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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Nova Igreja!

Foi diante do caos daquela cidade, de todas as situações absurdas do dia-dia, que ele decidiu criar a Igreja do Absurdismo de Todos os Dias, religião que deveria se tornar única e oficial no Município (ao menos era sua pretensão). Assim como o Catolicismo, o Protestantismo, o Budismo e o Espiritismo, o Absurdismo teria suas regras e palavras, sacerdotes e santos, além de símbolos e hinos, todos escolhidos e listados por ele, Fundador I, homem santo acima de todos os outros, santidade estabelecida pelo fato de ser, dentre todos, o mais absurdo.

Segue resumo:

1. Escrituras sagradas – o livro santo seria escrito em momento posterior, preferencialmente com conceitos e idéias retiradas da internet (obviamente, sem citação alguma) ou livros importantes (xerocopiados de forma indiscriminada), tudo junto de forma concisa em volume único e bem dividido. Os conceitos e idéias devem corroborar as regras da Igreja do Absurdismo de Todos os Dias, condições impensáveis noutros lugares mais civilizados (tudo permitido naquela terra, graças aos deus do Absurdo).

2. Regras – imitando case empresarial de sucesso, Fundador I, homem santo mais santo que todos, definiu dez regras (tentamos usar 'mandamentos' mas o lobby contrário foi forte) a serem seguidas por todos naquela cidade:

Regra 1 – Preferirás a fila dupla.
Regra 2 – Ouvirás música alta.
Regra 3 – Jogarás lixo na rua.
Regra 4 – Enfearás tua morada.
Regra 5 – Estacionarás na faixa de pedestre e nas vagas de deficiente.
Regra 6 – Dirigirás no meio da rua.
Regra 7 – Mutilarás árvores e arbustos na rua.
Regra 8 – Terás sempre razão.
Regra 9 – Governarás para benefício teu e dos teus - e de tua Igreja.
Regra 10 – Não te importarás.

NOTA: Já está sendo vendido o livro “As Regras do Absurdismo Comentadas – Aprenda tudo em 15 minutos (com CD)” por Fundador I, o mais santo dentre todos.

Leia trechos:

Regra 2 – Ouvirás música alta. Vizinhos não são nada e não significam nada. Não se importe se seu som entra na casa dele e o incomoda (ainda mais se você estiver escutando alguns dos CDs da gravados na Absurdus Records Palavra da Igreja). Que ele busque refúgio ou se mude, mas que aceite calado a barulheira e pare de ser chato. Absurdo é a reclamação pelo barulho!
Regra 4 – Enfearás tua morada. Qual a razão de embelezar a fachada da sua casa? Tornar a cidade mais bonita, como um todo? Absurdo! Opte sempre pelo mais barato, mesmo que isso signifique lajotar a frente da sua casa com aquela cerâmica cafona, azul e vermelha com detalhes roxos. O bem coletivo, a beleza da cidade, tudo isso são criações malignas de pessoas contrárias à nossa gloriosa Igreja!
Regra 6 – Dirigirás no meio da rua. Decorrência das Regras 1 e 5, tenha sempre em sua cabeça sua única e exclusiva propriedade da rua (e da cidade como um todo). Sim, caro fiel, a rua é sua. Estacione onde quiser, mesmo que seja em fila dupla na rua pequena. Dirigir, preferencialmente tendo como referência a linha pontilhada que passa no meio da via. E se lhe disserem que você deve ficar entre as linhas pontilhadas, é mentira! Absurdo! Em regra, faça o que bem quiser.
Regra 8 – Terás sempre razão. Reclamam? Gritam contigo e dizem que estás errado? Você, fiel da Igreja do Absurdismo de Todos os Dias, sempre tem razão. Deixem que gritem, deixem que falem, deixe isso para lá. Se estiver em maior número, preferencialmente resolva na base da porrada. Mas se estiver em menor número, anote placa, nome e endereço (se possível, foto) e traga para a gente – nós resolvemos isso para você.
Regra 10 – Não te importarás. Se você vir alguma coisa errada na cidade, atitude qualquer que esteja de acordo com as regras terrenas dos homens (já quase em completo esquecimento), deixe para lá. Não é seu problema! Absurdo é não poder colocar carrinho de cachorro quente no meio da rua. Absurdo é não poder construir lanchonete em alvenaria no meio da calçada. Absurdo é não poder afixar cartazes onde bem quiser. Deixe o mundo correr por ele mesmo...

3. Sacerdotes – Fundador I, o homem santo mais santo do que todos, conclama homens de bem que serão verdadeiros pilares de fundação desta nova e verdadeira Igreja. Venha fazer parte de nosso corpo de sacerdotes. Para conhecer melhor nossas propostas, faremos a seguinte palestra:

Tema: Seja absurdo! Seja pastor do nosso rebanho!
Local: Casa de Show Carrossel, Almirante Barroso.
Dia: ___/___/______
Público alvo:
DJs de aparelhagens sonoras;
Donos de carros com sons absurdos;
Vizinhos em litígio com vizinhos;
Motoristas em geral;
Políticos (desnecessário listar – os certos aparecerão);
Público em geral.
Investimento: 1000 dinheiros.
Facilitador: Fundador I, o homem santo mais santo do que todos.

4. Santos – A disputa pela santidade estabelecida pela nossa Igreja tem se demonstrado acirrada. Não esperávamos tão grande participação do público em geral, sendo que a banca julgadora tem tido verdadeira dificuldade em estabelecer os nomes definitivos. Inicialmente, faríamos listagem com somente 10 santos. Agora, após nova análise da situação, o número foi aumentado para mil, única forma de conter a demanda. Nos próximos anos, segundo estudos preliminares, poderemos ter cerca de 10 mil santos (somente na Cidade!)!

5. Símbolos – Teremos nosso símbolo máximo, único e indiscutível, marca entre nossos fieis e prova de nossa união diante dos infiéis. A seguir, breve modelo que aceita estilizações:

6. Pecados: em regra, no Absurdismo não haverá pecado. Ser Absurdista é poder fazer tudo! Mas para conceituação didática, será errado, contrário aos preceitos da Igreja, tudo aquilo que for correto na França, por exemplo. Toda aquela baboseira de 'politicamente correto', isso sim será pecado. Fundador I, o homem santo mais santo do que todos, do alto de sua sapiência, enumera alguns poucos futuros pecados.

É PECADO:
Deixar de roubar e furtar.
Deixar de matarás (deixar de cobiçar a mulher do próximo também é pecado).
Não ser corrupto.
Não ser incorreto.
Não agir como dono da rua (e das calçadas).
Ser contra os preceitos dos membros da Igreja Absurdista de Todos os Dias.
Penitência: serão todas pagas em dinheiro, depósito na conta xxxx, agência xxx, banco xxx (titular, Fundador I). Desconto especial a partir de 10 pecados.

7. Participação política: fica acertada, neste ato, a fundação de partido político que proteja os interesses da Igreja. Fica pendente, somente, e escolha da sigla. Será o PAC - Partido do Absurdismo Cotidiano, ou PDA - Partido Despótico Absurdista. Muitos políticos já nos procuraram para fazer parte deste grandiosa e poderosa futura legenda. Venha você também!

Plataforma Política do PAC, ou PDA: carreatas diárias. Colagem de cartazes onde bem entender. Fixação de placas em cruzamentos (objetivo: dificultar a vida de pedestres, atrapalhar a visão de motorístas). Rojões e fogos (muitos). Barulho (ensurdecedor). Carros-som, trios elétricos. Enriquecimento (o nosso). Desvio (do de vocês). Mais casas de campos. Viagens para Europa. Eventualmente, EUA. Eletro-eletrônicos modernos. Jet-ski. Fraude. Mentira deslavada. Cara de pau.

8. Considerações finais

[a] Contribuição: nossos fieis deverão contribuir para a manutenção da Igreja – e aquisição da casa de campo do Fundador I, o homem santo mais santo do que todos – por meio de depósitos em dinheiro na conta xxxx, agência xxx, banco xxx (titular, Fundador I), ou em produtos, mercadorias e objetos – preferencialmente furtados ou de propriedade de terceiros.
[b] Hinos: comissão já foi formada para o estabelecimento de hinos. Serão usadas, como base, melodias de hinos religiosas famosos, de outras Igrejas, sem qualquer forma de pagamento de direito autoral ou menção. Abaixo, exemplos:

Erguei as mãos
(melô do verdadeiro dono)
Erguei as mãos
Me dai o que é teu. 2x
Erguei as mãos
Me daí caladinho,
Oh, Senhor.
Os aneizinhos, me dê
de dois em dois.
Os aneizinhos, me dê

de dois em dois.
O telefone e os aneizinhos
me dê tudo, oh Senhor

Entra na minha casa
(melô do vizinho)
Entra na minha casa,
Entra na minha vida
Toma banho na piscina
Come toda a comida

Não precisa de amizade
Não preciso pedir a ti
Minha vontade é bem maior
A decisão só cabe a mim...

[c] Preconceitos: Na Igreja do Absurdismo de Todos os Dias, todos os preconceitos são aceitos, todos os preconceitos são bem vindos. Abaixo o preconceito contra o preconceito.
[d] Sede: Provisoriamente, nossa sede funcionará na Prefeitura da cidade, sede do governo municipal (gentil oferta do alcaide). Futuramente, por meio de fraudes e métodos escusos, pretendemos obter terreno generoso que comporte nossa sede com capacidade para 200 mil pessoas (segundo estudos inicias).
[e] Casos omissos: serão decididos por Fundador I, de forma absoluta, sem qualquer possibilidade de contraditório, defesa ou recurso.
Ficam revogados todos os livros, regras, mandamentos, concílios, doutrina, sharias, toras, ou seja, tudo que for anterior à Igreja do Absurdismo de Todos os Dias.




p.s.: por ter lido esse texto, você deverá depositar 100 dinheiros na conta xxxx, agência xxx, banco xxx (titular, Fundador I) até dia 05 de agosto de 2010. Se tal data já tiver passado, favor acrescer juros de mora e correção monetária. Caso opte, aceitamos almas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

"Extorsão é nosso trabalho"

@vercarlosaugust O pagamento aos flanelinhas é um ato social de auxilio a esses trabalhadores mas o pagamento não pode ser obrigatório

@jbritoneto Desculpe @vercarlosaugust, mas pagar flanelinhas não tem nada de social. Eles são uma praga da sociedade. Só querem é ficar à tôa.

O “diálogo” se deu entre duas das pessoas que mais respeito no twitter. Uma é o vereador Carlos Augusto, do DEM, que sempre mostra atitude combativa às mazelas que assolam a capital paraense. Tal respeito também foi conseguido pela “cobertura” do primeiro episódio da cassação do prefeito Duciomar – tudo via twitter – e por sua constante interação com twitteiros, não importa se eleitores ou não. O outro é o José Brito Neto, jornalista paraense radicado em São Paulo e que faz notável trabalho de produção no programa Conexão Repórter do SBT. Ele é um dos responsáveis por matérias memoráveis sobre situações que geralmente estão bem distante dos telespectadores – pelo menos fisicamente.

Na ocasião eu retuitei o Brito Neto, a concordância de que pagar flanelinha não tem nada de social. E por aí terminaria minha singela participação neste “diálogo”, se não fosse a mente que não para de trabalhar e de remoer determinadas coisas.

Sim. Depois de tudo terminado considerei ainda ter algo a dizer:

Não existe a profissão de flanelinha e não existe um trabalho de guardador de carros. Isso é uma imposição feita por desocupados, simples forma de extorsão, obviamente feita de forma menos ou mais intensa dependendo de quem extorque. “Extorsão é o ato de obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, por meio de ameaça ou violência, com a intenção de obter vantagem, recompensa ou lucro”. É crime, CRIME, tipificado no artigo 158 do Código Penal brasileiro e que não pode ser visto de outra forma. Não há nenhuma espécie de função social no ato de extorquir, pelo que não há nenhuma espécie de função social no ato de solicitar grana, míseros trocados, pela vigília de um veículo parado na rua. Obviamente há o flanelinha que nada faz diante do não pagamento, assim como existe aquele que risca lataria e fura pneu, para não mencionar situações mais graves. Mas tanto um quanto o outro, o que nada faz e o que vira criminoso, ambos praticam a extorsão quando pedem dinheiro pela guarda do veículo, o dinheiro a ser pago pela simples utilização de espaço público para evitar algo pior. Não há função social alguma no ato de guardar carro. Há, isso sim, uma desfunção social de quem permite que flanelinhas existam e façam o que fazem, de quem não permite que estacionemos um carro na rua sem ter medo de tê-lo danificado, de quem maquia as coisas para que obter uma imagem mais branda do que é, na verdade, um crime. Não há brandura em guardar carro, pois que é extorsão, assim como não há brandura em quase todos os crimes. E muito cuidado com isso: começar com tais alegações de função social de atividades incorretas, justificá-las pela necessidade de quem as pratica, esse será o passo derradeiro para uma desordem urbana irreversível – se é que há volta do ponto em que estamos.

Já fomos “dominados” por vans e transporte alternativo, por camelôs e mototaxistas. Se permitirmos tal benesse aos flanelinhas, logo estaremos assistindo manifestação de ladrões pela Avenida Nazaré, faixas em punho, gritando: “Roubar é nosso trabalho”. Não esqueço da pichação vista por mim e por minha mãe em plena Perimetral – Roubar não é crime, é apenas uma profissão não reconhecida - o mesmo que me foi dito pelo ladrão quando do assaltou sofrido no dia 15 de maio de 2010 – desculpa qualquer coisa, esse é o nosso trabalho.

Guardar carro é extorsão e não pode haver qualquer espécie de maquiagem, disfarce ou brandura. Guardar carro e solicitar dinheiro por isso é crime, não tem qualquer espécie de função social. Função social, para mim, é ter o direito de parar meu carro em qualquer lugar sem ter que pagar por isso, um dono da rua que, diante do apossamento, não encontra nenhuma reação por parte do Estado. Eu quero ter o direito de exercer meu direito já existente. Não quero que arranjem um direito para quem está errado, para um criminoso. Quero poder parar meu carro onde quiser e que sumam os guardadores de carro – e se precisam se alimentar, que procurem outra forma não criminosa para resolver esse problema. Quem tem o dever de manter criminoso não sou eu. É o Estado - dentro de presídio!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Novo CD do Tititica

Acabo de ganhar o CD do Tititica, presente adiantado pelo dia dos namorados. Tititica, para quem não sabe, é uma das mais interessantes figuras de Belém. Circula pelas ruas do centro da cidade sempre em um carrinho de som, um buggy adaptado com a boca de ferro em cima. O cara faz trabalho de publicidade na porta das lojas e brinca com os passantes. Tem um programa de rádio e, agora, gravou esse CD. Pelo que me contaram os guardadores de carro aqui da Presidente Vargas, as músicas estão tocando nas rádios e o cara faz relativo sucesso: "Já apareceu até no Faustão" completam. E para quem acha que as músicas são besteirol puro, mais um louco que canta somente onomatopéias ridículas, segue minha opinião: as letras são engraçadas e bem pensadas, fogem do lugar comum das rimas pobres e sem sentido - são melhores do que muitos pagodes (muitos mesmo). Tititica tem criatividade para fazer uma coisa inovadora, uma crítica social atual e afiada sobre Belém, feita de forma engraçada e leve, uma música simples que te faz rir e pensar sem muito esforço. Se puderem, escutem as faixas 05, 09 e 17, que falam da violência em Belém. A faixa 19 deve ser ouvida também - fala dos ônibus da cidade, uma visão musical e cômica do falido transporte público com o qual fomos amaldiçoados.
Não sei onde vocês podem comprar o CD, caso lhes interesse - na verdade, nem sei se ele está sendo vendido e nem por quanto. Na capa vão os contatos do cara e, se alguém tiver interesse, não custa ligar.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A boate Vegas e o preconceito

No seu tuiter oficial a Boate Vegas, recentemente na ribalta pela notícia de que seria processada por plágio pela Boate Vegas original de São Paulo, deu uma demonstração de descortesia e preconceito. Eis o comentário:
Tem dj q ganha 300,00 por semana, que esta com recalque pq nem foto dele colocam dele no fly, peor de tudo ainda toca para publico GLS...
Qual o maior problema? Não colocarem a foto do DJ no fly? Ganhar "pouco", míseros 300 reais por semana, ou 1200 reais no mês (em duas semanas ganha mais do que o salário mínimo)?
Não! O grande problema, o demérito maior, para os representantes da boate Vegas no tuiter, é tocar para o público GLS.

Todos têm o DIREITO de não gostar ou concordar com algo. E todos têm o DEVER de respeitar os que agem de forma contrária a seu entendimento.

terça-feira, 9 de março de 2010

Resmungo n.º 04 - Anúncios fúnebres

Belém, 03 de março de 2010.

É engraçado como se mede a importância de um morto nessa cidade. O morto, quanto maior a quantidade de anúncios fúnebres nos jornais, mais importante é! Falo do morto que tem toda a parentada mobilizada, a enxurrada de quadrados com os mesmos dizeres colados e copiados, a singela mudança somente nos nomes dos que avisam. Antes, era a família unida que avisava: morreu meu parente querido. Hoje, cada filho, cada empresa, cada amigo, a mesma notícia que se repete como se para mostrar: Viu? Esse era importante! Amanhã, na competição para ver quem tem mais nome, passaremos a ter anúncios separados por filhos; por genros e noras; por netos; empresas, empregados e, por que não, por animais de estimação!? No cálculo geral, qual seria a razão de não valer mais um ponto um singelo: Totó tem a desagradável obrigação de informar a morte de seu dono!? Bobagem achar ter o dever de provar, com o nome do falecido estampado no jornal, o quanto se vale; o nome na folha usado como falsa medida de algo que a ninguém interessa, mera satisfação pessoal dos que ficam, vontade de provar boa e importante ascendência. O curioso, imaginando esse jogo ilusório de orgulho e vaidade, é saber que o morto jaz no caixão, calmo e tranquilo, sem nem saber o que fazem dele... A vida é para os vivos. As vanidades também!

P.s.: o resmundo é homenagem a Ferreira Gullar e seus resmungos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Merece ser lido

Esse texto da jornalista francesa Pascale Robert-Diard foi publicado pela Folha de São Paulo, do original no Le Monde, em 26 de dezembro de 2009. Merece ser lido pelo intensa imagem de humanidade que passa, uma pessoa que deixa de ser mais uma por ter deixado de tratar os outros como mais uns. É grande, mas leiam. Verão que vale cada minuto perdido (a tradução é de Lana Lim).

Quartos com vidas, ao lado de uma penitenciária francesa
Pascale Robert-Diard

Foi uma assistente social de Lannemezan (Altos Pirineus) que teve a ideia. Ela conversou a respeito com a administração penitenciária, que considerou a homenagem merecida. Em 17 de novembro em Béziers (Hérault), penduraram uma fita verde com divisas roxas e uma medalha de prata na lapela da jaqueta de Nadine Cistac, dona de hotel. "Honra penitenciária", ela leu em voz alta girando a medalha entre seus dedos. Depois guardou seu grande sorriso de fumante porque não quer que vejam o quanto está orgulhosa. "Não é tanto por mim", ela diz, "é por elas".Elas são as pensionistas do hotel. Fanny a loira, Denyse a discreta, a bela Anne-Marie. Ou ainda Michèle, Maria, Henriette, Helyette. Sinais distintivos: mulher, companheira, mãe, irmã ou namorada de detentos. Uma vez por mês, às vezes duas, elas fazem a viagem a Lannemezan. Chegam de trem ou de carro na sexta-feira à noite e só precisam atravessar a rua para abrir a porta do Hôtel de la Gare.

Nadine Cistac não quer saber as razões que levaram os familiares de Fanny, Anne-Marie e outras hóspedes à prisão próxima do seu hotel. "Nunca coloquei os pés na prisão. Não quero entrar nesse mundo. Estou aqui para elas, não para eles". Mas da vida delas, sabe quase tudo

Como descrever a alegria estrondosa do "bom dia!" que as recebe nesse sábado de dezembro? Ou ainda o beijo que estala em suas bochechas, o riso, a bebida servida na mesa, a cadeira que ela puxa para se sentar e ouvir as novas, a chave do quarto que ela tira do quadro e lhes dá sem que lhe peçam - sempre a mesma, a 3 para Denyse, a 9 para Michèle, a 6 para Fany, a 4 para Helyette - , a fraternidade do olhar que as protege?

Nadine Cistac nasceu ali, há 54 anos, logo acima do bar. Seu bisavô abriu o hotel em 1918, seu avô assumiu, depois seu pai e sua mãe. Quando chegou sua vez, ela só mudou o primeiro nome na fachada. Quanto ao resto, quase nada mudou. As mesmas escadas de madeira rija levam aos dois andares do hotel, o chão fatigado do corredor range sob os passos e, nos quartos, cortinas de renda barata filtram a luz que bate em tapeçarias desbotadas.

Em 1987, quando o conselho municipal de Lannemezan teve de se pronunciar sobre a construção de um centro penitenciário destinado a receber os presidiários de penas longas, o pai de Nadine Cistac foi o único a votar contra. Ela compartilhava de seus temores. "Eu pensava que toda a ralé apareceria". O Hôtel de la Gare primeiramente se encheu de operários que vieram trabalhar nas obras da prisão. Depois as primeiras mulheres de detentos chegaram. "No início, eu as cumprimentava mas mantinha distância. Depois, me dei conta de que essas mulheres eram como eu. Agora, posso lhe dizer, eu não julgo mais". E acrescenta: "Você não imagina a felicidade que é!"

Ela não quer saber das razões que levaram seus homens a Lannemezan. "Nunca coloquei os pés na prisão. Não quero entrar nesse mundo. Estou aqui para elas, não para eles". Mas da vida dessas mulheres, ela sabe quase tudo. Algumas deixam suas malas durante anos no Hôtel de la Gare. É no olho de Nadine que elas confiam quando, arrumadas, maquiadas e decotadas, deixam seus quartos para ir até a sala de encontros da prisão: "Olha. Não está estranho?" "Você está ótima! Pode ir!"

Se chove ou se os saltos estão altos demais para pegar o caminho que, ao longo da via férrea, leva à prisão, Nadine Cistac chama seu filho caçula, Rony, um rapaz tão alegre quanto sua mãe, ou um dos frequentadores sentados no bar. "Depois que terminar seu café pode levá-las de carro?", ela pergunta. Ela aguarda sobretudo a volta, quando o sorriso se apagou e a vida, de repente, pesa sobre os ombros dessas mulheres. "Vi gerações de bebês concebidos na prisão. Acompanhei gestações, esquentei mamadeiras, vi as crianças crescerem. Como você quer que eu não me apegue? As únicas que não entendo são as que vêm pelos classificados. Quando Patrice Alègre (condenado à prisão perpétua por cinco assassinatos) estava na cadeia, recebi no hotel mulheres, belas mulheres, que vinham por ele. Nesse caso desisti, confesso", ela conta.

Neste sábado, temos Fanny, "uma pequena novidade" que vem há um ano. Ela vive em Marselha, cria sozinha sua filha e coloca todas suas economias na passagem mensal de trem e na noite de 30 euros no Hôtel de la Gare. Temos Anne-Marie, também vinda de Marselha, que reserva seu quarto duas vezes por mês, sempre acompanhada de um ou dois de seus 13 filhos, para reconfortar seu irmão detento. Há Denyse, a militante, que toma regularmente o trem noturno a partir de Paris para dividir algumas horas de visita "com Georges" (Ibrahim Abdallah, condenado à prisão perpétua em 1987 por terrorismo). Ela vem sentada, pois a passagem leito é cara demais. "Mas como estou aposentada, posso descansar durante a semana", ela diz com um sorriso.

"Essas mulheres são direitas, elas progridem, elas me surpreendem", suspira Nadine Cistac. Elas devolvem o elogio. "Aqui há pessoas simples, como eu", conta Fanny. "Saímos da visita desanimadas, mas Nadine sempre diz alguma coisa engraçada". "O ambiente da prisão é nocivo, humilhante. Quando saímos de lá, precisamos de conforto. Nadine nos deixa à vontade, ela combate os 'efeitos colaterais' da visita. Na minha terceira estadia, ela já sabia o que eu tomava no café-da-manhã. É algo simples, mas nunca houve indiferença neste lugar", confirma Denyse.

Nadine Cistac certamente tem suas preferidas. Como Helyette Bess, ex-militante da Ação Direta, que durante dez anos hospedou-se mensalmente no hotel para visitar Jean-Marc Rouillan. Depois, ele foi libertado e encarcerado novamente na prisão de Muret, perto de Toulouse. Mas todos os domingos Helyette Bess telefona para dar notícias. E sobretudo há Maria, a velha mãe de um nacionalista da Córsega. "As esposas, as companheiras, bem, é a vida delas. Mas uma mãe assim, não é a mesma coisa, é a mais bela de todas!", ela exclama. Nadine Cistac foi passar alguns dias na Córsega em sua casa. "Ela fez questão de me dar seu quarto. Ao lado de sua cama ficava sua mala, aquela que ela sempre usa para vir aqui. Quando a vi daquele jeito, toda pronta, aquilo acabou comigo".

Entra um casal pela porta do bar. Alain e Henriette. Eles abraçam Nadine Cistac, vão beijar sua mãe, Giselle, que faz palavras-cruzadas na cozinha, brincam com Rony, pedem notícias do filho mais velho, que está... na polícia. Henriette, hóspede do Hôtel de la Gare durante dez anos. Alain, condenado à prisão perpétua, em liberdade condicional há alguns meses. Ele conta, "Nadine foi a primeira pessoa que quis encontrar quando saí. Eu só conhecia sua voz, pelo telefone, quando ligava para o hotel. Mas minha mulher falava dela o tempo todo. Na prisão, todos sabem quem ela é. Quando chegam os novatos, recomendamos a eles o Hôtel de la Gare porque sabemos que ali as mulheres e as famílias são bem recebidas". "Eu vinha a cada quinze dias", diz Henriette. "Quando eu avisava a Nadine que não podia subir, pois estava mal financeiramente, ela me dizia: Venha, não tem problema!" E quando fiquei doente, ela me ligou no hospital. Só aqui se vê isso".

Quando Alain foi transferido para a prisão de Muret, para preparar sua libertação, Henriette continuava a vir dormir em Lannemezan, "porque em Muret tem hotéis, mas não tem a Nadine", ela diz. Desde que Alain foi libertado, o casal volta regularmente. Ali ele encontra Jean-Marie, ex-carcereiro da prisão que se tornou um dos melhores amigos de Alain.

De um armário atrás do bar, Nadine tira sua caixa de tesouros. Cartas recobertas por escritas desajeitadas, que chegam para ela "do outro lado do muro" para lhe agradecer ou lhe desejar um feliz ano novo. "Meus armários estão cheios de presentes. Vasos da Provença, cinzeiros, potes de picles... Poderia fazer um enxoval com isso!", ela diz aos risos. Ela se lembra de um detento, libertado após trinta anos de prisão. "Ele me ligou um dia para avisar que estava saindo. Ele me disse: 'Faço questão de lhe agradecer enquanto ainda estou atrás dos muros. Depois, o telefonema não terá o mesmo valor". Deixamos o grupo, Alain, Henriette, Anne-Marie, Denyse, rindo e lembrando das noites de pizza e partidas de cartas com Nadine Cistac.

Em outro canto da sala, os frequentadores bebem uma taça de Tariquet, o único vinho branco do hotel. Há o empregado da SNCF [companhia ferroviária nacional] que Nadine Cistac apelidou de "o Azarado", pois há anos eles apostam juntos todos os domingos 2 euros nos cavalos, e nunca ganharam nada. Também há "Phiphi", que hospeda-se há cinco anos no Hôtel de la Gare para ficar mais perto de sua mãe doente. Ela morreu, e ele ficou. Seu quarto é vizinho ao de um carcereiro do presídio, que dorme duas ou três vezes por semana no hotel há 22 anos. Também há Georges, que limpa sua mesa antes de sair. O rádio solta uma canção de Hervé Vilard. "Aumente o volume, adoro essa!", diz Nadine.

E assim vai o pequeno mundo do Hôtel de la Gare. Sente-se o cheiro acre do tabaco frio nos cinzeiros cheios. Do sanduíche de patê. Do perfume forte das mulheres na escada. Do café e do vinho branco. Da madeira encerada e do carpete gasto. Da grande solidão e das manias. Sente-se o cheiro forte de humanidade.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Triste Natal em Belém

É triste perceber que Belém do Grão Pará vai sendo dominada e destruída, cada vez mais, pelo grotesco e pelo burlesco. Em época de amor e fraternidade com o próximo, todos parecem decididos a fazer a grandes festa do “jeitinho brasileiro”, um mundarel de luzes e enfeites natalinos que me são como soco certeiro no fígado, um improviso de luzes e símbolos que vão desde luas (Sim, luas! Um dos maiores símbolos do Natal) até bonecos de neve que parecem saídos do filme Caça Fantasmas.

Separados na maternidade


Se é época de amor e fraternidade não deve ser para mim, muito menos para os demais moradores da cidade, menos ainda com o coitado do bom gosto (que deve estar se retorcendo em algum canto por aí)! Em alguns lugares parece que reuniram o conjunto de sobras dos natais passados e, em ânsia de economia, acabaram por fazer surgir um novo estilo de decoração: a farofa natalina!

Exemplo do estilo farofa natalina na São Jerônimo.

Exemplo do estilo farofa natalina na Gentil.

Exemplo do estilo farofa natalina em fachada de prédio de Belém.

Em breve volta noturna pela cidade, afrontado com os exemplos mostrados acima, consigo até imaginar o dialogo que resulta nesta mixórdia de decoração:

- Fulano, temos luzes natalinas?
- Algumas!
- E dá pra fazer o que com ela?
- Deixe me ver... Acho que dá pra desenhar um porco!
- Perfeito. Então faz um porco com as luzes.

A situação fica pior com a certeza constante de que o maior propagador da Farofa Natalina é o Poder Público! O que dizer destes belos exemplares de enfeites natalinos colocados nos postes da Almirante Barroso pelo Município? O blog Domisteco dará, inclusive, um prêmio à resposta mais criativa à pergunta: que droga é essa!? (o prêmio é um exemplar do livro Eu e meu bom gosto, de Duciomar Costa).

Decifra-me ou te devoro (echarpe do Edson Cordeiro ou pijama da Elke Maravilha? O que é isso que o Município pendurou nos postes da Almirante Barroso)
E os trabalhos de colocação destas tralhas estão sendo feitos agora, pleno 20 de dezembro, Natal já na cara de quem comanda essa bagunça chamada Belém.
Caminhão colocando enfeites, 01:30 do domingo, 20 de dezembro.
Duciomar ficou com medo de não ganhar presente!

Nem mesmo o Banco do Brasil da Presidente Vargas se salvou, sempre com bonitas e elaboradas decorações. Talvez como forma de economizar o que gastam no Círio, resolveram comprar seus enfeites ali mesmo pelo comércio, nas barracas com produtos chineses baratos.
Perderam muito dinheiro com a Crise...

E o que dizer dos "
anjos" reciclados da Estação das Docas? Da última vez que os vi carregavam, em suas angelicais mãos, propaganda de cervejas (uma boa mensagem natalina, Governadora!). Hoje, ao tirar os retratos para este texto, pude ver que o bom senso ganhou mais esta batalha e os anjinho, ante pinguços, agora tocam singelas trombetas.

Com o AA nós conseguimos...

Não poderia deixar de mencionar a decoração da Avenida Nazaré feita pelo Município. Se ganham pontos pela uniformização da decoração, que é a mesma utilizada no Bosque Rodrigues Alves, perdem pontos por terem utilizado enfeites padronizados e de pouca qualidade. É triste ver esses anjos malformados e os dizeres cafonas repetidos por uma das avenidas mais bonitas do País.

ET, viemos em paz...

Para finalizar, gostaria de brindar vocês com três imagens horrendas. A primeira é arvore de Natal feita com restos e que pode ser “admirada” na frente do Mercado de São Brás. A segunda deveria ser a Estrela de Belém, mas parece estar amarrada a outra árvore de restos, e ambas são horrendas! Por fim, o terceiro presente são as imagens de Ananindeua, cidade irmão em cafonice e sempre ferrenha concorrente na disputa pelo título “O Natal NÃO É Aqui”. Os enfeites estão no Viaduto do Coqueiro.


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P.S.: Acho incrível que não se perceba que Belém fica horrivel aos olhos de todos (menos dos cafonas que a decoram!). Isso só prejudica a imagem da cidade e o conceito que dela fazem os moradores e turistas.

Não seria o caso de se criar uma comissão que, se ao menos nada fizesse, cuidasse de não permitir que se fizesse coisa qualquer?

FOTOS: as fotos são de Wagner Mello debruçado para fora do carro, morrendo de medo dos assaltantes que são donos de Belém.