quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Leão III


Por mais que, aparentemente, não haja ordem alguma no amontoado de barcos ancorados no cais de Santarém, é fato que existe uma organização que passa despercebida aos meros mortais, talvez fruto de anos de sabedoria e entendimento entre o rio e os homens. Basta abordar qualquer pessoa, informar seu destino e logo lhe serão dadas todas as opções de transporte disponíveis.
O Leão III, barco valente.
Foi assim que cheguei ao Leão III, barco típico da região Norte do Brasil, que comumente chamamos de gaiolas. Não há grande fuga à regra: barcos de madeira, geralmente pintados de branco, em contraste com outras cores extremamente vivas, com amplos espaços para atar redes e poucos camarotes. No caso do Leão III, que faz o trajeto entre Santarém e Itaituba, com escalas em Aveiro e Fordlândia, são dois déques apinhados de coletes laranjas, além de barras de ferro azuis, com ganchos, nos quais serão penduradas as redes que logo aflorarão por todos os lados. 
As redes no Leão III no déque superior - neste momento ainda
eram poucas.
No déque superior se localizam quatro camarotes para passageiros, compartimentos duplos, com beliches e ar condicionado, espaços quase sem espaço em apertadura surpreendente que assusta em primeira vista, mas que se revela acolhedor ao longo da viagem. A completar a estrutura do barco, um refeitório (com PF custando 10 reais), uma lanchonete (onde uma Coca em lata custa assombrosos seis reais), um vasto porão e camarotes de tripulação localizados bem acima da trepidação barulhenta do motor, no déque inferior.
O camarote 4 do Leão III - não se deixe levar pela imagem.
Ele é bem melhor do que aparenta.
Aqui há de tudo: há doentes que terminam tratamento em Santarém e voltam para casa, há pessoas que vão visitar parentes, além dos muitos que, acostumados com o vai e vem da vida, trabalham numa ponta ou outra do caminho. Algumas histórias chocam, como a senhora beneficiada do TFD, Tratamento Fora do Domicílio, que se trata no Regional de Santarém e faz regularmente a viagem pelo rio. Ela sofre de graves problemas na tireoide e recebe somente as passagens de barco. Somente isso. Hospedagem e alimentação ficam por conta dela, que faz verdadeiro malabarismo para seguir adiante com o necessário cuidado médico. Suas reclamações são muitas: desde a confusão na marcação de exames, o que já a obrigou a arcar com muitos deles com dinheiro tirado sabe-se lá de onde; até o médico, que sabendo vir a paciente de longe, se dá ao direito de faltar ao trabalho por razão qualquer. Quando a conheci, havia sido exatamente assim: consulta marcada com antecedência, viagem realizada e médico ausente. E volta a paciente no mesmo pé para sua casa, já que não tem onde ficar, e nem como pagar um hotel ou comida, uma vinda totalmente perdida.
O Leão III singra pelo rio Tapajós, um dos mais belos e mansos que já vi. O barco quase não balança no rio de poucas ondas, diferente dos trajetos ao Marajó, seja para Soure ou Salvaterra (com uma baia terrível no meio do caminho), ou para Afuá, pelo outro extremo (com duas baias terríveis no meio do caminho).
O rio só balança quando chove, explica a senhora responsável pela lanchonete e pela caixa de som que cospe tecnobrega em último volume. Ela diz que muitos já se machucaram para valer no balançar quase assassino de quando chove, movimento que joga as redes com violência contra paredes e pilastras. Hoje temos calmaria, para nossa felicidade.
A risonha vendedora da lanchonete, sempre pronta ao bom papo.
Apesar da beleza do Tapajós, pouco se vê dá margem tão distante, o rio que, em lugar comum, comparamos sempre com o mar. As margens ficam longe, distantes da vista, o que também faz ficar longe o ribeirinho e sua miséria, população praticamente à margem de tudo e todos, dependente somente de si para sobreviver da forma que der. E se não vemos as margens, vemos o ocaso no rio, assim como veremos o nascer do sol que promete ser único, em luz que só deve existir aqui no Tapajós.
A luz no Tapajós é única. Nenhum outro lugar apresenta cores
iguais às do Tapajós
Também há experiências que não podem passar batidas, que deveriam ser experimentadas por todos que aqui habitam para que pudessem entender bem o que é o Norte:
Estar num barco aparentemente frágil, em rio enorme de vista sem fim, de margens perdidas no horizonte, embarcação pontilhada de redes de diferentes panos, cores e tamanhos, diferenças que remetem aos seus donos, uns índios, outros caboclos, uns portugueses, ricos ou pobres, saudáveis ou doentes, todos em comunhão de espaço e em perfeita harmonia, as redes que balançam em unidade como se empurradas por mão única, invisível e divina; tudo envolvido pelo cheiro bom de comida caseira que sobe do refeitório, onde ficamos ombro com ombro, não importando quem somos, todos juntos apreciando a boa refeição, mas também a segurar o prato que treme de forma alucinada por conta da trepidação do motor - e lá estamos bem acima do motor, de onde vem o cheio de diesel que se mistura com o cheiro da carne assada e do frango guisado. O refeitório do Leão III não permite apreciar a comida, que bem merecia ser apreciada pela sua simplicidade, honestidade e tempero único, o local de tremores mecânicos que só motiva o mastigar veloz para que possamos nos liberar da fome e fugir para áreas mais aprazíveis da embarcação, tudo embalado pelos acordes agudos do tecnobrega que abraça a todos, a caixa de som enorme prostrada no balcão da lanchonete, vomitando amores perdidos em traição, e que embala os que miram de forma automática o horizonte, olhar vazio, a música alta que não possibilita pensamento interno ou íntimo, tudo regado por latas de cervejas e mistos-quentes vendidos a preços absurdos àqueles que não têm muitas opções.
Entrada do Camarote 4, meu lar nas 18 horas de viagem entre Santarém e Itaituba.

4 comentários:

Mauricio Correia de Mello disse...

Uma realidade tão cotidiana para os povos dos rios quanto exótica para a gente. Seu depoimento sensível nos leva a viajar junto. E o detalhe do preço da coca em comparação com a comida feita na hora mostra o fetiche do industrializado e a desvalorização do trabalho. Vachegar o dia

Doralice Araújo disse...

É uma narrativa de um exímio observador; a realidade expressa na tua postagem repleta de descrições e conclusões sensíveis, meu conterrâneo, dita uma ordem: continuar a necessária tradução das viagens pela Amazônia paraense!

Recebas, então, o meu abraço e a certeza da leitura atenta à composição blogueira.

Mônica disse...

Muito bem retratado! A família da minha mãe é toda da Ilha do Marajó, já fiz longas viagens como essas, mas tive o privilégio de viajar pelo rio Tapajós há pouco tempo, é algo realmente encantador, peculiar, é uma verdadeira sociedade organizada dentro de um navio. Você se acostuma com a rede, deita e fecha os olhos por 10 segundos, quando abre... milhões de outras redes ao seu redor. Já vi redes com famílias inteiras dentro, embalados por uma paz e uma segurança particular que não se vê em lugar algum. Nós, do Norte, nos surpreendemos também, mas é bom demais ver a maneira atônita que nossos amigos de outros estados ou países se deparam com essa grandiosidade pela primeira vez...sem contar com a falta de intimidade com a rede! rsrs. É tudo muito admirável, a "sociedade organizada", a natureza ao redor, sobre e sob você, é totalmente mágico. Muito bom, muito bem retratado o texto, e as imagens muito belas. Parabéns!

Jeyce disse...

Você retratou muito bem as viagens de barco pelos rios do nosso Pará. Lembro que, quando criança, viajava todos os anos em barcos assim para mocajuba. Esses camarotes são verdadeiros oásis comparado ao emaranhado de redes, de fato. Já viajei das duas formas, mas lembro de uma, em particular, para o marajó. Não haviam mais camarotes disponíveis e o espaço para redes era muito pequeno, então improvisamos "triliches" suspensos que batiam com toda força contra o parapeito do barco durante a passagem na baia, mas no fim foi muito divertido. Só a paisagem e o céu super estrelado a noite já fizeram valer a pena qualquer sufoco.
Viajar de barco pelos rios da amazônia é uma aventura que todo paraense deveria experimentar.