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sábado, 5 de outubro de 2013

Parada a cidade ficou



29/09/2013

Se vocês quiserem saber como se parece o fim do mundo zumbi, seres sem cérebro, vontade ou discernimento, somente ávidos por carne humana, talvez devessem vir agora até as proximidades da Praça da República. 


Mas, até sugiro, não venham...


As ruas 1º de março, Carlos Gomes e Avenida Presidente Vargas cheiram a urina. O chão está molhado, e não de chuva.


Nas reentrâncias do Basa se instalou, novamente, um banheiro e sexódromo público dos que aceitam se "pegar" no meio da sujeira.

Na Carlos Gomes, chegando à esquina da Presidente Vargas, me surpreendi com dois homens urinando bem ao lado de um ponto de taxi. Enquanto urinam, brincam e falam com a maior naturalidade, como se aquilo fosse a normalidade, enquanto passamos eu e outro vizinho com seu o filho.

Mal sabia que era besteira me surpreender com aqui: havia pessoa urinando na própria Presidente Vargas, quem sabe a principal via da cidade, centro desta capital.

Sim... Mal escondidos pela estrutura armada em fente ao Basa, para servir de palco para o Círio, convenientemente tapada com placas de madeira, estava algo entre banheiro e dark room. Vi muitas mulheres urinando, mas também homens, que, ou urinam, ou não sei que fazem lá, mas estão todos juntos lá.

Mais para frente, na banca de revistas que fica diante da centenária Pharmácia da República, uma menina, que não deve ter 16 anos, completamente embriagada, vomita amparada por amigos que se divertem com a cena. A cara dela quase encosta no chão molhado. Um dos amigos (amigos?) filma tudo no celular.

O cheiro de bebida adocicada, acho que vinho, se mistura com urina e faz surgir um odor enjoativo e pegajoso como xarope.

Para entrar em casa tive que pedir licença, pois havia muitos sentados diante do portão. Havia uma menina deitada no chão, não se importando que o chão estivesse molhado, e nem quero imaginar do que estava molhado. Me olharam feio porque pedi licença. Imagina, entrar em casa agora, aqui, fazendo-os levantar!? Abuso.

E por falar em celular, António, porteiro do prédio desde quase sua construção, lamenta o furto do seu celular e carteira com todos os documentos e parte do salário. É que António chegou na hora em que passava o trio elétrico, então, para chegar na hora, e já estava atrasado, resolveu passar no meio do povo, no meio da chuva. 

António não é novo, o conheço desde que fui criança, e realmente sei que ele vê maldade em poucas coisas. Não viu maldade na multidão. Foi furtado e ficou a ver navio.

Agora, da janela, vejo a Praça lotada, tomada ainda, e tristemente constato várias pessos urinando nas laterais do antigo Sam e dos teatros Da Paz e Waldemar Henrique. Chega um guarda e ilumina as sombras com potente lanterna, mas os mijões nem se movem, quem sabe entorpecidos por fadas verdes?

Alguns focos de briga se formam aqui e ali. Alguns muitos focos de briga e uma surpresa: enquanto saímos de perto em tais situações, vejo a porrada começar e pessoas correndo, se aproximando para assistir, mundo novo de MMAs em que é normal ver duas pessoas se sangrando quase sem regras.

Logo chega a PM ou a GMBel e a briga acaba, e, na confusão de muita gente ao redor, como saber quem eram os galos na rinha? Todos partem caminhando de braços dados com a impunidade.

Muita PM. 

Muitos carros de polícia, tudo identificado, daqui, pelas sirenes iluminando ao redor. Todos parados, somente assistindo, intervindo somente quando a coisa piora. Eles assistem, somente assistem...

Eu também assisto, somente assisto, e também decido que este é o último post que faço relacionado às paradas GLTBS (?) que terminam aqui pela Praça da República, pois percebo que, no final, o chato sou eu, somente eu, e nada muda, vez por vez, tudo como dantes no quartel de Abrantes.

O chato sou eu, o incomodado sou eu, e os incomodados que se mudem, ainda vão me dizer, mesmo que eu não queira me mudar, mesmo que ame morar perto do trabalho e ame meu bairro, onde nasci e cresci, inclusive.

É... Pensando bem, melhor ficar calado.

Só espero que chova, mas que chova bastante, para ver se some o cheiro ruim que a tudo domina.

Só isso.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Breve ensaio sobre a urina

Um adulto normal pode produzir entre 1000 e 2000 ml de urina por dia, sendo que o volume mínimo necessário para remover do organismo todos os produtos residuais é de cerca de 0,5 L em um homem de 70 kg – tudo que vier acima disso é excesso de água.
Vocês já pararam para refletir sobre urina?
Sinceramente nunca parei para qualquer reflexão neste sentido. Limito-me ao normal de a gente “sentir” a urina quando fica apertado, aquele breve desespero que nos aflige e nos impulsiona a procurar um banheiro, um canto qualquer que nos permita o alívio. Quem aqui já não soltou, ao menos uma vez na vida, suspiro aliviado ao se deparar com a placa característica dos seres humanos, o masculino e feminino, feitos de palitos.
Mijar é ato quase involuntário, nada a passar pela mente, nem decisão a ser tomada, somente o ato que impulsiona ao fazer o que é necessário!
Vejam minha rotina: tento manter sempre um grande copo de água em minha mesa de trabalho. Em gesto também automático, esvazio e encho vários copos e, nesta brincadeira, bebo pelo menos uns três ou quatro por dia. Sinto que meu organismo agradece por isso e me sinto bem com minhas regularidades e bons funcionamentos. A consequência é que vou bastante ao banheiro, nada que me incomode - e juro a vocês, agora refletindo bem, que faço este trajeto de forma totalmente involuntária, sem nem perceber que o faço.
É simples – no meio de um prazo judicial, por mais curto que seja, sinto a fisgada que me pega firme e não me dá opção. Geralmente resisto à este primeiro aviso, mantenho a calma, até que ir ao banheiro se torna uma ordem, nenhuma escolha possível, pura necessidade. Depois de cinco anos trabalhando no mesmo local, os pés já se guiam sozinhos pelos caminhos de sempre, dentre eles o banheiro masculino. Guiados mais pela bexiga do que pelos sentidos, chego e faço tudo de forma automática e imediata.
Não penso!
Mijar é instinto, pura programação biológica; é o sentir, mesmo inconsciente,  que te faz acordar no meio da noite para ir procurar o vaso, por mais pesado que seja o sono. E jogue a primeira pedra quem nunca levantou no meio do escuro do quarto, o caminho que surge na mente de forma natural e te leva até onde precisa ir... Fazer xixi quase dormindo, ainda envolvido pelo sono ou pelos sonhos e voltar para a cama...

Ontem foi assim: a primeira fisgada, logo depois seguida da fisgada forte, a urina que segurava para tentar adiantar alguma obrigação. Mas então chega o ponto em que não há mais opção, somente necessidade – e assim fui ao banheiro já segurando pequenas e discretas contorções de dor que insistiam em se manifestar. O banheiro estava ocupado. E como só restava esperar, voltei à minha mesa já sentindo a fisgada se tornando cada vez mais uma dor sentida no fundo na alma.
O ar condicionado em final de tarde chuvosa de Belém pode beirar um frio devastador com a bexiga cheia – o líquido que esfria mais rápido do que o corpo e regela as entranhas - e o banheiro ainda estava ocupado. Então comecei a sentir frio, além da dor que já me pegava forte no abdômen, mais a impaciência da espera...
Nova tentativa, banheiro ainda ocupado e a dor me fazendo contorcer a já quase não poder esconder. Doía. Pensei em buscar o banheiro de outro setor, descer as escadas ou esperar o elevador... Tanta aporrinhação, pensei, ainda mais no limite do auto controle... Impaciência! E nem adiantava voltar à mesa, pois o que sentia me impedia de qualquer concentração, a total impossibilidade de fazer algo resumida em pequenos espasmos dolorosos, último aviso da urina que, agora, já era ordem dura, coisa urgente.
Na terceira tentativa, já no limite das forças, dei com a porta aberta e mijei – ato meio estabanado e corrido, nada parecido com a usual calma para não fazer besteira e nem sujeiras – e nos, homens, somos craques em fazer besteiras e sujeiras com nossas coisas mal ajambradas e sem mira certa...
Fiz o que precisava fazer e senti o arrepio de alívio me invadir o corpo, uma onda que veio subindo pelos braços e pelas costas, os pelos que se arrepiavam tal qual onda de torcida em estádio de futebol, a liberação de todo o corpo que estava teso, rijo!

Uma vez li que urinar pode ser melhor do que sexo em certos casos – e somente quem esteve apertado pode ter essa certeza. E quem nunca esteve apertado ao ponto de entregar tudo nas mãos do destino, ao ponto de pensar um sonoro “paciência!” de entrega às consequências de fazer nas calças, a nítida impressão de que a barriga poderia explodir, tudo comprimido de forma injusta pela bexiga cheia?

Ontem, quando pude me aliviar... Ontem, quando pude agir de forma automática e me livrar da dor, das fisgadas e das convulsões que me balançavam o corpo dolorido... Ontem, depois de tudo isto, tentei imaginar o que deve estar sentindo o Lucas...
Se eu, um adulto de quase 35 anos, no auge de minhas capacidades e funções, com todos os meus sentidos a me proteger do que for, quase sucumbo diante da urgência e da premência em me aliviar...
O Lucas ainda está na barriga, no sexto mês de sua gestação, e foi quase aí que seus pais, Thaynara e Estevão, descobriram que seus rins não estão funcionando.
O Lucas está incapacitado de urinar dentro da barriga!
Não é um mero aperto bobo igual ao meu, uma espera de meros 30 minutos. É um aperto extremo que já dura semanas - e quem sabe desde quando vem durando? – e quem sabe o quanto esse menino, um forte menino, sem dúvida alguma, vem agüentado?
Juro que senti vergonha... O homenzarrão aqui sentindo dores e reclamando da vida enquanto ele, pequenino, completamente indefeso no ventre, agüenta tudo firmemente! Para quem ainda não sabe, a urina do Lucas vem sendo retirada por meio de punção, uma sonda que perfura a barriga da mãe, que segue perfurando a barriga do moleque e que, por fim, perfura a minúscula bexiga e faz o que é necessário!
A coisa é tão grave que os rins já estão feridos, assim como está ferida a bexiga, tudo isso pelo mal funcionamento do sistema urinário que, por alguma razão, nunca saberemos, se recusa a fazer o que deve - mas ele está lá, firme e forte...
Acham que ele se entrega? Claro que não...
O caso é que o Lucas ainda não sabe que, nesta vida, existe a possibilidade de se entregar, a possibilidade de dizer desisto. Para ele, dentro da barriga da mãe, só existe uma possibilidade: SOBREVIVER! Lutar e sobreviver. Tentar nascer.
O Lucas é forte, segue aguentando tudo e, mesmo na maior das adversidades possíveis, sobrevive, luta e cresce!
E do que reclamamos mesmo?
O Lucas vai nascer, eu tenho certeza!
Um moleque forte que nem ele, um menino que mesmo sendo o mais indefeso dos seres vai aguentando firmemente tudo isso? Vai nascer sim!

Por favor, eu peço: você que chegou até aqui, que teve paciência de me aturar até aqui... AJUDE! Ajude como puder, nem que seja rezando, torcendo, telefonando e mostrando que somos todos irmãos e devemos nos ajudar sempre.
Isso é solidariedade, mas, antes de tudo, também é ser humano!
E fazemos a nossa parte aqui fora, dando ao menos uma chance ao Lucas de nascer e lutar aqui neste mundo.
Como eu sempre digo: ninguém pode dar certeza de que ele vai sair dessa, de que ele vai sobreviver - mas por tudo que ele já é e nos mostra, merece ao menos tentar.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Amargor na boca e um soco no estômago

Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu...
Pedaço de mim
Chico Buarque

Instintivamente liguei para minha filha. A voz dela dizendo oi me deu o conforto que precisava naquele momento. Ela não conheceu Catarina e resolvi não contar que ela havia morrido, nem deixar que percebesse minha voz de choro. Só queria ouvir a voz da minha menina e perguntar o que ela estava fazendo, se estava bem e se estava feliz. Ela disse que estava andando de bicicleta com as amigas, exatamente o que uma menina como a Cacá deveria estar fazendo nessa tarde chuvosa de 31 de dezembro de 2010.
...
Morrer é algo natural. Nada é mais normal e certo do que a morte, que pela sua idéia de vida vivida é algo que 'combina' mais com adultos ou idosos, a pessoa que viveu e fez suas coisas, teve seus filhos e viajou, teve todas as suas chances e, num belo dia, partiu. Definitivamente, morte não combina com criança, com nenhuma criança...
...
Eu não conheço a Cláudia e nem conheci a Catarina. Falo de conhecer assim, na vida real. Mas eu as conheci em um mundo novo e tão real quanto, o mundo da internet, justamente onde soube da doença e de toda a luta enfrentada.
Sendo bem sincero, eu não me doei o quanto desejei, nem ajudei o quanto quis... Mas eu torci mais do que pude e achava que tudo ficaria bem.
No final não ficou tudo bem. Ficar tudo bem significaria a Catarina não morrer e ela se foi. Mas muita coisa restou. Por exemplo, aprendemos a confiar uns nos outros; também aprendemos a nos mobilizar para ajudar (e percebemos que é possível); aprendemos a respeitar diferenças e conflitos por um bem maior; aprendemos o que realmente significa amor e dedicação; aprendemos sobre dor e perda; aprendemos sobre frustração.
E se eu fiz menos do que gostaria, muitos fizeram mais do que poderiam e demonstraram seu valor (e não vou citá-los pois eles sabem quem são, o que fizeram e não fizeram por glórias pessoais).
Para Cláudia, mesmo que eu fique sem palavras (como disse a Zinda Nunes), tenho algumas coisas a dizer: não sei se teria a mesma força que você, nem a mesma garra para lutar tal luta. Espero que sua força ajude nessa situação completamente inimaginável para mim, a perda de um filho que é, certamente, o pior dos pesadelos.
...
Comecei a escrever isso sentindo que tinha levado um soco no estômago, sentindo um amargor que teimava em reinar na boca e com uma vontade inesperada de chorar e vomitar dor.
Mas as palavras foram saindo e, com elas, também saiu muito do ruim que sentia. Começaram a vir algumas coisas boas...
Agora, já no finalzinho desta brevidade, começo a imaginar as paragens bonitas por onde a Catarina deve estar passeando, em uma bicicleta novinha, novinha, que ela acabou de ganhar de um anjo igualzinho a ela, anjo que vai proteger, cuidar e ensinar, e eles vão brincar muito neste lugar todo novo ao qual ela agora pertence.

Anjos. Simplesmente, anjos.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Quatro motivos para odiar - Quatro motivos para amar

1 - Ela me bate a noite toda com chutes e ombradas, sempre a me expulsar da cama. Houve uma noite em que, sonâmbula, ela se virou para mim e disse que estávamos sem espaço, que eu deveria sair da cama e procurar outro canto para dormir. Obediente, me vi enchendo o colchão inflável às duas da manhã, meio que dormindo mas obediente. Em Campos do Jordão tínhamos uma cama moderna, com aquecimento separado em cada um dos lados. Friorenta, ela colocou a temperatura do seu lado no máximo. Calorento, nem liguei o meu. O resultado foi a sumária expulsão, novamente, no meio da noite, o lado dela que fervia e o meu que permanecia com o frio acolhedor da madrugada. E de nada adianta revolta ou bronca, ela que dorme e nem escuta nada. Aprendi a retomar meu espaço com cutucões e empurrões, a única coisa que, aparentemente, resolve.
2 - Ela perde cabelo como quem perde guarda-chuvas. A casa, algumas vezes, parece ser cabeluda tal a quantidade de fios que se espalham pelo chão. Outro dia, ao acordar em um sábado quente de maio, vi um tufo de cabelo rolar pelo chão do quarto, tal qual o tufo de feno que rola pela cidade abandonada no filme de faroeste - cheguei mesmo a cantarolar a musiquinha típica das ruas desertas, somente os dois cowboys prestes a duelar. Mas o pior são os cabelos no ralo, a entupir tudo. Certo dia, diante da água que não partia, descobri um tufo de cabelo do tamanho do meu punho e me questionei, de forma bem séria e angustiada - "como é que está mulher não fica careca?"
3 - Ela tem hora rígida para entrar no trabalho, eu não tenho hora certa para chegar no meu, a maravilhosa liberdade que me permite chegar entre oito e dez da manhã. E todo o dia eu sou obrigado a acordar às 06h40min por conta do horário dela, algo quase que escravagista, o cartão de ponto que se torna angústia degradante a cada engarrafamento enfrentado no trajeto. E por conta disso venho chegando cedo e saindo mais cedo também, o que é bom! Ruim é a sensação de sono que teima em me abraçar o dia inteiro, a 'madrugação' imposta pelas obrigações dela.
4 - Ela é completamente injusta na divisão de tarefas caseiras. A coisa se dá da seguinte forma: eu cozinho, varro, lavo o banheiro e os panos da casa, lavo a louça e arrumo tudo. Pronto. Essa é toda a divisão de tarefas, ela que se torna Rainha do lar quando estendida na cama, igualzinha a um gato jogado no sol, o livro que é lido ou a breve navegação pela internet, tuiter qualquer que lhe faça rir.

E diante disso tudo, breve narrativa de como é o dia-a-dia com ela, certamente aparecerão comentários impondo crucificação ou enforcamento, a defesa do pobre homem que se deixa levar por uma tirana. E antes que eles surjam, farei justiça com a verdade dos fatos.

1 - Adoro que ela me bata de noite, que tente me expulsar da cama. Significa que ela está ali, do meu lado. E se busca o meu cantinho, penso sempre, nada mais é do que vontade involuntária, presente mesmo que em sono, de se aninhar do meu lado.
2 - Adoro sua notável perda de cabelos, os fios e tufos que encontro em todos os lugares. Significa que ela esteve ali, que passou por aquele canto, que está na minha vida. Nada me faz sorrir com tanta facilidade do que encontrar um fio de cabelo dela no lugar mais inesperado da casa, principalmente quando estou só.
3 - Adoro acordar cedo com ela, não importa a hora que seja. Significa que ela dormiu comigo, que pude conversar com ela até pegar no sono e que ganhei um beijo quando os olhos se fechavam. Também acho que acordar cedo significa cuidar, compartilhar, o 'entregá-la' na porta do trabalho que me alivia, a cidade que está cada vez mais violenta e a sensação de medo que sinto a cada vez que não posso apanhá-la, a insegurança que sinto quando sei que ela pegará ônibus ou taxi.
4 - Adoro nossa divisão de tarefas, que a bem da verdade não tem nada de divisão. Ela vive em constante correria, o trabalho que a consome tanto, a universidade que resseca a calma a quase transformá-lo em pó, os prazos de trabalhos e matérias que são sempre menores do que gostaríamos. Prefiro que ela possa, neste breve momento comigo, relaxar e descansar, que possa esquecer de toda a tranqueira que lhe aflige e que desejo, sempre, que fique do lado de fora de casa.

A casa, sem ela, não parece minha casa. Sem as porradas noturnas, o colchão se torna simples espaço vazio. Sem os cabelos que entopem o ralo, percebo que ela não esteve lá. Sem o acordar cedo, a obrigação dela, descubro que só a verei no final do dia, a saudade que só aumenta e perturba. Sem a folclórica divisão de tarefas, não posso mimá-la com coisas gostosas, o cheiro que faço enorme para torturar a esfomeada que espera, na cama, a hora da 'bóia'.

Diante disso tudo, acho que nada mais tenho a dizer - e acho que não preciso dizer mais nada - somente um Feliz Dia dos Namorados, namorada.

terça-feira, 18 de maio de 2010

O assalto e a menina

E-mail que Maria me enviou, minha filha de 09 anos, na segunda-feira, 17 de maio de 2010, dois dias depois do assalto relatado abaixo e assistido por ela, graças a Deus, de longe.
Papai. Estou traumatizada com o assalto de anteontem, morrendo de medo disso. Agora eu faço tudo em lugares "desestranhos". Ontem, quando vim pra casa com o tio rodrigo da mamãe, pedi pra entrar na garagem por causa do medinho de assalto relampago, sequestro. Desculpe por falar isso, sei que ainda está com medo de sair a noite ou algo assim. Mas quero desabafar meu medo de ontem. Eu chorei até ficar rouca de chorar. Quando você chegou, eu corri o mais rápido que eu podia. Te amo.
Beijos.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Um texto teimoso

Hoje eu publicaria um texto.
Hoje, quem sabe, eu ainda publicarei um texto.
De concreto posso dizer que um texto está pronto, escrito de um fôlego só, mas ele se recusa a ser aberto neste meu computador.
Assim, mais tarde, de noite, tentarei publicar esse um texto teimoso, justamente um texto que fala sobre teimosia.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Bom brasileiro

Não gosto desse tipo de frase, mas não resisto: como bom brasileiro que sou, acabo de entregar minha declaração de Imposto de Renda à Receita, nos 40 minutos do segundo tempo.
Ok, ok. Generalizo e sou injusto com a maioria que, em atitude responsável, entregou bem antes. Mas, como disse, não resisti.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Desistir de Belém?

Era domingo, cerca de uma da tarde. Dirigindo pela Rua 25 de setembro me deparo com a cena que choca. Em uma moto, homem e mulher, ambos de capacete, transportam uma criança de colo de uns oito meses. Andavam bem lentamente, prudência desnecessária diante da indescritível imprudência, a simples imagem da criança caindo no asfalto capaz de me arrepiar todos os pelos do corpo.
A piorar a situação, a placa da moto estava coberta por um cartão telefônico, prática usual e tacitamente permitida pela completa falta de fiscalização que impera nas ruas de Belém. Mas eis que meu olho atento de motorista vê, bem à frente, uma guarnição da Rotam, unidade da Polícia Militar paraense, prostrada em uma esquina da dita rua. Pretensamente estavam fiscalizando, pelo que pensei: "pelo bem dessa criança, e de todos, tenho certeza de que a PM vai parar essa moto".
Ainda bem que tive certeza e não fé, pois acho que perder a fé seria bem pior do que perder a certeza no cumprimento da lei. Sim, leitores - a moto com placa coberta e com três passageiros, um deles criança de menos de um ano, passou impávida pelos policiais da Rotam que, por pouco, não acenaram cordialmente.
Um dia antes, saindo da Fox da Travessa Doutor Moraes, noitinha de sábado chegando, quase fui atingido por uma moto que surgiu do nada pela contramão. Essa rua, para quem não a conhece, é uma das mais atravancadas de Belém por conta de uma série de lojas e restaurantes, tudo "organizado" em caóticas filas duplas e estacionamento em 45.º. Nunca, em muitos anos de freqüência à tal rua, pude ver agente público qualquer que lá estivesse para organizar. Nem para nada. Muito menos para organizar.
Ainda no domingo, um pouco antes do primeiro incidente, na mesma Travessa Doutor Moraes da noite anterior, fui levar roupas para lavar. Estacionei na área reservada para clientes da lavanderia e desci. Bem ao lado, onde há um lava-a-jato, um carro popular equipado com aparelhagem de som possivelmente mais cara que o carro, vomitava malditos decibéis de um tecno-brega com letra ridícula. O carro era, possivelmente, de um cliente. Os ouvintes, pela cara e atitude, possivelmente eram os lavadores. O dono a tudo assistia de forma passiva, sentado em uma cadeira de plástico branca próxima ao meio fio. E se alguém não gostou, que fosse embora. E se os moradores não gostaram, que se conformassem. E se ninguém conseguia conversar, que ficassem calados e procurassem um canto mais silencioso.
Diante disso tudo, da empáfia dos malditos que teimam em fazer desta cidade um local insuportável; diante da completa ausência do poder público; diante da falta de amparo qualquer, um local para o qual possamos ligar e ver resolvidos os problemas; diante disso tudo me pergunto: o que fazer? A quem recorrer?
Um amigo, mais drástico, diria: “recorre à TAM ou à GOL, sai da cidade que ela não tem mais solução”. Não sei se é essa a saída, reluto em crer, mas cada vez mais me sinto completamente desamparado em uma cidade largada de forma criminosa por quem dela deveria cuidar.
O policial que vê a moto completamente irregular e não faz nada! O guarda de trânsito que some depois das cinco da tarde, largando as ruas no momento mais crítico e movimentado! A polícia que, diante do som ensurdecedor, desrespeitoso, violador, permanece sumida e finge não existir – disque-silêncio que uma vez houve nessa terra do já teve, disque-silêncio que nem sei mais se existe, diz que uma vez existiu.
Sei que vou encontrar mazelas em todos os lugares. Mazelas existem em Paris ou Nova-Deli. Mas obviamente as mazelas francesas não são as mesmas mazelas indianas - tudo depende da forma que se combate os problemas, ou mesmo da simples existência de combate. Qualquer movimentação é melhor que a inércia absoluta que vejo por aqui.
Por fim: outro dia, vindo para o trabalho em bairro central de Belém, percebi na rua o cadáver de um gato, atropelado. O bicho estava despedaçado, tripas e órgãos que se espalhavam pela rua. A cena era terrível e enojante! Passou um dia, passaram dois dias, três dias. Passaram-se cinco dias é somente na outra segunda-feira os restos do animal tinham sido recolhidos.
Onde, amigos, o corpo de um animal fica cinco dias apodrecendo em rua central da cidade, vítima de urubus e pombos, o fedor que aflige quem tem o azar de morar na proximidade do falecimento?
Onde?

Fotos: Fernando Gurjão Sampaio.
Desculpem a qualidade das fotos, ou a falta de qualidade - foram feitas no Iphone, em semi-movimento.