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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Me chute, ou o mundo não está contra você*


*Texto publicado originalmente no Muita Pimenta em 19/11/2010.
De repente o mundo parece estar contra você.
De manhã, o trânsito absurdo e a briga por estacionamento. No trabalho, cobranças desnecessárias e desgaste com pessoas que você vê todo dia. No meio da tarde, do nada, toca o celular e sua mãe que não está tendo um bom dia, resolve estragar o seu também. Na hora de voltar para casa, com fome e sono, todos os carros na pista parecem atraídos pelo seu veículo num festival de total ignorância as regras de trânsito. Já na frente de sua casa você descobre que o problema de estacionamento é universal. Então você acaba parando longe, muito longe…
O que fazer para relaxar?
Quem sabe ir andando até a praça e correr um pouco, ficar em forma e espairecer as idéias? Era uma excelente idéia até o momento em que um motorista de ônibus resolve furar o sinal vermelho e quase te atropela em plena faixa de pedestre. Mas não, ainda não foi desta vez. O motorista erra por pouco e vai embora, some por entre as ruas escuras da cidade. A ti, resta o nervosismo e o estresse, tudo estourando como bomba de 1000 megatons no peito, a cabeça que gira por conta da raiva e do sentimento de impotência.
Quando foi a última vez que você se sentiu assim (fora todos os dias anteriores com a mesma rotina)?
Talvez tenha sido naquele fatídico dia em que, no colégio, grudaram um cartaz dizendo “chute-me” nas suas costas. Você nem percebeu a graça, não é? Só foi notar que havia algo de errado quando levou o terceiro golpe por nada…
O nosso maior problema é achar que o mundo está contra nós, que as pessoas acordam, se banham, tomam café e saem de casa com um único objetivo – destruir seu dia e, quem sabe, sua vida.
Na nossa cabeça, ao final de um dia com rotina igual ou mais radical que este, só restaria uma verdade: O problema é comigo.
Surgem várias teses, desde a divina (estou pagando por meus pecados) até a da desistência e do falso desapego (vou embora, vou partir desse lugar, deixar tudo e ser feliz).
A verdade, meu amigo, é bem menos egocêntrica.
A geometria da vida é cruel com todos, quase sem exceção (ficam de fora as crianças que ainda podem assistir toda a Sessão da Tarde sem perturbação).
Aqueles que você encara como seus inimigos na hora da procura por uma vaga te olham da mesma forma. Ninguém quer realmente prejudicar ninguém. Todos querem, somente, largar seus carros e correr para seus trabalhos maçantes.
Da mesma forma, aqueles com quem você discute no trabalho estão tão cansados quanto você. Todos querem uma semana de folga surpresa (de preferência com uma viagem para a Martinica com tudo pago) e um salário um pouco melhor.
Também é assim com aqueles que te trancam na rua. Eles podem simplesmente estar com sono ou se defendendo de outros motoristas (e com isso não quero livrar a cara dos que realmente são barbeiros).
E a mãe… Bem… Quem consegue explicar as mães? Ela pode ter tido um dia duro ou estar irritada com a empregada que não apareceu, com a filha que não estuda, com a máquina que quebrou e não lava mais nada. Tantas coisas.
Agora chegamos na parte crucial: e o motorista de ônibus que furou o sinal e quase te matou? O que justifica?
Eu te diria: o cara ganha pouco, deve ter os mesmos problemas que eu (ou mais problemas), passa o dia dirigindo um veículo enorme, pesado, quente e cheio de gente que na maioria das vezes reclama do serviço prestado. Isso sem pensar aonde ele deve morar, o quão distante e longo será o trajeto de volta para casa, ele já no limite de suas forças após um dia dirigindo no trânsito doido da cidade.
Quer ir mais fundo? O cara ainda vai estacionar aquele monstrengo na garagem da empresa, prestar contas ao patrão, lavar o veículo… e tomara que não tenha vômito no chão pois é ele mesmo quem vai limpar.
Sinceramente, não creio que justamente aquele motorista seja o menino de quem você roubou bolinhas de gude na infância e que prometeu se vingar um dia.
Tento ver somente um homem cansado e esgotado, obrigado a cumprir horário de chegada e doido para que o dia acabe. De repente, quem sabe, ele nem mesmo te viu. Se tivesse visto, certamente não teria avançado.
Meu ponto de vista? O mundo não está contra você e nem há uma placa escrito “chute-me” grudada nas suas costas. O mundo é simplesmente um local difícil de se viver e nem todos sabem como lidar com isso.
Pense nisso da próxima vez que sair a rua e depois me diga se as coisas ficaram um pouco melhores.Enquanto isso nos resta ter paciência e lembrar sempre que o mundo é um local difícil para todos.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Chegou a minha vez - fomos assaltados

Sábado fomos roubados, eu e Tainá, minha namorada, justo em frente à casa dela. A comemoração que as crianças fizeram ao nos avistar chegar, da sacada, não tardou a se transformar em completo desespero quando três homens armados nos abordaram. Dois deles estava distantes cerca de 15 metros, como se estivessem atravessando a rua, e não lhes dei muita importância. O terceiro, que estava armado, saiu das sombras de outra esquina e, mostrando um revólver enferrujado, mandou-nos voltar ao carro. Resolvi ser enérgico, sem ser agressivo, e disse: “deixem ela ficar”. A primeira resposta foi um sonoro não, ao qual não me rendi: “por favor, deixem ela ficar, levem só a mim”. Sabia que poderia suportar bem um bocado de coisas, mas não suportaria e provavelmente reagiria a qualquer maltrato ou abuso contra minha namorada. Não sei se diante à minha firmeza, concordaram em deixá-la, mas a afirmação de que somente eu iria despertou nela um sentimento de proteção desmesurado – diante de três bandidos armados, ela se postou diante da porta do motorista e, a plenos pulmões, gritava que eles não me levariam. O bandido que estava ao meu lado, como quem pede o açúcar na mesa, se dirigiu ao que estava armado e disse – “me passa o ferro que eu vou matar ela”. Tive que fazer alguma coisa e eu mesmo a peguei e tirei da porta, a coloquei na calçada e disse: “deixe eu ir”. Queria mantê-los longe de tudo e de todos, partir para qualquer lugar que fosse distante o suficiente. Já no carro, nós quatro mantivemos a calma e fomos conversando por todo o caminho – eu informava o que faria, eles nem tocaram em mim. Disse que colocaria o cinto, que ligaria o ar e acenderia a luz. Eles me ofereceram o celular para ligar para a Tainá e informar que estava bem. E o celular dela tocou na bolsa - obviamente – a perda material que se avolumava. Encontraram meu computador, um resistente MacBook de uns três anos que estava no carro por acaso. Pedi: “deixem o computador, tem toda a minha vida aí dentro”. A resposta, mais do que cortês: ”Não podemos. Temos que levar tudo”. Disseram que deixariam os chips dos celulares, assim como documentos e cartões. Mas como se tratavam de dois Iphones, que necessitam de uma chave especial para a retirada do chip, me informaram que, infelizmente, não poderiam fazer aquela camaradagem. Meus documentos ficaram, mas os da Tainá foram levados, acho que por preguiça de revistar em minúcia a enorme carteira feminina. Perguntaram se meus óculos escuros eram valiosos e respondi que eram de grau. Foram jogados em um canto. Fui informado do lugar onde deveria deixá-los, que eles queriam “somente fuga”, e assim seguimos. Mantive a calma, conversei com eles todo o tempo, e até parei o carro longe da visão de uma viatura, a parada incômoda no sinal que se fazia necessária. Queria deixá-los em algum canto e seguir com minha vida, e o que menos queria era encontrar com um carro de polícia que me transformasse no refém com a arma na cabeça, a imagem estampada na capa do jornal de segunda-feira. Chegando ao local que inicialmente me foi informado, ocorreu uma breve discussão e resolveram mudar o ponto de desembarque. Nova andança, novo local, mais martírio. Tive a sorte de lembrar da trava de crianças nas portas traseiras e informei ao bandido que estava ao meu lado – “você sai na frente e abre a porta para eles, sem muito alarde para não chamar atenção”. Me agradeceram. No local combinado, tudo feito de acordo com o que tínhamos acertado, desceram do carro e ainda me agradeceram: “geralmente a gente leva a chave do carro, mas como tu foi bacana, não vamos levar a tua. Obrigado e desculpa qualquer coisa”. Fiz um tímido sinal de ok com a mão, perdido e amedrontado que estava, e nada mais me restava fazer. Fui deixado na esquina das ruas Mundurucus com Teófilo Conduru, na divisa entre Guamá e Terra Firme. Dei meia volta e sai para procurar uma viatura de polícia que pudesse me dar apoio! Encontrei um carro da PM que, já tendo presenciado um crime, se dirigia para a delegacia com um carro roubado que acabaram de achar, a cidade que não pára. Bem perto de onde estava há a Seccional de São Bras, e resolvi me dirigir para lá. Só para me revoltar – um único policial civil que dormitava me disse que nada poderia fazer pois estava só, e que nem mesmo ocorrência poderia registrar pois não havia escrivão. Me apontou uma fila gigantesca no hall de entrada da Seccional e disse: “estão todos esperando”, como se aquilo fosse normal. Quando questionei o que deveria fazer, o sonolento policial civil foi mais absurdo ainda: “ligue para o 190 do telefone que está naquela mesa e veja se podem lhe ajudar”. Imaginem a surpresa ao escutar um policial dizer isso, o mesmo que deveria me proteger fazendo pouco caso de mim e de todos, o “te vira” que não foi dito mas estava lá, cortante! Minha resposta a tal oferta, antes de virar as costas e sair, foi: “nada funciona nesse País”. Ele deu de ombros. No caminho de casa encontro outra viatura. Paro ao lado e peço ajuda – cordiais, perguntaram a marca de meu carro e, diante das informações que lhes passava, questionaram se me chamava Fernando Sampaio, advogado. Alívio. Ouvir meu nome da boca de um policial significava, naquele momento, que alguém estava fazendo seu serviço. Estacionei e sai para falar com eles. “Estávamos lhe procurando mas não podemos ir ao local em que você os deixou. Temos outros sete carros na mesma situação, a cidade está um inferno”. Sete carros!? SETE!!? Sete carros ainda em seqüestro, em uma noite de sábado, e eu livre já. Agradeci a e resolvi voltar para casa, acalmar minha namorada que chorava de joelhos na calçada, quando sai, e minha filha que urrava, da sacada, pedindo pelo pai. Procedimentos policiais, perseguição, tudo ficaria para depois. Agora queria voltar para casa e dizer que estava bem. O PM que me atendia ainda me ofereceu seu celular para ligar, avisar alguém, gesto simples mas fundamental prova de humanidade. Liguei para meu pai, que saberia manter a calma, e pedi que telefonasse aos demais informando que estava voltando. Voltei. Diante da casa da Tainá se avolumavam umas vinte pessoas, muitos que eu nem conhecia mas lá, dando força e fazendo vigília. De longe joguei luz, a ânsia de dizer que estava bem, que estava ali. Enquanto procurava um lugar para estacionar ouvia passos barulhentos que corriam na calçada e sabia ser minha filha. Desci e fui cercado de abraços, Tainá, sua mãe, dona Nilda, e minha filha, Maria. Choravam muito, mas me viram sem nenhuma marca, sem nenhum ferimento, vivo. Junto aos rostos dos desconhecidos encontrei o de bons amigos, como o Eduardo, major da PM que estudou Direito comigo, e do Damaso, vizinho da Tainá que, mesmo diante de mil ocupações, uma festa para organizar, parou tudo para tentar me encontrar. Logo chegaram três viaturas da Polícia Civil, chamadas pelo Eduardo, e uma da PM. Me deram todo o apoio possível e me pediram para ir à Seccional do Comércio registrar a ocorrência antes negada. Hoje, ainda capítulo doloroso disso tudo, verei fotos e tentarei recuperar o que puder, nem que seja a esperança de que algo ainda funcione nessa terra. Me disseram que se conseguir reconhecer um dos bandidos existe possibilidade de encontrar as coisas, a falta grande que sinto de meu computador, uma vida inteira, mesmo que breve, de textos e fotos, a relutância em crê-los perdidos.

De tudo isso, eu digo: não quero mais, pira paz! Não quero mais Belém, os quarenta minutos de sempre para ir de um ponto ao outro, qualquer ponto que seja; não quero mais o medo de qualquer esquina, o medo de qualquer escuro, a atenção de sempre que, um dia, sempre falha; não quero mais minha namorada que, ao me ver, chora, o medo de ter me perdido, ou a filha que nem consegue falar comigo ao telefone, nervosa, o medo de ter perdido o pai. O que resta? Um policial jogado, quase dormindo, na Seccional de São Bras, que diante da fila de pessoas sonolentas, que precisam estar ali, nada faz. Um homem concursado, treinado, pago com dinheiro do meu imposto, e que se limita a me apontar um telefone e dizer: “liga para alguém e busca ajuda”! Só faltou ele completar com um “se tu quiseres”, a frase que não ficaria mais jocosa à aquele que esteve sob ameaça, com medo.

Dessa terra não sei mais o que esperar, a notícia triste de que alguém que conheço foi baleado, a loucura diária de se morrer por nada, sem nem saber a razão.

Os depoimentos são tristes – Damaso informava que no prédio dele, diante do da Tainá, TODOS já haviam sido assaltados da mesma forma, e que ele só esperava a sua vez. Eduardo, major da PM, e Fernando Sampaio, policial federal que tem o mesmo nome que eu, enquanto me ajudavam relatavam seus seqüestros. Carro blindado? Para quê? Eles te pegam na saída, o pulo gatuno da sombra que te pega de surpresa!

Dessa terra não sei mais o que esperar, e nem sei se ainda quero esperar algo, a espera eterna que se torna cansativa e enfadonha, a espera que um dia as coisas possam ser diferentes, a solução que nunca chega. Na Seccional do Comércio, uma policial triste me dizia – “a gente prende hoje e, amanhã, eles estão na rua fazendo tudo de novo”.

Agora, com a cabeça fria, fico pensando em diversas reações que poderia ter tido: com as portas traseiras travadas, poderia tentar correr, alguma artimanha na hora em que vi uma viatura policial; alguns anos de judô me dão a certeza de que facilmente poderia ter derrubado o rapaz que estava com a arma, uma desatenção qualquer dele que lhe seria fatal; ou quando me deixaram, que saíram andando normalmente bem na frente do carro – com o bom motor do meu citroën ligado, poderia ter passado por cima deles, especialmente daquele que sabia estar armado. Mas nada disso é racional, tudo são suposições baseadas na revolta que nos aflige depois do fato – certamente não teria sido rápido o suficiente e acabaria sendo baleado se tentasse sair do carro; um deles poderia ter outra arma não mostrada, e mesmo que eu derrubasse um, não teria como lutar contra os três; passar por cima deles, mesmo que fosse a opção mais racional dentre estas, vai contra minha humanidade: não sou um assassino e meu instinto é de preservar vida, não tirá-la (além do mais, sejamos corretos – os bandidos foram até gentis comigo. Passar por cima deles seria deselegante). Além disso, eles estavam no seu setor e, certamente, deviam ter alguém mais que lhes desse cobertura na fuga.

Correta está Tainá: “sua reação foi acertada, prova disso que estas aqui conversando comigo, sem nenhum ferimento, sem nada”.

E assim seguimos, tendo sorte. Tive sorte dos bandidos terem aceitado que Tainá ficasse. Tive sorte de ter mantido a calma e conseguido pensar, não reagir de forma tresloucada. Tive sorte de, dentro do possível, ter encontrado ladrões minimamente profissionais e centrados, não uns nervosos drogados, o dedo leve no gatilho que poderia colocar fim na minha vida por um “ai” qualquer. Sim! Tive sorte. Mas até quando?


segunda-feira, 10 de maio de 2010

Relato da briga de vizinhos

Por sugestão de Renato Ribeiro,

Sérgio estava traindo a mulher que grita, da qual não sei o nome. E parece que Sérgio já teve algo com a irmã da atual amante. As irmãs: a atual, Valéria; a ex-namorada Vanessa. A mulher que grita parece sofrer muito. Seus gritos são escutados na rua onde se forma pequena platéia. A mulher que grita deve ter razão, pois que Sérgio nem parece interessado em falar ou se explicar - diante dos gritos cheiros de dor ele cala. Coisas são jogadas, escuto o barulho de coisas que se quebram. A platéia na rua vibra e ri. Por fim, um batida de porta e Sérgio sai. Não fui à janela e não sei quem Sérgio é, qual seu carro. Só sei que ele saiu e a mulher traida chora alto, e fala coisas que não entendo. Sinto pena e a platéia na rua se calou. O choro é cheio de dor e a ninguém interessa rir da dor dos outros...

P.s.: a mulher traída, da qual não sei o nome, ainda chora muito, e muito alto. E nem precisei sair da minha cadeira para escutar a tudo que acontecia. Tudo me veio como um tapa na cara trazido pelo vento.

Belém, 09 de maio de 2010, às 23 horas e 54 minutos.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

1º Passeio Fotográfico-Gastronômico do Blog Belenâmbulo

Toca o despertador, seco e irritante, no meio da noite. Os olhos que relutam abrir percebem, pela janela, o breu que ainda é dono de tudo. Com o rosto enfiado no travesseiro me pergunto – “Diabos! Por que tocou tão cedo!?” Ainda na cama, vejo acender a luz da sala e minha consciência retorna, lenta e preguiçosa: o passeio! Barulhos! Escuto os grilos e sapos na rua e, no meu banheiro, alguém escova os dentes. Levanto e encontro Wagner Mello já se arrumando - "Vamos?" Volto ao quarto e me visto. De passagem pela cozinha, cato algo qualquer para comer e verifico, pela enésima vez, máquina e pilhas. Beijo quem fica, enrolada em lençóis e fronhas, e partimos. Eram 04h20min da manhã. Já dentro do elevador, o olhar confiante do Wagner Mello me faz crer que tudo correrá como combinado: às 05 h da manhã estaríamos prontos para percorrer a feira e o mercado, provar das delícias e retratar tudo que apaixonasse a vista. Nem mesmo um pneu furado, trocado rapidinho ainda em frente de casa, foi capaz de causar ruindade qualquer: às 05h04min estávamos na frente da Igreja de Santo Alexandre, local marcado como ponto de partida.
Ponto de partida
O convite foi do Wagner Okasaki, do blog Belenâmbulo. A proposta: um passeio fotográfico-gastronômico no sábado, 17 de abril, partindo às cinco da madrugada e que teria como roteiro a Feira do Açaí, Mercado de Peixe, Ver-o-Peso, algumas ruas do Comércio e da Cidade Velha. Quantos mais fôssemos mais seguro seria o passeio. E quanto mais seguros estivéssemos, mais ficaríamos à vontade para aproveitar tudo de belo e encantador do local. Pelas contas do Wagner Okasaki, o organizador, deveriam aparecer umas 10 pessoas. Mas às 05h30min resolvemos iniciar as andanças com os únicos três bravos madrugadores que lá estavam: Wagner Okasaki, Wagner Mello e eu.
Feira do Açaí
A primeira parada foi na Feira do Açaí, lotada de gente e fruto, e passou rápida: pouco tempo depois de chegar, tivemos que voltar ao ponto de saída para encontrar a Shirley Penaforte e o Lafayette Nunes, chegada tardia mas muito desejada, não menos madrugadores do que nós. Agora, em um grupo maior, recomeçamos na Feira aproveitando, com calma e mansidão, a luz e todo o movimento. A Feira do Açaí é algo distante para muitos belenenses e indescritível para os que não moram na cidade. Um mundaréu de frutas que chega pelos rios, um formigueiro de gente que compra e vende e, à margem disso tudo, muita festa - nos bares e bodegas que vivem ao redor da Feira, sol nascendo, ainda dançam insólitos bailarinos ao mesmo tempo em que o trabalho se intensifica. No chão de um bar, um bêbado sujo dorme sono solto, alheio a tudo que corre acordado.
Festa rolando solta, vendedores vendo tudo
Saindo da Feira do Açaí, passamos fotografando a venda de peixe a céu aberto que se monta nas calçadas da Praça do Relógio. Íamos tomando todo o cuidado, que sempre é pouco perto das medonhas narrações de furtos e roubos pelas cercanias. O único que não estava com máquina, Lafayette, vinha sempre por último, olho atento a qualquer movimento suspeito que pudesse significar prejuízo. E sentindo-nos amparados com O Segurança surgido, fotografamos. E eram tantos os tipos de peixe e tantos os tipos de pessoas, que precisamos de atenção para que a visão não se perdesse. Ali há de um tudo: peixes estranhos, pessoas engraçadas, cenas inusitadas, tudo isso esperando quem olhe, e olhamos!
Wagner e Shirley, e nosso segurança, Lafayette
Seguimos até o Mercado de Peixe onde, já mais seguros, passamos a desfrutar das mil histórias que povoam a cachola de nosso segurança. Lafayette parece saber de tudo, de como as coisas eram e como surgiram, quem foram os personagens principais e, por alguns momentos, parece mesmo que ele poderia ter vivido muito do que narrava.
Mercado de Peixe
O Mercado é mais organizado e menos movimentado que a calçada da Praça do Relógio e, por isso mesmo, proporciona a calma necessária para quem quiser caçar boas imagens. Lá nos deparamos com camarões do tamanho de um dedo e peixes que, de tão grandes, mal cabiam na mesa onde eram mostrados.
Rabo de Filhote, medido na mão do Lafayette
Saindo do Mercado fomos, então, ao Ver-o-Peso, famoso mercado onde se vende frutas, legumes e de um tudo - ervas, mandingas, plantas e animais... Já na saída do Mercado optei por me desgarrar do grupo, conhecimento travado com duas figuras que mereceram o desvio e serão retratados em texto futuro - Odemir e Jaci, donos de uma pequena loja de artigos de Umbanda e, ele, o feirante mais antigo do Veropa. Fui laçado novamente ao grupo pelo Wagner Okasaki que, em um átimo a mais de cuidado, voltou para procurar a rés desgarrada.
Café da manhã
Fui encontrar meus companheiros tomando café, tapioquinhas que eram devoradas de forma apaixonada, escorados em bancos de madeira no meio de uma passagem abrigada sob o moderno toldo do Ver-o-Peso. Busquei o mingau de Farinha da Tapioca, lembrança da avó e da mãe, dos tempos da novela Pantanal, e voltei à Barraca da Lúcia, mulher pequena quase do tamanho de suas panelas, preparadeira de delícias que sempre calam minha boca. E nos deixamos ficar ali, meia horinha que fosse, o relaxar depois do estirão pelo meio do povo. Eram 07h30min da manhã. Eu e Wagner Okasaki ainda queríamos tomar uma cuia de açaí, mas optamos por não atrasar mais o passeio, a luz que era perfeita, e decidimos seguir. O organizador, como bom organizador que é, tinha conseguido contato com a gerência do Hotel Ver-o-Peso e, dessa forma, nos foi permitida a subida até seu último andar, terraço com vista majestosa para a cidade - o rio, os mercados, campanários de igrejas e telhados, pessoas, barcos e, lá longe, o mato. Fotos, fotos, fotos e, fôlego retomado, seguimos nosso rumo.
Vista do terraço do Hotel Ver-o-Peso
Quase chegando à Estação das Docas, subimos na Travessa Frutuoso Guimarães até a Praça das Mercês, e mais histórias nos eram contadas pelo Lafayette, que ia explicando placas, nomes e obras. Mais acima dobramos na Rua Santo Antônio, milagrosamente sem muitos vendedores ambulantes, o dia começando que mantém as vendas frias.
Voltando ao ponto de partida
Vimos, com tristeza, um dos mais belos conjuntos de casas em quase total abandono, casas muitas vezes encobertas por horrendas placas de propaganda, todas com gosto duvidoso. E andamos até voltar à Praça do Relógio, agora já lavada e desocupada, sem nenhum sinal do mercado que, antes, ali estava instalado. Pudemos apreciar a beleza do Relógio que antes estava encoberta pelo mar de gente e peixe. E continuando a marcha voltamos ao ponto de partida, já cansados e esturricados.
Praça do Relógio, já sem a feira
Não tínhamos mais condições de continuar pelas ruas da Cidade Velha, pelo que votamos terminar ali mesmo o passeio. Mais algumas fotos, coisa pouca, e nos deixamos ficar sob uma mangueira em frente ao Forte do Castelo. Pedimos águas de coco e ganhamos algumas poucas pupunhas - que logo se tornaram muitas quando passou um vendedor e nos reabasteceu.
Vendedor de pupunhas
Ali mesmo, sentados na Barraca da Loura, acertamos o que faríamos, as postagens e o envio de fotos para comentários do grupo, tudo a ser documentado no Belenâmbulo.
De volta ao começo - Santo Alexandre
E foi assim, com beleza e gostosuras, gente e mistério, que se fez o 1º Passeio Fotográfico-Gastronômico do Blog Belenâmbulo - nome que eu mesmo dei, inventado agorinha, e que espero agradar ao Wagner Okasaki. O resultado, belo!, vimos agora, a troca intensa de e-mail com imagens que seguram. Agora conversaremos e veremos o próximo, não sei se mensal, e esperaremos que mais e mais bravos madrugadores se juntem ao grupo. Belém, uma cidade bela e cheia de mistérios, está aí, portas abertas a quem quiser lhe descobrir.
O grupo

Fotos: minhas, menos a última - do Wagner Okasaki