sexta-feira, 12 de julho de 2013

Enquanto isso, no interior do Pará...

A chegada assusta.

Cerca de 20 homens fortemente armados com metralhadoras, fuzis, pistolas e revólveres, entre PMs e agentes da Susipe, todos tensos, descem de um Gol prata e um Fiat Stylo vermelho descaracterizados que acompanham o camburão. Do lado de fora, mais um Gol preto, igualmente descaracterizado, com mais quatro PMs.

As ruas ao redor do forum são completamente isoladas com cones, cordas e barreiras de metal e madeira: ninguém entra e ninguém passa, e acho mesmo que ninguém quer chegar perto do perigoso circo. Em cada um dos muros laterais do se posiciona um PM armado com fuzil, pronto para qualquer coisa e em constante atenção. Nas poucas e miseráveis casas que ficam em frente, muitos curiosos se debruçam nas janelas para ver o espetáculo.

No pátio de entrada do forum, amigos e familiares dos presos esperam por horas na esperança de ver e falar, mesmo que de longe, com aqueles que há muito estão afastados do convívio diário por conta do crime. Além deles, lá estão também as testemunhas e advogados dos réus presos, em um canto mais distante conversando em voz baixa.

O clima é tenso e não poderia ser diferente: dentro do camburão está parte do bando que entrou armado em Garrafão do Norte, cidade pequena no fim da linha de uma estrada, e a fez refém. Buscavam assaltar um posto bancário e conseguiram parar a cidade com tanta bala que dispararam. O bando que é capaz de tal ousadia pode muito bem providenciar tentativa de resgate igualmente violenta e absurda.

O assalto ao Posto Bancário foi em fevereiro de 2010, por volta de 08 h 30 min. Os assaltantes não pediram para entrar, simplesmente explodiram a porta giratória da entrada com tiros de escopeta e pistola. Já dentro, distribuíram farta munição em todas as direções. Entre gritos e palavrãos, o teto e as paredes foram crivados de balas, além de móveis e pessoas, marcas que ainda permanecem no local de forma incômoda, e na memória das cicatrizes.

No final, pegaram as armas dos vigilantes, mais 150 mil reais, e ameaçaram todos de morte caso tentassem alguma coisa. Sairam atirando a esmo no meio da rua, na Praça da Prefeitura cheia de gente, para intimidar qualquer possibilidade de perseguição ou reação. Foi um corre corre geral, cada qual querendo se esconder o mais distante possível, e assim conseguiram fugir com os reféns expostos na caçamba da caminhonete.

Fizeram o coordenador do posto, mais dois segurança de reféns, e rodaram com eles por cerca de 20 minutos. No final, aterrorizados, os coitados foram largados em uma das marginais da estrada de Capitão Poço. Finalizaram com um "agradecimento" ao bancário: "o senhor é um cara bacana. A gente ia ontem na sua casa pegar sua mulher e sua filha, mas preferiu vir aqui fazer o serviço."

...

Só de lembrar ele treme, diz que fica nervoso e que não entende como ser bancário no interior do Estado se tornou tão perigoso.

Após 37 anos em serviço entre Capitão Poço, Xinguara, Redenção e Garrafão, ele conclui: "Só recentemente percebi que há algo estranho no meu ouvido. Ele zumbe em algumas ocasiões. Foi culpa desses caras: me apressando para tirar o dinheiro do cofre deram um tiro bem do lado do meu ouvido, só para intimidar. Eu achei que tinha sido atingido a queima roupa..."

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- O que devo falar?
- Eles vão te perguntar sobre o assalto. Se souber, responde. Se não souber, não tenha vergonha e diga claramente 'não sei'. Se tiver dúvidas, diga isso ao juiz antes de qualquer resposta.

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Segundo o funcionário, quando é lançado alerta vermelho de assalto, a PM ajuda muito. Algumas vezes, quando podem, providenciam escolta entre Capitão Poço e Garrafão. Ou então, colocam uma viatura na frente do posto. Não dá para fazer sempre assim, a PM que acaba resolvendo quase todo o tipo de bronca nesses interiores, e mesmo que se providencie escolta entre as cidades, e mesmo que se plante uma viatura em frente ao posto, existe a certeza de que um novo assalto vai acontecer, isso é certo, faltando responder somente o quando.

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- E sua casa, tem algum esquema especial?
- Meu esquema é Deus, só Deus! Não tenho como pagar vigilância e nem o Banco pode pagar para todos seus funcionários. Também não quero a possibilidade de tiroteio em casa, um vigilante contra assaltantes e minha família no meio. Se eles vierem, e eu sei que essa chance existe, que venham em paz, façam o que precisam e partam sem confusão.

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- Na noite anterior ao assalto, percebi a S-10 preta me seguindo. Foi o mesmo carro usado no dia seguinte. De noite, quando percebi que havia algo estranho, liguei para minha esposa e disse: 'quando vir meu carro embocar na rua, abre o portão bem rápido e assim que eu entrar feche mais rápido ainda.' Chegando na frente de casa fiz uma curva fechada e entrei com velocidade. Minha mulher estava assustada, sem entender nada, e ainda percebeu o carro preto no início da rua já dando a volta. Ela me pediu cuidado e quase não dormiu de noite.

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A audiência começa na Sala do Juri: além dos advogados, juiz, promotor e serventuários da justiça, oito PMs e dois agentes da Susipe. Em seguida entram as testemunhas de acusação, todos muito assustados, e logo se sentam no local pré-determinado na plateia. Para a leitura da denúncia, entram os cinco réus em fila indiana e fortemente algemados, em uniformes azuis e laranjas quase sem cor. Os agentes de segurança, de forma instintiva, levam as mãos às armas e redobram a atenção. As testemunhas, que estão ali com o dever de incriminá-los, abaixam as cabeças intimidados e ficam em silêncio.

A leitura da denúncia é maçante e cheia de informações minuciosamente colhidas durante quase um ano. Quase ninguém presta atenção, até porque os que deveriam tirar algo de importante dali já a conhecem de cor e salteado.

...

No final, testemunho prestado, todos se sentem aliviados com o término do terror: os presos voltam a ser colocados no camburão, mas ainda conseguem enviar sorrisos e beijos aos parentes que choram de saudade, e que esperavam desde tão cedo na parte de fora do forum.

Em seguida, forma-se a fila de carros caracterizados, carros descaracterizados, todos os homens armados em estado total de atenção, o medo constante de um resgate que provavelmente pode significa a vida de todos - até mesmo dos bandidos, eis que nunca se pode excluir uma queima de arquivo.

Levantadas as barreiras postas no meio da cidade, tudo parece voltar ao normal, inclusive o medo, quase certeza, de que não demorara muito para que o terror volte a se instalar, mais uma quadrilha ousada em busca de riqueza fácil num bangue bangue urbano.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Sobre Cura Gay


O médico Carl Vaernet, o Marco Feliciano do Nazismo
O que mais assusta no surgimento da Cura Gay é justamente o fato de ser o ressurgimento da Cura Gay. Não achem vocês que a brilhante ideia é original, algo inovador saído da cabeça do deputado federal João Campos do PSDB de Goiânia e acompanhado bem de pertinho pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o Feliciano.

Não… A coisa é antiga e eles tiveram bons professores nas aulas de infâmia.

O medico dinamarquês Carl Vaernet, conhecido como Matador de Gays, comandou no campo de concentração de Buchenwald algumas das experiências com cobaias humanas mais insanas de que se tem notícia.
O triângulo rosa marcava os homossexuais nos
campos de concentração 
Ele achava que a homossexualidade tinha “cura” e usou prisioneiros para tentar provar sua tese. A maioria das vítimas apenas recebia uma injeção com coquetel de hormônios no escroto, mas ao menos 17 chegaram a ter glândula artifical implantada sob a pela – e existem relatos de que alguns tenham sido capados.

O resultado da Cura Gay nazista:
o que aprendemos com isso, Feliciano?
Nenhuma das cobaias de Vaernet teve sua homossexualidade “curada”, é óbvio. Na verdade, praticamente todas morreram em decorrência de complicações pós-operatórias e severas infecções.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Então...


Hoje ocorreu uma segunda marcha aqui em Belém que pretendia ser igualmente pacífica. No começo existia muita dúvida acerca de tudo, pois houve uma grande desorganização após a primeira: várias marchas marcadas para o mesmo dia e horário, vários locais e pautas diferentes.
Isso é normal: um espaço surgiu e depois ficou vago, e muitas pessoas surgiram para tentar ocupá-lo. Não foi oportunismo, nem nada parecido, mas as pessoas estavam com um grito preso na garganta e queriam ir às ruas.
Na quarta-feira, dia 19/06, foi marcada uma reunião aberta na Praça da república para tentar então definir uma única marcha na quinta-feira, dia 20/06, além de demandas a serem levadas ao Prefeito, e foi assim ocorreu: muitos movimentos, alguns partidos, todos querendo falar, falar, falar, e nada decidir. Foram quase cinco horas de reunião em que mais se viu uma briga de egos do que outra coisa. Desta vez não era mais o povo, já eram os partidos, o mesmo de sempre, e foi então que a coisa desandou.
Por lógica tentamos escolher um horário razoável: reunir a partir das 16 horas e sair às 18 horas. Por prudência tentamos o percurso Praça da República – São Brás.
Perdemos em tudo.
O que ganhou: sair às 15 horas do CAN com destino à Prefeitura.
Às 15 horas, quando poucas pessoas podem ir...
Destino à Prefeitura, justo onde poderia ocorrer depredação e vandalismo...
Perdemos em tudo.
O que restava? Tentar organizar o que havia sido decidido e torcer que não resultasse em maiores problemas.
Na manhã de quinta houve novo encontro com o Comando da PM e da Guarda Municipal, e novamente se afirmou natureza pacífica do movimento. Informamos local de saída e chegada, e provável horário de saída, mesmo que ainda houvesse forte discussão sobre isso. O Comando da Guarda, já neste momento, informou que o Prefeito iria falar conosco na Praça, ou uma comissão seria formada e ele a receberia.

13:30 da quinta-feira, dia 20/06 – chego no CAN e me deparo com poucas pessoas. Fui logo falar com o Comando da PM presente, que já tratava de assuntos práticos com o Defenso Público Vladimir Koenig. Muitos tentavam atrasar o horário, mas as pessoas que estiveram presentes na reunião aberta do dia anterior não abriam mão do horário escolhido por elas. Depois de muito barulho, percebendo que havia uma maioria querendo sair mais tarde, assim aceitaram.
Por volta de 16:00 tentamos sair pela primeira vez, no que já fomos impedidos por um grupo que fazia questão absoluta de sair na frente da marcha com sua enorme faixa. Assim como eles haviam vários outros. Alguns toparam ir para trás da marcha, aceitando que só fossem na frente aqueles que tinham bandeiras do Brasil e do Pará.
Depois disso, mais briga... Muitos outros queriam sair na frente, acho que numa tentativa meio estranha de assumir a autoria daquilo tudo, sendo que o autor de tudo era o povo! Depois de uma pequena ação de guerrilha, conseguimos passar as bandeiras do Brasil e do Pará para a frente e finalmente saímos.
Depois descobrimos que um outro pequeno grupo resolveu sair antes de tudo e de todos, sem avisar nada a ninguém, e nisso os PMs também foram juntos e acabamos nos distanciado do comando da PM e ficando sem apoio... Mas nada disso nos abateu diante da festa enorme que rolava!

A marcha foi linda, nem preciso dizer. Foi organizada, foi ordeira e foi alegre... Rimos muito, todos que ajudavam a organizar, e assim seguíamos. Até um determinado ponto fui acompanhado por meu tio Augusto Pombo que fazia fotos. Na Presidente Vargas vi minha esposa e minha filha, e meus pais na janela. Muitas famílias, muitas pessoas com crianças e não somente jovens – uma das pessoas que mais puxava gritos e ajudava em tudo era um senhor acho que cego de um olho, a miséria estampada no rosto, e que não arredou o pé até o fim.
No meio da marcha, uma surpresa: toca meu celular e alguém diz “um segundo, o Prefeito vai falar!” Rapidamente pedi silêncio ao povo ao redor e conversamos de forma muito breve: ele poderia receber uma comissão dos manifestante, ou poderia descer e conversar conosco ali na praça. No final de uma breve conversa acabamos decidindo que ele desceria e falaria, e escutaria, e o que mais ocorresse, desde que não houvesse violência. Era o mais junto e democrático diante de um movimento sem líder e sem organizador, feito pelo povo, para o povo. Tentei procurar o Ricardo Silva, outra pessoa que está ajudando a organizar tudo, mas ele havia passado mal e teve que abandonar a marcha pelo caminho.
Já próximo do Ver-o-Peso me adiantei um pouco para chegar antes à Prefeitura e lá encontrei novamente o Vladimir Koenig já tratando da vinda do Prefeito e do que aconteceria depois. Nossos planos: para evitar violências, nós nos sentaríamos todos no chão e o Prefeito, também sentado no chão, nós escutaria e veria onde poderia ceder.
Já neste momento o povo começou a fazer muita pressão junto à grade que protegia a Prefeitura, e cada vez fazia mais e mais. Pedimos, gritamos, que fizessem o acertado e se sentassem, e logo aí vimos que não daria certo... Enquanto muito gritava SENTA, poucos gritavam NÃO SENTA. E logo uma minoria ligada a alguns movimentos e partidos começou a hostilização idiota de hostilizar tudo e todos pelo simples fato de hostilizar.
O Prefeito veio até a grade, cumprimentou a mim e ao Vladimir, e logo foi cercado por muitos líderes e lideranças, todos com suas pautas em mão pedindo para serem ouvidos.
O Prefeito deixou bem claro – ou falaria com todos, ali na praça, ou não falaria com grupos separados, mas sim com a união dos grupos que haviam organizado a marcha... Justo, mas aí surgia o problema: aquele movimento havia sido organizado pelo povo sem a participação de nenhum partido ou movimento. Por mais que eles quisessem tomá-lo, não há dúvidas de que ali ocorria algo voluntário – Não há líder! Não há organizador! Todos nós somos lideres e organizadores, porque somos o povo.
Nesta hora começaram a jogar objetos. Primeiro foi uma bandeira do Brasil, depois uma garrafa de água, depois um ovo... Nesta hora fui bem sincero: melhor entrar, Prefeito. Enquanto ele voltava ao prédio da Prefeitura, mais objetos eram jogados e ainda tentamos pedir calma, gritar SEM VIOLÊNCIA e SEM PARTIDO, mas já era tarde – bem ao meu lado havia um dos Comandantes da Guarda Municipal, homem alto e grande, quase 2 metros, acho, que pedia calma e fazia gestos neste sentido, e de repente ele foi atingido em cheio no pescoço por uma pedra.
Eu lembro bem do barulho seco da pedra batendo nele.
Lembro de ver sangue.
Lembro de vê-lo sem nenhuma reação e tombar no chão.
Eu e o João Henrique Santos, que estava ao lado, corremos até ele e nos colocamos por cima para evitar que fosse atingido por novos objetos que chegavam. O João foi atingido por uma pedra. Eu tive uma sorte imensa.
Como esse Guarda Municipal estava sozinho lá fora, meio distante dos demais, eu e o João tentamos carregá-lo para dentro mas simplesmente não conseguíamos. Desacordado, o corpo não tinha nenhuma rigidez e simplesmente braços e pernas tombavam como se ele estivesse em sono profundo.
Ainda sob pedradas, só conseguimos levar o homem para dentro com a ajuda de mais três ou quatro guardas, não lembro bem.
Lá dentro foram prestados os primeiros socorros e ainda voltei lá fora para tentar controlar as coisas, mas aquelas pessoas não queriam controle, muito menos conversar. Fui xingado e, diante de novos objetos, levado para dentro por um dos guardas que também corria para se abrigar.
Exigiam que o Prefeito fosse lá fora conversar com ela, mas jogavam pedras. Pediam paz, mas jogavam pedras. Gritavam SEM PARTIDO, mas balançavam suas bandeiras quase nas fuças dos Guardas Municipais que protegiam a entrada do Prédio com escudos.
Foi quase uma hora de grande tensão. Ficamos sitiados dentro da Prefeitura: Guardas, alguns manifestantes, jornalistas e servidores municipais. Poucos vândalos jogando muitas pedras e ameaçando invadir o prédio, num claro intuito de provocar a polícia a agredi-los primeiro. Tanto a PM quanto a GMB evitaram qualquer atitude, só passando a agir quando os vândalos não mais se seguraram: além das pedras jogadas começaram a tentar arrombar as portas da Prefeitura e a quebrar os vidros, e então a PM, acho, jogou a primeira bomba de gás.
Se nós que estávamos ilhados dentro do prédio sofremos com o gás, imagino os que estavam lá fora. Neste momento pudemos sair, e logo corremos por uma outra porta para evitar maiores risco. Somente a Guarda Municipal ficou lá.
Na saída ainda circulei pela frente do Palácio, mas já não encontrei nenhum conhecido. Também não encontrei famílias ou os estudantes que antes cantavam felizes o Hino da nação...
Só encontrei rostos cheios de um riso feliz e estranhamento sádico, pessoas que observavam aquilo tudo achando de uma beleza sem igual... Pedras jogadas, portas sendo chutadas e vidros quebrados... Eles pareciam gostar muito de tudo aquilo.
Mais bombas foram jogadas, mas logo que passava o efeito os gafanhotos voltavam... Por fim, a PM jogou uma grande quantidade de bombas e acho que turba acabou por se dispersar. Minha garganta e olhos ainda queimam. Depois veio a chuva e resolvi voltar para casa. Sem bateria no celular, achei que estariam preocupados.

Disso tudo, o que posso tirar?
Primeiro: sou de uma ingenuidade tremenda, quase beirando o besta. Achar que partidos e movimentos respeitariam a vontade do povo foi muito até para mim. O mais engraçado é ver pequenos partidos ou movimentos muito segmentados achando que podem tomar conta da vontade do povo. Um dos gritos de sempre é SEM PARTIDO, no sentido de que não queremos partidos ali, que aquilo é nosso. O mais engraçado é perceber pequenos partidos e movimentos segmentados seguindo o mesmo rumo dos grandes – cada vez representando menos a todos.
Segundo: toda essa manifestação do povo foi tomada de forma mesquinha por pessoas que não querem conversar, não querem resolver e nem sabem o que querem. Eles não querem resolver porque precisam estar sempre brigando, porque somente assim sabem viver. Infelizmente eles são mais organizados do que nós, então eles ganham.
Terceiro: essas pessoas sofrem de séria esquizofrenia. Primeiro xingam o Prefeito, mas quando ele aparece se chegam todos carinhosos e de fala mansa apresentando suas pautas. Primeiro pedem que o prefeito venha falar com eles, mas depois jogam ovos e pedras. Primeiro querem ser recebidos como lideranças de algo que seja, mas não aceitam que existam outras lideranças e nem outra causa, pois só a sua causa é válida.

Sim, todos nós fomos ingénuos. Os poucos de hoje não apareceram na primeira marcha porque marchamos de nenhum lugar para lugar nenhum. Assim que puderam, mudaram os rumos justamente para onde queriam.

Relato tudo isso porque realmente não sai da minha cabeça. O som seco da pedra batendo no pescoço. O som da madeira cedendo ao chutes. O barulho das bombas de gás. O gás queimando garganta e olhos...

Uma pena que tenha terminado assim uma marcha com quase 20 mil pessoas pacíficas. Uma marcha absolutamente calma, cheia de jovens risonhos e felizes por estar ali. Uma marcha onde vimos uma senhora idosa balançando a bandeira do Brasil e resolvemos cantar o Hino Nacional em sua homenagem. E não foram poucas as vezes em que os pelos do braço se arrepiaram ou as lágrimas tentaram brotar, tanta era a emoção de ver aquilo acontecer.
Podíamos esperar, mas não quisemos esperar.

sábado, 25 de maio de 2013

As três meninas


São três as meninas bonitas no barco, morenas que podiam representar qualquer lenda amazônica que envolva mulheres bonitas. Morenas de cabelos longos e negros, lisos, e no rosto a certeza do local onde nasceram, herança genética que nunca poderão esconder.
São três as meninas bonitas no barco que não viajam sozinhas: duas são acompanhadas por um estranho tio, figura que bem poderia representar qualquer estereotipo do submundo humano; a outra é seguida de perto por uma tia-cão-de-guarda, senhora gorda e sebosa que fuma um cigarro atrás do outro.
São três as meninas bonitas no barco que seguem caladas, mas com os rostos cheios de esperança, sempre sentadas de forma obediente ao lados dos seu tutores que bebem muito e fumam muito.
São duas as histórias que contam, tão repletas de felicidades que dificilmente se pode acreditar.
É somente um o destino: o Suriname.
Duas vão visitar a mãe, enquanto a outra pretende reencontrar um namorado. Quando se pede mais informações surge a explicação do tempo passado que tudo apaga da memória, desculpa perfeita dos que querem calar: a mãe se mudou quando elas tinha 12, 11 anos, então nada se lembram. O namorado já esta fora desde 2010, então nem sabe como será o reencontro. A vagueza das respostas, impregnadas de receio, é observada com discreta aprovação pelo tio e tia que só faltam balançar a cabeça diante do que parece ser o bem mandado.
São três as meninas bonitas no barco, todas muito novas em seus 18 19 anos, meninas já em corpo de mulher que fazem virar cabeças e despertam olhares cheios de inveja.
São três as meninas bonitas no barco que vão tirar passaporte em Santarém. Depois de breve escala em Belém, partirão para uma vida nova em Suriname, e me lembro dos rostos cheios de esperança, o Suriname afamado por verter juventudes e vidas de mulheres jovens, quase sempre brasileiras, local de muito garimpo e, por consequência, de muitos homens solitários que desejam sempre mais e mais mulheres bonitas e jovens, igual às três meninas bonitas e jovens que seguem neste meu barco.
As sombras no Tapajós escondem muitas coisas que o Tapajós
prefere não ver...
Que sejam felizes! Que tenham sorte!
E que o mundo não seja demasiadamente cruel com seus sonhos e esperanças.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Leão III


Por mais que, aparentemente, não haja ordem alguma no amontoado de barcos ancorados no cais de Santarém, é fato que existe uma organização que passa despercebida aos meros mortais, talvez fruto de anos de sabedoria e entendimento entre o rio e os homens. Basta abordar qualquer pessoa, informar seu destino e logo lhe serão dadas todas as opções de transporte disponíveis.
O Leão III, barco valente.
Foi assim que cheguei ao Leão III, barco típico da região Norte do Brasil, que comumente chamamos de gaiolas. Não há grande fuga à regra: barcos de madeira, geralmente pintados de branco, em contraste com outras cores extremamente vivas, com amplos espaços para atar redes e poucos camarotes. No caso do Leão III, que faz o trajeto entre Santarém e Itaituba, com escalas em Aveiro e Fordlândia, são dois déques apinhados de coletes laranjas, além de barras de ferro azuis, com ganchos, nos quais serão penduradas as redes que logo aflorarão por todos os lados. 
As redes no Leão III no déque superior - neste momento ainda
eram poucas.
No déque superior se localizam quatro camarotes para passageiros, compartimentos duplos, com beliches e ar condicionado, espaços quase sem espaço em apertadura surpreendente que assusta em primeira vista, mas que se revela acolhedor ao longo da viagem. A completar a estrutura do barco, um refeitório (com PF custando 10 reais), uma lanchonete (onde uma Coca em lata custa assombrosos seis reais), um vasto porão e camarotes de tripulação localizados bem acima da trepidação barulhenta do motor, no déque inferior.
O camarote 4 do Leão III - não se deixe levar pela imagem.
Ele é bem melhor do que aparenta.
Aqui há de tudo: há doentes que terminam tratamento em Santarém e voltam para casa, há pessoas que vão visitar parentes, além dos muitos que, acostumados com o vai e vem da vida, trabalham numa ponta ou outra do caminho. Algumas histórias chocam, como a senhora beneficiada do TFD, Tratamento Fora do Domicílio, que se trata no Regional de Santarém e faz regularmente a viagem pelo rio. Ela sofre de graves problemas na tireoide e recebe somente as passagens de barco. Somente isso. Hospedagem e alimentação ficam por conta dela, que faz verdadeiro malabarismo para seguir adiante com o necessário cuidado médico. Suas reclamações são muitas: desde a confusão na marcação de exames, o que já a obrigou a arcar com muitos deles com dinheiro tirado sabe-se lá de onde; até o médico, que sabendo vir a paciente de longe, se dá ao direito de faltar ao trabalho por razão qualquer. Quando a conheci, havia sido exatamente assim: consulta marcada com antecedência, viagem realizada e médico ausente. E volta a paciente no mesmo pé para sua casa, já que não tem onde ficar, e nem como pagar um hotel ou comida, uma vinda totalmente perdida.
O Leão III singra pelo rio Tapajós, um dos mais belos e mansos que já vi. O barco quase não balança no rio de poucas ondas, diferente dos trajetos ao Marajó, seja para Soure ou Salvaterra (com uma baia terrível no meio do caminho), ou para Afuá, pelo outro extremo (com duas baias terríveis no meio do caminho).
O rio só balança quando chove, explica a senhora responsável pela lanchonete e pela caixa de som que cospe tecnobrega em último volume. Ela diz que muitos já se machucaram para valer no balançar quase assassino de quando chove, movimento que joga as redes com violência contra paredes e pilastras. Hoje temos calmaria, para nossa felicidade.
A risonha vendedora da lanchonete, sempre pronta ao bom papo.
Apesar da beleza do Tapajós, pouco se vê dá margem tão distante, o rio que, em lugar comum, comparamos sempre com o mar. As margens ficam longe, distantes da vista, o que também faz ficar longe o ribeirinho e sua miséria, população praticamente à margem de tudo e todos, dependente somente de si para sobreviver da forma que der. E se não vemos as margens, vemos o ocaso no rio, assim como veremos o nascer do sol que promete ser único, em luz que só deve existir aqui no Tapajós.
A luz no Tapajós é única. Nenhum outro lugar apresenta cores
iguais às do Tapajós
Também há experiências que não podem passar batidas, que deveriam ser experimentadas por todos que aqui habitam para que pudessem entender bem o que é o Norte:
Estar num barco aparentemente frágil, em rio enorme de vista sem fim, de margens perdidas no horizonte, embarcação pontilhada de redes de diferentes panos, cores e tamanhos, diferenças que remetem aos seus donos, uns índios, outros caboclos, uns portugueses, ricos ou pobres, saudáveis ou doentes, todos em comunhão de espaço e em perfeita harmonia, as redes que balançam em unidade como se empurradas por mão única, invisível e divina; tudo envolvido pelo cheiro bom de comida caseira que sobe do refeitório, onde ficamos ombro com ombro, não importando quem somos, todos juntos apreciando a boa refeição, mas também a segurar o prato que treme de forma alucinada por conta da trepidação do motor - e lá estamos bem acima do motor, de onde vem o cheio de diesel que se mistura com o cheiro da carne assada e do frango guisado. O refeitório do Leão III não permite apreciar a comida, que bem merecia ser apreciada pela sua simplicidade, honestidade e tempero único, o local de tremores mecânicos que só motiva o mastigar veloz para que possamos nos liberar da fome e fugir para áreas mais aprazíveis da embarcação, tudo embalado pelos acordes agudos do tecnobrega que abraça a todos, a caixa de som enorme prostrada no balcão da lanchonete, vomitando amores perdidos em traição, e que embala os que miram de forma automática o horizonte, olhar vazio, a música alta que não possibilita pensamento interno ou íntimo, tudo regado por latas de cervejas e mistos-quentes vendidos a preços absurdos àqueles que não têm muitas opções.
Entrada do Camarote 4, meu lar nas 18 horas de viagem entre Santarém e Itaituba.