terça-feira, 27 de abril de 2010

Desistir de Belém?

Era domingo, cerca de uma da tarde. Dirigindo pela Rua 25 de setembro me deparo com a cena que choca. Em uma moto, homem e mulher, ambos de capacete, transportam uma criança de colo de uns oito meses. Andavam bem lentamente, prudência desnecessária diante da indescritível imprudência, a simples imagem da criança caindo no asfalto capaz de me arrepiar todos os pelos do corpo.
A piorar a situação, a placa da moto estava coberta por um cartão telefônico, prática usual e tacitamente permitida pela completa falta de fiscalização que impera nas ruas de Belém. Mas eis que meu olho atento de motorista vê, bem à frente, uma guarnição da Rotam, unidade da Polícia Militar paraense, prostrada em uma esquina da dita rua. Pretensamente estavam fiscalizando, pelo que pensei: "pelo bem dessa criança, e de todos, tenho certeza de que a PM vai parar essa moto".
Ainda bem que tive certeza e não fé, pois acho que perder a fé seria bem pior do que perder a certeza no cumprimento da lei. Sim, leitores - a moto com placa coberta e com três passageiros, um deles criança de menos de um ano, passou impávida pelos policiais da Rotam que, por pouco, não acenaram cordialmente.
Um dia antes, saindo da Fox da Travessa Doutor Moraes, noitinha de sábado chegando, quase fui atingido por uma moto que surgiu do nada pela contramão. Essa rua, para quem não a conhece, é uma das mais atravancadas de Belém por conta de uma série de lojas e restaurantes, tudo "organizado" em caóticas filas duplas e estacionamento em 45.º. Nunca, em muitos anos de freqüência à tal rua, pude ver agente público qualquer que lá estivesse para organizar. Nem para nada. Muito menos para organizar.
Ainda no domingo, um pouco antes do primeiro incidente, na mesma Travessa Doutor Moraes da noite anterior, fui levar roupas para lavar. Estacionei na área reservada para clientes da lavanderia e desci. Bem ao lado, onde há um lava-a-jato, um carro popular equipado com aparelhagem de som possivelmente mais cara que o carro, vomitava malditos decibéis de um tecno-brega com letra ridícula. O carro era, possivelmente, de um cliente. Os ouvintes, pela cara e atitude, possivelmente eram os lavadores. O dono a tudo assistia de forma passiva, sentado em uma cadeira de plástico branca próxima ao meio fio. E se alguém não gostou, que fosse embora. E se os moradores não gostaram, que se conformassem. E se ninguém conseguia conversar, que ficassem calados e procurassem um canto mais silencioso.
Diante disso tudo, da empáfia dos malditos que teimam em fazer desta cidade um local insuportável; diante da completa ausência do poder público; diante da falta de amparo qualquer, um local para o qual possamos ligar e ver resolvidos os problemas; diante disso tudo me pergunto: o que fazer? A quem recorrer?
Um amigo, mais drástico, diria: “recorre à TAM ou à GOL, sai da cidade que ela não tem mais solução”. Não sei se é essa a saída, reluto em crer, mas cada vez mais me sinto completamente desamparado em uma cidade largada de forma criminosa por quem dela deveria cuidar.
O policial que vê a moto completamente irregular e não faz nada! O guarda de trânsito que some depois das cinco da tarde, largando as ruas no momento mais crítico e movimentado! A polícia que, diante do som ensurdecedor, desrespeitoso, violador, permanece sumida e finge não existir – disque-silêncio que uma vez houve nessa terra do já teve, disque-silêncio que nem sei mais se existe, diz que uma vez existiu.
Sei que vou encontrar mazelas em todos os lugares. Mazelas existem em Paris ou Nova-Deli. Mas obviamente as mazelas francesas não são as mesmas mazelas indianas - tudo depende da forma que se combate os problemas, ou mesmo da simples existência de combate. Qualquer movimentação é melhor que a inércia absoluta que vejo por aqui.
Por fim: outro dia, vindo para o trabalho em bairro central de Belém, percebi na rua o cadáver de um gato, atropelado. O bicho estava despedaçado, tripas e órgãos que se espalhavam pela rua. A cena era terrível e enojante! Passou um dia, passaram dois dias, três dias. Passaram-se cinco dias é somente na outra segunda-feira os restos do animal tinham sido recolhidos.
Onde, amigos, o corpo de um animal fica cinco dias apodrecendo em rua central da cidade, vítima de urubus e pombos, o fedor que aflige quem tem o azar de morar na proximidade do falecimento?
Onde?

Fotos: Fernando Gurjão Sampaio.
Desculpem a qualidade das fotos, ou a falta de qualidade - foram feitas no Iphone, em semi-movimento.

7 comentários:

Anônimo disse...

Vamos votar no Dudu e na Carepinha e olha no que deu. A cidade tá uma merda cheia de buraco, ontem mesmo uns pivetes assaltaram uma mulher na nazare. Num tem mais jeito.

Anônimo disse...

Vc tem que ir na BR pra Ananindeua, tá cheia de bicho morto.

Jane Murback disse...

Querideza
A má notícia do dia é que o trânsito infernal existe em todos os lugares, acredite.
Eu mesma tenho certeza que o trânsito de SP já levou alguns anos da minha juventude, porq eu fico realmente estressada e revoltada.
Qto mais periferia, piores as aberrações por aqui.
Bjo

Yúdice Andrade disse...

Meu amigo, acontece que nossas autoridades são extremamente ciosas de suas obrigações. A ROTAM existe para combater ações criminosas mais graves, por isso ela jamais molestaria um motociclista expondo a vida de um bebê a perigo. Aliás, essa prática é cotidiana. O sujeito não tem dinheiro para comprar carro e transporta a família na moto. Às vezes pode até ser necessidade, mas não há como minimizar o risco.
Esta semana mesmo vi um sujeito transportando duas crianças na garupa. Os meninos iam agarrados, mas isso não é garantia de nada.
Desistir de Belém é algo que muita gente propõe, pelo gosto de esculachar. Escuto isso de gente que jamais irá embora daqui, inclusive por não lhes ser materialmente possível. Eu ainda não desisti e nem quero. Amo minha cidade e vou continuar batendo cabeça. Só espero não infartar cedo demais.

PS - "tecnobrega com letra ridícula" é um pleonasmo majestático. E como não seria?

Belenâmbulo disse...

Fernando,
Dá um alívio escrever e publicar isso, não? É necessário para não enlouquecer de vez. Pelo menos comigo funciona assim.
Levarei para o Belenâmbulo, afinal, espernear é o que ainda nos resta.

Abraço

Tanto disse...

Anônimo das 14:46 - O Poder público sumiu de Belém. Em todos os cantos, em todos os sentidos.

Anônimo das 14:48 - Morei um tempo em Ananindeua e sei como é a situação na BR. Os bichos morrem atropelados e lá ficam, decomposição avançando, ninguém que os retire. É terrível e triste.

Jane - O problema não é o trânsito. Isso eu até tiro de letra. O problema é a falta de governo.

Yudice, tens toda a razão. Motoqueiro com a placa coberta, transportando criança de forma absurda é coisa pouca para a Rotam. Falta surgir autoridade que considere isso coisa importante... No mais, não pretendo desistir de Belém (pelo menos não agora). Amo a cidade e não imagino viver longe dela. Desculpa pelo Pleonasmo. =)

Wagner, realmente dá um alívio, nem imaginas o quanto! Leve o texto, que sempre é teu, para o Belenâmbulo sim! Fica a vontade.

Cassandra disse...

Ouvi de uma alagoana que já morou em Salvador, Recife e São Paulo, agora em Belém: problemas como violência urbana, trânsito caótico e sujeira nas ruas, toda metrópole com o porte de Belém tem. Mas as coisas boas de Belém, ah, só em Belém! São elas: o povo hospitaleiro, a comida típica, as mangueiras, dentre outras que já sabemos de cor.
Mas eu mesma acho que a cidade está muito ESCULHAMBADA, essa é a palavra! Já desisti faz tempo e quando der, me mudo. Se preciso for, até pra Macapá.