segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Me chute, ou o mundo não está contra você*
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Chegou a minha vez - fomos assaltados
Sábado fomos roubados, eu e Tainá, minha namorada, justo em frente à casa dela. A comemoração que as crianças fizeram ao nos avistar chegar, da sacada, não tardou a se transformar em completo desespero quando três homens armados nos abordaram. Dois deles estava distantes cerca de 15 metros, como se estivessem atravessando a rua, e não lhes dei muita importância. O terceiro, que estava armado, saiu das sombras de outra esquina e, mostrando um revólver enferrujado, mandou-nos voltar ao carro. Resolvi ser enérgico, sem ser agressivo, e disse: “deixem ela ficar”. A primeira resposta foi um sonoro não, ao qual não me rendi: “por favor, deixem ela ficar, levem só a mim”. Sabia que poderia suportar bem um bocado de coisas, mas não suportaria e provavelmente reagiria a qualquer maltrato ou abuso contra minha namorada. Não sei se diante à minha firmeza, concordaram em deixá-la, mas a afirmação de que somente eu iria despertou nela um sentimento de proteção desmesurado – diante de três bandidos armados, ela se postou diante da porta do motorista e, a plenos pulmões, gritava que eles não me levariam. O bandido que estava ao meu lado, como quem pede o açúcar na mesa, se dirigiu ao que estava armado e disse – “me passa o ferro que eu vou matar ela”. Tive que fazer alguma coisa e eu mesmo a peguei e tirei da porta, a coloquei na calçada e disse: “deixe eu ir”. Queria mantê-los longe de tudo e de todos, partir para qualquer lugar que fosse distante o suficiente. Já no carro, nós quatro mantivemos a calma e fomos conversando por todo o caminho – eu informava o que faria, eles nem tocaram em mim. Disse que colocaria o cinto, que ligaria o ar e acenderia a luz. Eles me ofereceram o celular para ligar para a Tainá e informar que estava bem. E o celular dela tocou na bolsa - obviamente – a perda material que se avolumava. Encontraram meu computador, um resistente MacBook de uns três anos que estava no carro por acaso. Pedi: “deixem o computador, tem toda a minha vida aí dentro”. A resposta, mais do que cortês: ”Não podemos. Temos que levar tudo”. Disseram que deixariam os chips dos celulares, assim como documentos e cartões. Mas como se tratavam de dois Iphones, que necessitam de uma chave especial para a retirada do chip, me informaram que, infelizmente, não poderiam fazer aquela camaradagem. Meus documentos ficaram, mas os da Tainá foram levados, acho que por preguiça de revistar em minúcia a enorme carteira feminina. Perguntaram se meus óculos escuros eram valiosos e respondi que eram de grau. Foram jogados em um canto. Fui informado do lugar onde deveria deixá-los, que eles queriam “somente fuga”, e assim seguimos. Mantive a calma, conversei com eles todo o tempo, e até parei o carro longe da visão de uma viatura, a parada incômoda no sinal que se fazia necessária. Queria deixá-los em algum canto e seguir com minha vida, e o que menos queria era encontrar com um carro de polícia que me transformasse no refém com a arma na cabeça, a imagem estampada na capa do jornal de segunda-feira. Chegando ao local que inicialmente me foi informado, ocorreu uma breve discussão e resolveram mudar o ponto de desembarque. Nova andança, novo local, mais martírio. Tive a sorte de lembrar da trava de crianças nas portas traseiras e informei ao bandido que estava ao meu lado – “você sai na frente e abre a porta para eles, sem muito alarde para não chamar atenção”. Me agradeceram. No local combinado, tudo feito de acordo com o que tínhamos acertado, desceram do carro e ainda me agradeceram: “geralmente a gente leva a chave do carro, mas como tu foi bacana, não vamos levar a tua. Obrigado e desculpa qualquer coisa”. Fiz um tímido sinal de ok com a mão, perdido e amedrontado que estava, e nada mais me restava fazer. Fui deixado na esquina das ruas Mundurucus com Teófilo Conduru, na divisa entre Guamá e Terra Firme. Dei meia volta e sai para procurar uma viatura de polícia que pudesse me dar apoio! Encontrei um carro da PM que, já tendo presenciado um crime, se dirigia para a delegacia com um carro roubado que acabaram de achar, a cidade que não pára. Bem perto de onde estava há a Seccional de São Bras, e resolvi me dirigir para lá. Só para me revoltar – um único policial civil que dormitava me disse que nada poderia fazer pois estava só, e que nem mesmo ocorrência poderia registrar pois não havia escrivão. Me apontou uma fila gigantesca no hall de entrada da Seccional e disse: “estão todos esperando”, como se aquilo fosse normal. Quando questionei o que deveria fazer, o sonolento policial civil foi mais absurdo ainda: “ligue para o 190 do telefone que está naquela mesa e veja se podem lhe ajudar”. Imaginem a surpresa ao escutar um policial dizer isso, o mesmo que deveria me proteger fazendo pouco caso de mim e de todos, o “te vira” que não foi dito mas estava lá, cortante! Minha resposta a tal oferta, antes de virar as costas e sair, foi: “nada funciona nesse País”. Ele deu de ombros. No caminho de casa encontro outra viatura. Paro ao lado e peço ajuda – cordiais, perguntaram a marca de meu carro e, diante das informações que lhes passava, questionaram se me chamava Fernando Sampaio, advogado. Alívio. Ouvir meu nome da boca de um policial significava, naquele momento, que alguém estava fazendo seu serviço. Estacionei e sai para falar com eles. “Estávamos lhe procurando mas não podemos ir ao local em que você os deixou. Temos outros sete carros na mesma situação, a cidade está um inferno”. Sete carros!? SETE!!? Sete carros ainda em seqüestro, em uma noite de sábado, e eu livre já. Agradeci a e resolvi voltar para casa, acalmar minha namorada que chorava de joelhos na calçada, quando sai, e minha filha que urrava, da sacada, pedindo pelo pai. Procedimentos policiais, perseguição, tudo ficaria para depois. Agora queria voltar para casa e dizer que estava bem. O PM que me atendia ainda me ofereceu seu celular para ligar, avisar alguém, gesto simples mas fundamental prova de humanidade. Liguei para meu pai, que saberia manter a calma, e pedi que telefonasse aos demais informando que estava voltando. Voltei. Diante da casa da Tainá se avolumavam umas vinte pessoas, muitos que eu nem conhecia mas lá, dando força e fazendo vigília. De longe joguei luz, a ânsia de dizer que estava bem, que estava ali. Enquanto procurava um lugar para estacionar ouvia passos barulhentos que corriam na calçada e sabia ser minha filha. Desci e fui cercado de abraços, Tainá, sua mãe, dona Nilda, e minha filha, Maria. Choravam muito, mas me viram sem nenhuma marca, sem nenhum ferimento, vivo. Junto aos rostos dos desconhecidos encontrei o de bons amigos, como o Eduardo, major da PM que estudou Direito comigo, e do Damaso, vizinho da Tainá que, mesmo diante de mil ocupações, uma festa para organizar, parou tudo para tentar me encontrar. Logo chegaram três viaturas da Polícia Civil, chamadas pelo Eduardo, e uma da PM. Me deram todo o apoio possível e me pediram para ir à Seccional do Comércio registrar a ocorrência antes negada. Hoje, ainda capítulo doloroso disso tudo, verei fotos e tentarei recuperar o que puder, nem que seja a esperança de que algo ainda funcione nessa terra. Me disseram que se conseguir reconhecer um dos bandidos existe possibilidade de encontrar as coisas, a falta grande que sinto de meu computador, uma vida inteira, mesmo que breve, de textos e fotos, a relutância em crê-los perdidos.
De tudo isso, eu digo: não quero mais, pira paz! Não quero mais Belém, os quarenta minutos de sempre para ir de um ponto ao outro, qualquer ponto que seja; não quero mais o medo de qualquer esquina, o medo de qualquer escuro, a atenção de sempre que, um dia, sempre falha; não quero mais minha namorada que, ao me ver, chora, o medo de ter me perdido, ou a filha que nem consegue falar comigo ao telefone, nervosa, o medo de ter perdido o pai. O que resta? Um policial jogado, quase dormindo, na Seccional de São Bras, que diante da fila de pessoas sonolentas, que precisam estar ali, nada faz. Um homem concursado, treinado, pago com dinheiro do meu imposto, e que se limita a me apontar um telefone e dizer: “liga para alguém e busca ajuda”! Só faltou ele completar com um “se tu quiseres”, a frase que não ficaria mais jocosa à aquele que esteve sob ameaça, com medo.
Dessa terra não sei mais o que esperar, a notícia triste de que alguém que conheço foi baleado, a loucura diária de se morrer por nada, sem nem saber a razão.
Os depoimentos são tristes – Damaso informava que no prédio dele, diante do da Tainá, TODOS já haviam sido assaltados da mesma forma, e que ele só esperava a sua vez. Eduardo, major da PM, e Fernando Sampaio, policial federal que tem o mesmo nome que eu, enquanto me ajudavam relatavam seus seqüestros. Carro blindado? Para quê? Eles te pegam na saída, o pulo gatuno da sombra que te pega de surpresa!
Dessa terra não sei mais o que esperar, e nem sei se ainda quero esperar algo, a espera eterna que se torna cansativa e enfadonha, a espera que um dia as coisas possam ser diferentes, a solução que nunca chega. Na Seccional do Comércio, uma policial triste me dizia – “a gente prende hoje e, amanhã, eles estão na rua fazendo tudo de novo”.
Agora, com a cabeça fria, fico pensando em diversas reações que poderia ter tido: com as portas traseiras travadas, poderia tentar correr, alguma artimanha na hora em que vi uma viatura policial; alguns anos de judô me dão a certeza de que facilmente poderia ter derrubado o rapaz que estava com a arma, uma desatenção qualquer dele que lhe seria fatal; ou quando me deixaram, que saíram andando normalmente bem na frente do carro – com o bom motor do meu citroën ligado, poderia ter passado por cima deles, especialmente daquele que sabia estar armado. Mas nada disso é racional, tudo são suposições baseadas na revolta que nos aflige depois do fato – certamente não teria sido rápido o suficiente e acabaria sendo baleado se tentasse sair do carro; um deles poderia ter outra arma não mostrada, e mesmo que eu derrubasse um, não teria como lutar contra os três; passar por cima deles, mesmo que fosse a opção mais racional dentre estas, vai contra minha humanidade: não sou um assassino e meu instinto é de preservar vida, não tirá-la (além do mais, sejamos corretos – os bandidos foram até gentis comigo. Passar por cima deles seria deselegante). Além disso, eles estavam no seu setor e, certamente, deviam ter alguém mais que lhes desse cobertura na fuga.
Correta está Tainá: “sua reação foi acertada, prova disso que estas aqui conversando comigo, sem nenhum ferimento, sem nada”.
E assim seguimos, tendo sorte. Tive sorte dos bandidos terem aceitado que Tainá ficasse. Tive sorte de ter mantido a calma e conseguido pensar, não reagir de forma tresloucada. Tive sorte de, dentro do possível, ter encontrado ladrões minimamente profissionais e centrados, não uns nervosos drogados, o dedo leve no gatilho que poderia colocar fim na minha vida por um “ai” qualquer. Sim! Tive sorte. Mas até quando?
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Relato da briga de vizinhos
Por sugestão de Renato Ribeiro,
Sérgio estava traindo a mulher que grita, da qual não sei o nome. E parece que Sérgio já teve algo com a irmã da atual amante. As irmãs: a atual, Valéria; a ex-namorada Vanessa. A mulher que grita parece sofrer muito. Seus gritos são escutados na rua onde se forma pequena platéia. A mulher que grita deve ter razão, pois que Sérgio nem parece interessado em falar ou se explicar - diante dos gritos cheiros de dor ele cala. Coisas são jogadas, escuto o barulho de coisas que se quebram. A platéia na rua vibra e ri. Por fim, um batida de porta e Sérgio sai. Não fui à janela e não sei quem Sérgio é, qual seu carro. Só sei que ele saiu e a mulher traida chora alto, e fala coisas que não entendo. Sinto pena e a platéia na rua se calou. O choro é cheio de dor e a ninguém interessa rir da dor dos outros...
P.s.: a mulher traída, da qual não sei o nome, ainda chora muito, e muito alto. E nem precisei sair da minha cadeira para escutar a tudo que acontecia. Tudo me veio como um tapa na cara trazido pelo vento.
Belém, 09 de maio de 2010, às 23 horas e 54 minutos.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
1º Passeio Fotográfico-Gastronômico do Blog Belenâmbulo
