Mostrando postagens com marcador família; memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador família; memória. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Antónia se foi esta noite


Nando, a Antónia se foi esta noite. 
Sabem  o que é a saúde pública no Brasil? Um matadouro. Sangram as pessoas até não poder mais, até que não tenham mais forças para suportar tanto sofrimento e pronto. Resolvida a questão.
É assim que resolvemos as coisas por aqui.

O sistema público de saúde do Brasil é um dos mais bonitos do mundo, ao menos no papel (basta dar uma lida na Constituição). Na vida real, na dor real, pessoas são tratadas como móveis, tudo arrumado de acordo com a vontade e disposição de quem as recebe. É uma inversão de valores absurda: o sistema deveria se adequar às necessidades, não as necessidades se adequarem ao sistema.
Todos que usam o sistema público de saúde têm que se adaptar à agenda apertada dos médicos e seus atrasos, os prazos sempre longos de nunca ter data disponível para o que seja!

Antónia se descobriu com câncer no seio. Como era pobre, procurou atendimento em hospital de ponta de Belém, mas hospital público. Minha mãe ajudou no que podia: “pelo SUS só vai ter data para exame no mês que vem”, então minha mãe ia e pagava o exame; “não tem data para consulta com oncologista”, ou nem tem oncologista, então minha mãe ia e pagava a consulta particular com oncologista. E assim fomos caminhando, tudo tão difícil, tudo tão complicado.
No hospital de ponta nada parecia funcionar. A triagem dos casos era feita, olhem só, por uma assistente social, não por um médico. Assistente social fazendo exame clínico e verificando quem deveria viver ou morrer, ainda mais diante de míseros quatro leitos disponíveis.

Nos revoltamos com tudo que não funcionava e fomos para o ataque: pegamos no pé do Ministério Público, que prontamente entrou com uma Ação Civil Pública pedindo informações sobre as denúncias - e instando o judiciário a fazer o sistema funcionar. Minha mãe, que regularmente escreve no jornal O Liberal, fez duro artigo sobre o drama – e olhem como se faz uma mágica: artigo publicado no domingo, seguido de telefonema do hospital de ponta na segunda-feira informando que Antónia deveria comparecer já na terça-feira, com documentos e o que mais fosse necessário para sua internação, pois iria ser operada na quarta-feira seguinte. Do nada tudo ficou célere, tudo virou rapidez e eficiência. 

Antónia foi operada na quarta-feira, mas morreu. Já estava tão fraca, tão cansada de tudo, das humilhações diárias nas filas do hospital, do menosprezo de pessoa que viam seu seio inchado, enorme, e diziam que não era nada – as mesmas pessoas que diziam haver outros em situação pior, que ela deixasse de frescura - que simplesmente não aguentou a operação.
A palavra “câncer” é oriunda do latim câncer, “caranguejo”. Uma referência à proliferação sorrateira e covarde de células cancerosas no organismo (metástase), tal qual o animal que se movimento nas profundezas da lama.
Sobre Antónia, que foi tratada como lixo, que morreu ontem no final da noite, vou ser breve porque Antónia foi muito e não cabe neste texto.
Chegou em casa grávida, tudo escondido, pois por conta da gravidez foi chutada da casa onde trabalhava anteriormente. Quando minha mãe e avó descobriram, ela chorou, implorou por piedade, e que precisava de um teto para o filho que ia nascer.
E aí surgem as ironias da vida: nós demos um simples teto, enquanto Antónia nos deu um novo sentido de família. Fizemos o enxoval dela, e foi minha mãe quem, num fusca verde e velho que tínhamos, acompanhou Antónia no dia que nasceu Luciana, na Santa Casa de Misericórdia. Minha mãe e avó se revezando na beira da cama ajudando no que fosse, enquanto eu e meu irmão esperávamos em casa, ansiosos por receber aquela que considero uma irmã. Luciana cresceu conosco e fomos muito felizes em brincadeiras mil – e hoje Luciana é advogada, formada e concursada, indo contra pessoas que ousaram dizer “desiste disso, Luciana. Filha de empregada não vira doutora”. 
Antónia não gostou de ouvir isso: trabalhou dois turnos, as vezes três turnos, tudo para pagar livros e cursos para a filha. Muitas vezes dormia menos de três horas por noite, tudo para oferecer o melhor para a filha – e eram só as duas.  Ela nunca saiu de perto da gente, mesmo quando minha mãe deu a ela uma casa – e meus filhos têm verdadeira adoração por ela, assim como ela tinha por eles.
Antónia não cabe aqui, então paro aqui.

E que tenham força para lutar, e que consigam esperar, aqueles que não têm voz e que não são enxergados pelo Ministério Público, e que ficam à mercê do julgamento de uma assistente social para saber se terão chances ou não de sobreviver.

O que se fez do Brasil?
O que se fez do sistema de saúde pública do Brasil que deixa que se matem brasileiros?
Cada um deles, cada um desses invisíveis, é toda a importância do mundo para alguém.
Antónia morreu na UTI do hospital de ponta somente por causa do artigo de domingo. Se não fosse por isso, ainda estaria esperando, acompanhando o crescimento a olhos vistos do tumor que já nem a permitia respirar direito.
Antónia era amada e era querida, era o nosso chão.
Perdemos nosso chão.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígios

Acho que as lembranças que teremos, todos, serão mais ou menos iguais: a voz delicada que invadia todos os cantos com as canções que somente ela sabia cantar, o tec tec da máquina de costura que fazia adormecer nos finais de tarde e os cheiros, os muitos cheiros de chá de canela, café com leite, doce de cupuaçu, bolo branco e tantos outros. Até pouco tempo ela perambulava pelo quintal da Mundurucus plantando e cuidando, a mão que se fazia preta da terra e logo estava banhada e cheirando a colônia ou talco, ela sempre tão cheirosa e vaidosa.
Ela era valente, nenhum medo que fosse de meu conhecimento. Do que contam, sei que enfrentou bandido e visagens, que afugentou bicho e homem criado – e ela deixou sua valentia bem clara quando decidiu que enfrentaria o hospital pelo tempo que pudesse (e foram longos cinco meses entre quartos e UTI, sempre surpreendendo médicos e enfermeiras com melhoras miraculosas e reações inesperadas).
Certa vez, ainda pequenos, estávamos no quintal eu e meu irmão, mais meus primos Álvaro e Artur, tentando carregar uns pesos que um primo mais velho havia feito com latas de leite e cimento, mas todo o esforço era em vão. Quatro meninos lutando com todas as forças para carregar um peso que devia ter uns bons 20 quilos. Para nossa surpresa, vovó apareceu do nada gritando que iríamos ficar “rendidos” carregando aquele mundarel de cimento, e, com uma mão, com uma única mão, agarrou o haltere e o jogou longe fazendo-o sumir por entre as plantas do quintal. Deveríamos ter corrido da bronca que seguiria, mas ficamos tão surpresos e assustados com aquela força hercúlea, a frágil avó que não somente era mais forte do que os quatro netos – mais era MUITO mais forte – que acabamos cedendo ao ralho enquanto nos olhávamos boquiabertos.
Também lembro que, ainda criança, achava extremamente intrigante ela fazer roupas tendo como molde uns recortes que vinham em revistas de costura – era um emaranhado de linhas contínuas, linhas pontilhadas, linhas tracejadas, algo que me lembrava dum mapa de guerra, as informações secretas do avanço de uma hipotética tropa inimiga, mas que para ela eram vestidos e camisas que logo estariam cobrindo algum de nos.
Virou lenda a vez em que mamãe, tendo que viajar, pediu que ela me ajudasse em matemática. Após um dia de longo estudo, fomos dormir cedo depois de jantar e assistir tevê. Dormíamos em redes com mosqueteiro, um ao lado do outro, e eu, com poucos nove ou dez anos, tive medo de ir ao banheiro sozinho, a casa da Mundurucus que era um mundo de corredores, quartos e sombras. Resolvi acordar vovó para que me acompanhasse e juro, por tudo que é sagrado e a quem estiver lendo, que da hora em que ela acordou e durante todo meu xixi e até voltar para a rede, fui sabatinado de forma impiedosa com toda a tabuada do dia anterior. Eram 3 horas da manhã e tirei uma nota maravilhosa na prova.
Mas ela também era toda doçura. Uma vez em Salinas, depois de três dias que lá estávamos, ela me disse que queria voltar para casa, que suas plantas precisavam de cuidados e ela precisava colocar comida para os passarinhos. Voltamos e ainda fiquei com ela pelo resto do dia, deitado na sua cama entre breves cochilos, até que ela me acordou para avisar que já tinha chegado o pão quente – e foi fazer meu café com leite do final de tarde de sempre.
Acho que a grandiosidade está em tudo que se faz durante a vida.
Acho que grandioso é aquele que pensa em todos os seus atos sempre buscando fazer o melhor, não somente para si, mas para todos. E Vovó foi mãe de muitos, a casa da Mundurucus que estava sempre cheia de gente, de pessoas que, ainda hoje, encontro e me contam como aquele local serviu de porto confortável e seguro sempre que precisaram; vovó se dedicou a todos e em poucas vezes pensou nela, eram sempre os outros, os dela.
Quando meu avô Álvaro morreu em 1964, ainda nem completados 50 anos, minha avó se viu mais responsável ainda pela criação de seus oito filhos. Entre lutas e dificuldades, criou a todos e fez com que todos estudassem e fossem pessoas boas – e hoje não consigo ver um tio meu, ou um primo meu, cometendo uma iniquidade ou ato desumano que seja, sempre o ensinamento de que devemos fazer o bem e pensar em nossos atos e em nossas responsabilidades. Não é gabolice e nem estou contando vantagem – é simplesmente o que ela era e o que nos deixou.
Além disso, além de tudo que somos, ficou da vovó o cuidado que tio Amilcar tinha com os irmãos, ficou o cabelo do tio Amado, o sorriso da tia Bela e a sabedoria da tia Alvarina; a inteligência do tio Dinho, o carinho da tia Alba e aventurisse e olhar da tia Ana. Em minha mãe percebo vovó quando ela canta as mesmas músicas que sua mãe cantava, a mesma voz suave e afinada que ainda me canta canções bonitas. Em cada rosto vejo um pouquinho dela, assim como em cada atitude consigo ver coisas que ela foi mostrando nesses 96 anos de vida plena.
E isso tudo significa que ela não morreu, que ela ficou conosco e estará entre os seus pelo tempo que estivermos aqui – nas marcas físicas que temos, nos gostos que compartilhamos e nas características que demonstramos, nas atitudes que tomamos e nas certezas que permaneceram – e acho que, no final, é exatamente isso que significa família – não algo que surge do nada ou se cria, mas sim o que ela nos ensinou a ser pelo amor e pelo cuidado de sempre.
Como disse Drummond, morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígios. E se é assim, fico tranquilo por saber que ela não se foi, que ela permanece e assim será em cada sorriso e olhar nos almoços de sábado, ainda na mesma Mundurucus de sempre, a casa da vovó.