e eterna.

Já de volta ao ponto de partida imaginário, percebendo que estava no fim, deixei o orgulho de lado, puro instinto de sobrevivência, e fiz sinal à simpática senhora dizendo que não poderia ir adiante. Ela deu um sorriso piedoso e caridoso e disse que também pararia, que me acompanharia, mas que não devíamos parar de forma abrupta. E foi assim que ela me convidou para mais uma volta caminhando, uma experiência única de auto conhecimento da dor que só me fez mais triste.
Felizmente, já no final de volta caminhada, pude ver o professor que já se alongava com o grupo, sinal de que aquela visita de cortesia estava terminando e eu poderia voltar para casa e dormir até a semana seguinte.

No final do alongamento o professor perguntou como havia sido, se o ritmo tinha permanecido bom, ao que ela respondeu que sim, que fizemos uma boa equipe (tão bondosa a aquela amável mulher) e que deveríamos continuar o treino juntos, caso eu fosse continuar. 

Decidimos que neste quinta-feira, meu segundo dia de treino, faria novamente par com aquela senhorinha, e que, desta vez, correríamos na rua acompanhando um grupo mais experiente. Já na hora de ir embora ela descobriu que moramos bem pertinho e logo me convidou para fazer o trajeto casa/Praça da República a pé, como um espécie de pré-aquecimento para a próxima corrida.

Educadamente aceite, mas realmente não sei se ainda terei forças físicas e morais de voltar à equipe.

Por hora tenho dificuldades para andar, sentar, deitar e respirar, e mesmo meus pensamentos estão meio truncados. Se estiver melhor até quinta-feira, quem sabe?, não volto para mais uma lição de humildade, respeito e auto conhecimento de limites e orgulhos.

Amigo, por hora ficamos sem abraços e beijos, pois qualquer um deles representaria grande dor neste momento delicado,

Fernando."


8 comentários:

- Elis - disse...

Morri de rir!
Passei por algo semelhante no ioga, com uma senhorinha meio corcunda que colocava os pés atrás da cabeça.
Isso é bom para a gente enxotar as ideias pré-concebidas, né?
Beijos.

toni disse...

Quando comecei a ler seu email esbocei um sorriso, depois vieram risadas e logo já estava dando gargalhadas, a ponto de minha “colega de firma que divide parede” (acho ótima esta frase) perguntar o que estava acontecendo...
Vc me deixou de bom humor e sorrindo à toa, muitas vezes rindo sozinho como se louco fôsse, ao me lembrar de pequenas situações pelas quais teve que passar...
Texto carregado de humor, inteligência e sentimento.
Odeio quem acha que pode avaliar, criticar ou julgar o trabalho de alguém sem ter estudado para isto, tendo como ferramenta apenas seu gosto particular (que é sempre discutível – pois acho que gosto é como cú, cada um tem o seu)... não acho correto.
Estou falando como o leitor comum que sou, e para ter uma segunda opinião (costumo sempre fazer isto num exame de próstata) pedi que duas colegas de firma, queridas minhas, e que também dividem parede (mentira – é uma divisória baixa), lessem o seu email, para que eu pudesse observar suas reações e não foram diferentes das minhas, ou seja, estou certo do que estou falando... não sou exagerado como o Cazuza e nem presunçoso como meu alterego, sou um lêmure.

Luiza Duarte Leão disse...

Ri altão! Mentira. Queria ter rido altão, mas tinham pessoas ao redor e fiquei rindo altão internamente.

Carla Takahashi Basto disse...

amei o texto!! nao consigo para de rir!!! hahahahaha...

Ida Lenir disse...

Adorei o texto. Fino humor. Espero um dia poder constar na tua lista de blogs, kkkk
Muito obrigada por ter lido meu post. Seus comentários serão sempre bem vindos.
Abraço.
www.diariodeumamulherdespeitada.wordpress.com

ivy portella disse...

Não podia rir alto, mas imaginei uma simpática senhora, frágil, correndo e tu, esbaforido, atrás.
Bom demais, texto leve e deixa a questão dos nossos preconceitos, velhinhas frágeis por vezes passam as pernas nos novinhos não frágeis.
Parabéns
Ivy

Tanto disse...

Que bom que vocês gostaram. Amanhã de manhã repetirei a dose, desta vez às seis da manhã. Espero sobreviver para contar como foi.

Brincando de poesia disse...

Cai na besteira de ler isso, pelo celular, já deitada, tarde da noite. E não contive o riso que saiu inesperadamente rasgando o silencio do quarto, acordando meu marido. Ele pensou que eu estava com algum problema.

Excelente texto.