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domingo, 6 de outubro de 2013

Letícia

Agosto/2013

Letícia acorda. Letícia chora. Letícia mama e faz manha. 

Vamos trocar fralda. Foi tanto xixi que vazou e molhou fralda, pijama e pai. No trocador, Letícia ri do pai que se desdobra pega fralda pijama algodão água, tudo enquanto segura a filha que ri. Troca fralda, troca pijama, não troca pai, que se for procurar pijama agora acorda filha e pai se acostumou a dormir com xixi de filha que nem fede a xixi.

Depois, remédio e rede, e mais riso de filha que parece se divertir com pai na correria, e rede e música, voz fraca para não despertar a pequena, e rede embala embala embala e filha parece gemer gemido no ritmo da rede e da voz do pai.

Então dorme. Levanta o pai da rede fazendo forçona, porque a pequena já pesa muito, coloca no berço, cobre, cobre melhor, mais um pouco melhor e coloca mosqueteiro. Então filha se vira e se descobre, e pai tira mosqueteiro e faz tudo novamente, e bota mosqueteiro, e então pai deita para dormir, mas aí já pensou na vida e perdeu o sono.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Vacinação

Quando Letícia nasceu, optamos por fazer as vacinas na rede pública de Belém. Já tinha feito isso com Maria, que hoje tem 12 anos e fez todas as vacinas no Posto de Saúde da Cremação. No caso da Letícia, escolhemos o Posto de Saúde do Guamá, principalmente por conta do amplo estacionamento.

Algumas pessoas me criticaram por tal decisão, usando um tom meio que de nojo e admiração por "colocar" minha filha em um posto de saúde pública: se tinha "condições", por que submeter minha filha àquilo? Um absurdo!

Absurdo, para mim, é pagar uma pequena fortuna por vacinas que são dadas de graça em qualquer posto público. E desde quando ter "condições" significa não usufruir do que tenho direito. Eu também pago por aquilo quando pago meus impostos. Como assim?

Pois bem, algumas observações sobre o Posto de Saúde do Guamá, mais especificamente do setor de vacinas:

1. As atendentes da vacina são extremamente carinhosas e atenciosas com todos, sempre prontas a tirar dúvidas e a ajudar. E como são sempre as mesmas, acabam conhecendo as crianças e seus pais, o que torna o clima bem menos tenso. A Brenda Carepa já cansou de sentar com elas e fazer mil perguntas, assim como diversas outras mães fazem - todas sempre bem recebidas.

2. Algumas vezes não pegamos fila. Outras vezes estão uma ou duas pessoas na nossa frente. Uma vez somente, uma única vez, fomos em dia de campanha de vacinação e esperamos quase 30 minutos. Tirando isso, tudo corre rápido e tranquilo lá.

3. Certa vez, um famoso político apareceu lá para tomar vacinas. Ia para a África e precisava delas para viajar. Este famoso político estava acompanhado da Diretora do Posto e, como qualquer cidadão, e não poderia ser diferente, esperou pacientemente na fila sua vez sem qualquer benefício ou favor. Umas duas crianças depois da gente ele foi atendido.

Do mais, não posso dizer. Do que sei, digo. A gente tanto critíca e não custa elogiar

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O resultado



- Papai, por que ele fez isso?
- Filha... Acho que a gente nunca vai ter essa resposta.
- Mas esse colégio não tinha segurança? Como ele entrou com as armas?
- Ele enganou a segurança, disse que ia dar uma palestra e entrou.
(silêncio)
- E isso não pode acontecer aqui, pai?
- Não, filha! Nunca! Nunca aconteceu e nem vai mais acontecer.
- Você tem certeza, papai?
- Tenho, filha. Tenho certeza.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Fazer filhos dormir III

É estranho ouvir a casa silenciosa assim tão cedo. Não é uma da manhã e tudo dorme, tudo apaga, a casa que repousa por conta da pequena que precisa descansar.
Aqui dormimos sempre tarde, os barulhos de teclado e tevê que facilmente alcançam duas ou três da madrugada em insônia constante.
Fazia tempo que a paz não reinava dessa forma.
...
Priscilla me ligou no meio da manhã: havia começado uma obra em sua casa e o cheiro de tinta e gesso despertou a asma de Maria. Agora elas se encontravam em um mundarel de ampolas, soros e exames, nada de grave, mas as chateações de sempre. E como não havia condições de ficar na casa empoeirada, surgiu o pedido: Ela pode ficar contigo esse resto de semana?
Nem precisaria de resposta se Priscilla pudesse ver meu sorriso besta, de orelha a orelha, rasgando a carranca matinal. Tive, inclusive, que me segurar para não dizer que podia ser sempre assim, os dias todos comigo, o pai sempre saudoso dos seus pequenos (mas minha mãe ensinou que mães têm direitos sagrados - e quem sou eu para contradizer uma mãe!).
...
A menina está doente, respiração funda e pesada por conta da asma detestada. Mesmo assim ela insiste em pular e cantar, os mil convites para desenhos e jogos e o pai que se transforma no grande brinquedo ao sabor das vontades da filha.
Farinha Lactea tomada, dentes escovados e menina asseada, deitamos então para ler um pouco: ela devora em letras sua nova paixão - um tal de Percy Jackson. Já eu, tentava terminar a última Piaui quando ela se virou e disse: Papai, acho que já quero dormir. Canta uma música para mim?
...
Cantar músicas... Minha mãe diz que filho que dorme com cantoria cresce bom cantor. Não sei se é verdade, mas até acho que canto bem e que Maria segue meus passo. E como cantava bem minha avó, agora calada no fundo de sua rede. E como canta bem minha mãe, a voz doce e melodiosa que me dá sempre paz, agora embalando seus netos.
Tal como elas faziam, tenho repertório próprio, tudo já bem conhecido dos meninos (na verdade, são as únicas músicas que sei de cabo a rabo, letra inteira): João e Maria, do Chico; Sampa, do Caetano; Como Nossos Pais, da Elis; Boi Bumbá, do Waldemar Henrique; Tem Gato na Tuba, do João de Barros; e Sua Majestade, o Nenem, a única que não sei o compositor.
Geralmente Maria dorme já em Sampa. Já o Carlos pede sempre Tem Gato na Tuba e Sua Majestade, o Nenem. E sinto que ambos dormem mais tranqüilos quando canto, que ambos acordam felizes e mais sorridentes como se embalados por sonhos bons. Sinto - e na verdade eu sei - pois acontecia o mesmo comigo e com meu irmão.
Hoje, depois da pequena cantoria - tudo bem rápido pois ela estava morta de sono - houve uma última atitude de consciência. Interrompida a música, puxei minha mão da dela e senti o protesto: fui puxado de volta ao abraço que não deveria se desfazer e me deixei ficar, aninhando-a, por quase uma hora.
Nesse tempo pensei em muita coisa: pensei em Paris, nossos dias intermináveis e perfeitos; pensei no Carlos, meu moleque tão distante, sempre visto em breves encontros repletos de novidades; e senti saudades da rede do Gualo, um filho de cada lado e a mãe no centro, nossas músicas preferidas entoadas em suavidade, tudo embalado pelo ranger da rede.
E aviso logo: amanhã haverá mais cantoria, para alegria da filha e plena felicidade do pai.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Paris 11 - Finalmente, Disney

Finalmente chegou o grande dia (ou os dois grandes dias) na Disney. Reservamos o domingo, dia 30, para a viagem - mesmo dia em que o grupo da Luanda visitaria os parques. E no dia seguinte, uma segunda-feira, voltamos somente Maria e eu para uma visita mais detalhada.
Para quem não sabe, a EuroDisney fica pertinho de Paris, cerca de 30 minutos no RER, espécie de trem urbano que liga a capital francesa à suas diversas cidades dormitório. O RER compartilha diversas estações com o metro de Paris, então é bem fácil encontrar uma conexão pertinho de você. O nosso passe de metro só dava direito a viagens ilimitadas entre as zonas 1 e 2, as mais centrais (englobam toda a cidade e mais um pouco). Como a Disney fica em Marne-la-Vallee, zona 6, foi preciso comprar uma passagem extra, sentar e esperar chegar a última estação para descer praticamente dentro dos Parques. A dica que dou: descubra qual dois dois fecha mais cedo e comece por esse. Na segunda, por exemplo, o Walt Disney Studio fechava uma hora mais cedo do que o Parque Disney. O ideal é comprar o passaporte para dois dias (como fizemos) ou marcar sua visita para um dia da semana. Nosso primeiro dia, domingão francês com temperaturas quase sempre negativas, foi cheio de filas torturantes e multidões em todos os cantos. Já na segunda, também com temperaturas baixíssimas, quase não pegamos filas e conseguimos fazer todos os brinquedos.
Mas deixando um pouco de lado as dicas sobre como chegar, o que fazer, onde comer, vamos falar da Maria. A Disney é um mundo encantado mesmo os adultos mais céticos. Impossível não se desestressar e sentir coisas boas em um local que foi construído especialmente para isso. Faz muito queria mostrá-lo para Maria e por conta disso, nada mais natural do que a grande ansiedade com a qual ela vinha convivendo.
Logo na entrada, depois da bilheteria, tive que lutar para tirar Maria da primeira lojinha. Eu, com o ar de "pai que não se interessa por aquilo", dizia a ela que lá dentro tinham várias outras lojas com muitas outras coisas. Mas acabei, eu também, me deixando ficar um pouquinho e curtir cada coisa bonita que tinha ali. Depois foi o Castelo da Princesa (até agora não sei de qual), lindo e imponente no meio do Parque. Muito bacana poder curtir esse momento com minha filha, estar ao lado dela e descobrir cada sentimento, cada sensação e frustração (sim, também há frustração em um parque da Disney). Depois da Space Mountain, por exemplo, Maria saiu fascinada e disse logo que aquele era o melhor brinquedo que ela já tinha visto. Logo depois, na Casa Fantasma, vi a frustração: "Égua, papai! E eu estava com medo disso?!". Outra coisa legal deste primeiro dia é que estávamos em um grupo grande - o que significou muito para Maria, cansada da velha cara do pai, dia após dia. Foi bom passar o tempo nas filas brincando com a tia Eulália Toscano (haja bundada), ou dançando com a tia Luanda para passar o frio.
O final da brincadeira, perto das oito da noite, foi Maria dormindo no meu colo até chegar em Paris, cansado como nunca a vi, mas sempre com um sorriso no rosto.
P.s.1: como disse antes, no dia seguinte fomos somente nós. Acordamos mais tarde pois fiquei com medo de uma gripe (Maria cansada + temperatura negativa = evitar). Deixei a menina dormir até dez da manhã e chegamos no Parque somente ao meio dia. Mesmo trajeto feito, agora sem o suspense do dia anterior, mas um dia igualmente curtido, brincado e bem aproveitado. E por ser o último dia, fizemos diversas comprinhas - mil presentes de pirata para o Carlos Henrique, filhote amado e saudoso, e lembranças para os primos/sobrinhos Júlio, Mateus e Ana Luiza.
P.s.2: Os parques têm brinquedos para todos os gostos. Nós preferimos o mais radicais - montanha russas e simuladores de vôo. Mas também curtimos alguns brinquedos dos menores, como o Mundo dos Pequeninos e o Buzz Lightyear Laser Blast (tiro ao alvo). Então recomendo: cheguem cedo e aproveitem os dias de semana - sem filas fica mais fácil brincar em tudo e ver do que se gosta ou não.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Paris 10 - Paris para crianças

Dentre todos os bons programas que armamos por aqui, três deles se destacam por serem inteiramente dedicados às crianças:

O Palais de la Découverte (Avenue Franklin Delano Rooseveld, 75008 - Metro Camps Elysées-Clemenceau) é um museu idealizado pelo ganhador do prêmio Nobel, Jean Perrin, desde os anos 30, para incentivar o estudo da física e da química. Ele foi instalado no Grand Palais, bem no início da Champs Elysées, e hoje mostra a ciências de forma prática para as crianças. Existem experimentos na área da química, da biologia, da matemática, da física e da astrologia. O Palais passa por reformar e deve ser totalmente renovado (encontrei muita coisa ainda da época que eu o visitava como estudante - e foi emocionante voltar ali e lembrar de tanta coisa boa do tempo que aqui morei). Mesmo com todas as limitações atuais, vale a pena levar as crianças lá e ver as bocas abertas diante de tanta coisa legal (Plena tarifa - 7 euros - Tarifa Reduzida - 4,50 euros - Suplemento Planetário - 3,50 euros).

Outro lugar bacana é a Cité des Sciences e Industrie, que fica em La Villette (bem afastado do centro, no 30, avenue Corentin Cariou - Metro Porte de La Villette). A Cité é mantida pelo mesmo grupo do Palais, a Universcience, que por sua vez é mantido pelo Governo Francês. E o nome Cité, que significa cidade, faz jus ao local - é uma verdadeira cidadela construída e dedicada ao que há de mais moderno no mundo - aviões a jato, carros elétrico e foguetes maravilhosos, barcos movidos a energia solar e uma ala inteira dedicada às novidades do design. Também tem uma parto nova sobre pirataria ao redor do mundo e sobre genética - tudo em completa acessibilidade para portadores de necessidades especiais e idosos - e tudo com acesso liberado para toques e todos os demais sentidos das crianças (e adultos) curiosas. Lá também fica a Géode, cinema inaugurado em maio de 1985 com uma tela de 1000 metros quadrados e um sistema sonoro de 21 mil watts. Nem precisa falar mais nada, não é? Vimos um filme sobre o telescópio Hubble - e é incrível como uma iniciativa destas muda uma criança - Maria não parou de me fazer perguntas e ainda quis ler mais na internet, chegando em casa (Plena tarifa - 20,50 euros - Tarifa reduzida - 16 euros - Menores de 6 anos - 9 euros)!

Por fim, hoje, dia 28 de janeiro, visitamos o Aquário de Paris. Apesar de ser um dos locais mais belos que já vi, fica quase esquecido, ofuscado pela presença da Torre e pelo fato de ainda ser novidade - ele foi inaugurado em 2006. O endereço: jardins do Trocadero, Metro Trocadero, justamente aquele que nos deixa na frente da Torre! Difícil competir. Mesmo assim, se tiver um tempo livre, mude sua vida e conheça o fundo do mar como você nunca viu. Seja conhecendo minúsculos peixinhos, ou o aquário dos enormes e majestosos tubarões, tudo ali é feito para te deixar bestificado. Não deixe de alimentar as carpas na Piscina dos Carinhos: os tratadores te dão a comida e você enfia a mão no tanque! É maravilhoso ver o peixes vindo e pedir comida, tentando abrir sua mão para pegar o jantar deles. Faça carinho nos peixes e deixe que eles beijem sua mão - eles não têm dentes. E se deixe ficar o tempo que for necessário - não é todo o dia que você visita um aquário de quase 3.500 metro quadrados, com 10 mil espécies de animais marinhos, no subsolo de Paris (Tarifa única - 19,50 euros).

São três locais perfeitos para crianças, dentre tantos outros, e digo isso após o teste perfeito: uma filhota de 10 anos, morrendo de frio e de saudade de todos. Ela adorou tudo e quer repetir alguns - o que faremos antes de partir.

Paris 9 - Papai tá dodoi

Antes de mais nada, é importante explicar que o apelido da Maria é Nanam. Desde que bati meu ombro, andamos por Paris (ela engatado nos meus braços) enquanto ela canta: "Papai tá dodoi - Nanam dá dá beijo que passa, Nanam dá dá beijo que passa, Nanam dá dá beijo que paaassaa". É tão bonito Maria cantando forro adaptado à minha dor.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Paris 8 - Perfeição

Dizem que a pior coisa é idealizar momentos ou pessoas: você faz tantos planos, imagina tantas coisas e, na hora H, quando elas não se realizam, acaba surgindo uma frustração absurda, capaz de gerar o pior sentimento de fracasso e desânimo. Ocorre que nem sempre é possível deixar de fazer tais planos ou idealizações, e vez ou outra a gente se pega imaginando como seria tal momento, o que faríamos se dessem certo e como seria bom se tudo acontecesse como previsto, tudo igual a um sonho.
Quando decidi comemorar o aniversário da Maria em Paris, com meus pais e minha irmã, imaginei logo uma festinha em algum restaurante com vista para a Torre, tudo precedido da fundamental subida ao topo que descortinaria uma vista privilegiada à minha filha. Haveria vovó e vovô, haveria a tia e seus colegas de curso, haveria cantoria de parabéns e um bolo simples e velas - além de presentes dados de coração.
Isso foi o que sonhei - e Maria incorporou de tal forma esse meu desejo, que por conta própria decidiu não ver a Torre e nem passar por perto dela até o dia 25de janeiro - aquele momento estava reservado para a ocasião especial que ela sabia que eu planejava. E a coisa ficou tão bem planejada na nossa cabeça que certa vez, andando pela beiro do Sena, acabamos dando de cara com a Torre, impávida e majestosa, visão impossível de ser evitada. Instintivamente minha moleca cobriu os olhos e me abraçou, meteu o rosto pelo meu casaco e se escondeu. Ela disse que não era aquele o momento, que aquilo só podia acontecer no dia do seu aniversário, como eu havia planejado, e saímos dali, da visão possível da giganta, para evitar o “pior”. O clima todo estava criado e só faltava torcer para que desse tudo certo... E eis que não se deve idealizar nada!
No dia 25 de janeiro, bem cedinho, acordei minha filha cantando Parabéns. Fiz mil carinhos, mil massagens e dei mil beijos e lambidas na minha cria. Ela acordou feliz e ganhou logo o primeiro presente - uns euros que vovó havia separado para comprar o grande presente, um Nintendo DS XL Amarelo, reluzente. Arrumei a mesa do café com todas as gostosuras que ela adora e sentamos todos juntos. E depois fomos nos arrumar para seguir com os planos... e se não fossem as complicações.
Saindo de casa, vovó Amarilis começou a se sentir mal por conta da gripe que havia começado no Brasil e resolveu atacar mais forte no frio francês. Mesmo assim, vovó se vestiu para sair com a neta e agüentou firme até onde pôde.
Além disso, havia a chateação de não ter notícias de minha irmã: desde que chegamos em Paris não conseguíamos falar com a Luanda. Já no aeroporto ela se separou e seguiu com os colegas do curso de francês e depois disso, as estranhezas desse mundo cheio de tecnologias, não conseguimos contato por e-mail e nem por telefone.
Havia ainda o problema da mala extraviada de minha mãe, problemão que nos obrigava a constantes paradas para compra das roupas necessárias para enfrentar a temperatura que variava entre oito e dois graus. E junto com a mala, ficou extraviado o cabo de energia do notebook, pelo que estávamos sem computador e, conseqüentemente, sem internet.
Tudo explodiu justo no dia 25 de janeiro, aquele dia reservado para as festas e comemorações, para subida na Torre e cantorias, tudo oferecido para minha filhota pelos seus dez anos. Obviamente minha mãe só piorou da gripe durante as andanças pelas ruas frias de Paris - que são impiedosas aos doentes. Também ficamos estressados e nervosos sem contatos com minha irmã – neste dia fizemos diversas paradas em busca de redes wi-fi e nenhum telefone prestava ou atendia, e nenhum endereço batia! Da mala não tínhamos nem sinal, a TAP completamente omissa e inoperante obrigando minha mãe a fazer um guarda-roupa de urgência em terras estrangeiras (desde um tudo, já que nada havia), ela que caminhava doente em busca do necessário. E ainda fomos enganados pelo vendedor da FNAC do Boulevard Saint-Michel, que empurrou um cabo de energia que simplesmente não servia no computador (e esse seria o cabo salvador com o qual poderíamos, por fim, manter contato com Luanda). Só percebemos o erro quando chegamos em casa, o que nós obrigou a voltar à FNAC no mesmo pé, com a mãe doente, com o pai stressado e sem a irmã sumida, a volta que era precisada diante da necessidade de comunicação. O homem azedo (no sentido literal) pediu mil desculpas e se dispôs a trocar o cabo, mas como a sorte some quando se precisa dela, é claro que não havia o cabo necessário naquela loja - e em nenhuma outra em Paris.
E foi assim que nos vimos - a avó doente, se sentindo muito ruim e sem mala - o avô estressado e cansado, sem notícias da filha - todos sem internet, somente com meu Iphone e suas limitações - todos cansados e com frio, meio que perdidos e sem saber o que fazer - e no meio disso uma menina maravilhosa, quieta e educada, que assistia tranqüila à sina dos seus adultos sem qualquer espécie de cobrança ou reclamação. Ela já havia comprado seu Nintendo DS XL Amarelo, lindo, mas ele estava guardado na caixa esperando o momento certo para ser aberto. E já eram quase 18 horas, no meio desse horror que devia estar sendo aquele aniversário, quando Maria se virou para mim e disse: "Papai, vamos voltar para casa e deixar a Torre para outro dia. A vovó e o vovô precisam descansar e está ficando tarde... Eu comemoro meu aniversário depois". Ouvir aquilo no meio do Boulevar Saint-Michel quase me fez chorar. Idealização, frustração e angústia, tudo sobre o que falei no início desse texto me atingiu de maneira assustadora. Meus pais não teriam condições de continuar em mais andanças, minha irmã estava incomunicável e sobrávamos nos dois, pai e filha, únicos responsáveis pelo sucesso daquele aniversário! Podia não ser como planejado, com a festa e tudo o mais, mas seria uma coisa maravilhosa, o aniversário comemorado no alto da Torre e com direito a patinação e muito carinho. “A gente vai sim, nem que só nós dois, mas a gente vai subir a Torre hoje!”.
Meus pais realmente não tinham condições – e tiveram que assumir isso: “Filho... Vamos para casa. Me sinto ruim e não tenho como continuar”, disse minha mãe. E rapidamente acertamos que iríamos até a Torre e voltaríamos a tempo de jantar juntos. E foi assim que acabamos os dois, de mãos dadas na loucura do metro de Paris, rumo ao ícone da cidade (e do país). Eu também estava cansado, mas ver o sorriso de Maria me motivou a ir até onde fosse preciso.
Descemos do metro e vínhamos pela margem do Sena, caminho justo para sair bem na frente da Torre. E quando dobramos uma esquina e a vimos, iluminada em todas as suas luzes, piscando de forma maravilhosa, Maria parou e ficou olhando, encantada. Eu já sabia o que veríamos quando dobrássemos a esquina, e fiquei só esperando a reação da pequena. E quando cheguei bem ao lado dela, só pude ver a boca aberta e os olhos mais arregalados do que nunca: “Papai, ela é linda!”. E antes que eu pudesse falar qualquer coisa, mil poses foram feitas para as mil fotos a serem mostradas para a mãe Priscilla, a avó Marta e o irmão Carlos. E fomos caminhando assim, até a Torre, dois passos e uma foto, dois passos e mais um casaco que pulava da minha mochila, dois passos e mais um cachecol...
E foi justo embaixo da Torre que piscava alucinada, eu atento procurando a fila dos ingressos, que senti a pequena me abraçar e enfiar a cara na minha barriga. E por entre os panos dos casacos, pude escutar o filete de voz que disse “Obrigado, papai, pelo melhor aniversário da minha vida”. Foi então que não consegui mais manter pose nenhuma, de pai forte e de incansável, e me ajoelhei ao lado dela e a abracei, beijei e chorei. No meio do choro, lembro de agradecer a ela por existir em minha vida, por me fazer ser alguém melhor e por me ensinar tanta coisa. Disse que se não fosse por ela, quem sabe quem eu seria? Afinal de contas, se estudei, foi por ela! Se trabalhei, foi por ela. E se o Carlos pode ter, agora, um pai que sabe ser pai, foi porque ela me ensinou tudo. Pensei em tantas coisas que enfrentamos juntos, firmes, e tantas coisas pelas quais passamos! Pensei em todos que aprendi a amar por conta dela, a menina de dez anos que mantém todos unidos e nem sabe desse poder que tem. Pensei na avó materna dela, a Marta, que virou quase uma mãe, e na mãe da Maria, a Priscilla, que hoje é minha grande amiga. Pensei no tio Felipe, o pai-pai dela, o segundo pai que por ela faz tudo e por quem tenho o maior respeito – se um dia eu não estiver mais aqui, sei o que ele será para ela! Pensei em meus pais e em tudo que fizeram pela gente quando a gente não podia muito. Também pensei na Tainá, que agora me ajuda nessa batalha diária que é criar crianças, e na minha outra criança, o Carlos, tão longe e sempre tão presente nas nossas vida! Pensei em tanta coisa e ainda chorei um bocado enroscado na melhor filha do mundo, que me carinhava a cabeça e ria da minha besteira. E pude chorar até o momento em que ela, cansada de somente ver, disse que queria subir logo e conhecer tudo, e então não pude mais chorar e porque estava muito ocupado sendo o homem mais feliz do mundo!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Paris 5 - Maticota curte

Maria não sabia bem o que iria encontrar. Sabia do frio e sabia da modernidade, sabia das comidas e dos hábitos diferentes - e ela se surpreendeu. O frio foi mais frio do que ela imaginava, e as coisas modernas são mais modernas ainda - no primeiro dia a pequena sofreu com a baixa temperatura e, quanto mais roupa eu oferecia, mais roupa ela queria. Tudo melhorou quando ela começou a ver os prédios e as lindas vitrines das lojas, os monumentos indescritíveis e as enormes igrejas, quando tudo foi ficando mais interessante. Agora, por exemplo, quando ela vai patinar com as outras crianças, pede para ficar sem casaco e sem luvas, com pouca roupa para não atrapalhar os movimentos. E o Metro, que é surpreendente para qualquer um, fica mais legal para a pequena! Quilômetros e mais quilômetros por baixo da terra que percorrem praticamente toda a cidade não é algo comumente visto, não é? Também é surpreendente o sistema público de bicicletas, com pontos que são encontrados em todos os lugares. Ela está doida para pedalar por Paris, mas todos dizem que é um pouco perigoso e tenho tentado demovê-la dessa idéia. Outra coisa que a deixa louca, mais do que qualquer outra, é a patinação no gelo (que já mencionei acima). O ring da Prefeitura de Paris é enorme, quase do tamanho de meio campo de futebol, tem wi-fi de graça e é tomado por turistas e patinadores profissionais. O mais importante é que todos se respeitam e se ajudam - muito comum, por exemplo, ver um patinador que antes estava barbarizando nas manobras, parar a ajudar um senhor, que acaba de colocar o patins pela primeira vez, a se levantar. Maria tinha poucas noções de patinação, mas nestes dois dias ela teve um avanço fantástico. Hoje ela já patinou sozinha e segura no ring grandão, dos gradões, e até fez amigos entre os franceses, além de australianos (com quem falou inglês) e de um bando de brasileiros. E assim vai nossa vida francesa - maravilhosa apesar da enorme saudade da Tainá, do pais Carlos e Regina, da vovó Marta, da Nilda, da Piscilla, do Felipe, da vovó Ivete... Eita lista grande! Depois farei textos mais detalhados sobre o Metro e o Velib, sistema de bicicletas.

domingo, 8 de agosto de 2010

Dia dos pais

       - Papai, existe vida após a morte?
      - Filha, há quem acredite em vida após a morte. Mas não sei se existe e acho que ninguém tem certeza.
      - Papai... se existir vida após a morte, será que posso ser sua filha de novo na próxima vida?
Diálogo com Maria, 09 anos.


Carlos acordo como se procurasse algo e olhou ao redor de forma insistente. Diante da atitude pouco usual, sua mãe perguntou:
      - Filho, o que foi?
      - Mamãe, cade papai?
      - Filho... papai está em Belém, você sabe disso.
      - Não, mamãe. Papai tá lá em baixo. Eu vi.
      - Não, filho... Papai está em Belém. Você deve ter sonhado com ele.
Carlos então se deita e coloca o travesseiro sobre a face.
      - Filho... o que foi?
      - Mamãe... apaga a luz que papai volta.
Relato que me foi feito pela mãe do Carlos, 02 anos e meio.


Sim. Eu tive um maravilhoso dia dos pais.

sábado, 7 de agosto de 2010

Maria e seu blog

Ela vinha pedindo por um blog há tempos. 
E cada vez que me via atualizando o Domisteco, mais pedidos eram feitos. Eu já sabia que ela poderia escrever bons textos, o corrigir e rever os deveres de casa que me davam tal segurança. Faltava ainda pensar na questão do perigo da internet, as coisas todas que podem surgir em ataques e riscos a uma criança. 
Relutei mas estabeleci: "se sua mãe deixar, eu deixo". 
E a mãe deixou.
Para a questão de segurança combinamos assim: ela e eu seremos responsáveis pelo blog - que fica cadastrado na minha conta. Compartilhamos as senhas (inclusive a do e-mail dela), a moderação de comentários é de minha responsabilidade e a publicação de textos será nos finais de semana (quando temos mais tempo). 
Outra combinação - os textos serão manuscritos na folha do caderno, em velho e bom ofício, e somente depois de corrigidos serão passados para o computador.
Ela tentará manter um texto por semana, publicação que acho de bom tamanho para alguém que começa, não só uma vida digital, mas a vida em si.
E eis que surge o blog da minha filha, o Blog da Tantinha, nome escolhido por ela assim como tudo. O primeiro texto já foi publicado e trata da chuva de ontem, a Pariquis que, mais uma vez, transbordou de forma absurda e foi vista e escrita pelos olhos da minha menina de nove anos. Espero que gostem.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A gente se entende bem

 Ela entende o lado dele.
 Ele entende o lado dela.
A gente se entende.
Com fotos do Wagner Mello.

terça-feira, 18 de maio de 2010

O assalto e a menina

E-mail que Maria me enviou, minha filha de 09 anos, na segunda-feira, 17 de maio de 2010, dois dias depois do assalto relatado abaixo e assistido por ela, graças a Deus, de longe.
Papai. Estou traumatizada com o assalto de anteontem, morrendo de medo disso. Agora eu faço tudo em lugares "desestranhos". Ontem, quando vim pra casa com o tio rodrigo da mamãe, pedi pra entrar na garagem por causa do medinho de assalto relampago, sequestro. Desculpe por falar isso, sei que ainda está com medo de sair a noite ou algo assim. Mas quero desabafar meu medo de ontem. Eu chorei até ficar rouca de chorar. Quando você chegou, eu corri o mais rápido que eu podia. Te amo.
Beijos.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Palavra do Dia n.º 22

Hoje, glorioso dia 25 de janeiro, dia de São Paulo e da Maria Fernanda, a palavra ganhadora não poderia ser outra que...

Dedicação
s.f.
Desprendimento de si próprio em favor de outrem ou de alguma idéia.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Auto-Entrevista 01

Auto entrevista marcada por forte carga emocional e lampejos psicodélicos provocados pelo sono e saudade devastadora (02h34min – 20 de janeiro de 2010).

- Então ela chega hoje?

- Sim, chega hoje, finalmente. Mas parece que tudo conspira contra, não é?

- É sim. E a grande conspiradora de hoje é a lei da Física que rege a chegada das filhas...

- Sim, conheço! Aquela lei que diz: quando um pai saudoso espera sua menininha, todos os vôos vem carregados de menininhas que correm e pulam igual à esperada, somente para confundir e dar lampejos de esperança a um pai cansado da ausência. Mas ao menos ela chegará!

- Sim, mas com um grande atraso. Acabo de falar com a mãe e soube que ainda estão em Brasília! Parece que houve uma forte tempestade em São Paulo e todo o sistema aéreo ficou congestionado. A mãe pediu até para verificares, não foi?

- Foi sim, mas não encontrei nada na internet. Vai ver é desculpa da empresa.

- E o que fazem? Dormem?

- Não, matam o tempo como podem. Maria, pelo que a mãe contou, joga no seu portátil e anda em círculos vendo vitrines e simulando compras. Sabes a que horas chegam?

- Chegam perto da seis da manhã. Voltei para casa, darei uma soneca e retornarei mais tarde.

- Ainda voltas ao aeroporto!?

- Sim, quero vê-la o quanto antes. A saudade aperta muito.

- Verdade, estou roxo de sentir falta dela.

- Bem, acho bom você dormir um pouco, nem que sejam alguns minutos.

- Verdade. Senão nem consegues acordar na hora marcada.

- Obrigado pela entrevista.

- De nada.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Palavra do Dia n.º 21

Saudoso da minha filha que viaja, a palavra do dia, hoje, não poderia ser outra...
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Saudade
s.f.
Lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que nos vemos privados. Pesar, mágoa que essa privação nos causa. Lembranças; recordações; cumprimentos.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Maria e o pássaro

Hoje (03/12/09) minha Maria encontrou um filhote de sabiá e me pediu para criá-lo. Deixei! Ela disse que se não for ela vai ser a pança de algum bicho. Foram 15m no telefone, a história do achamento do pássaro, dos cuidados e dos planos. Pedi pra ela escrever o que achava ter acontecido. Ela me prometeu um livro ilustrado, o pássaro que vê a mãe voar e tenta seguir. Depois, a queda. A Maria do Tanto é mocinha, cheia de argumentos! É sim, argumentos e vontades. Ela me liga e pede sushi, diz que está com saudades e quer me ver.

E Carlos que não chega, e sono que não vem, e casa que não fica pronta!? Vou dormir.
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P.S.: Hoje de manhã Maria me ligou para avisar sobre o falecimento do filhote de Sabiá. Muito triste, me avisou que o enterro será logo mais, no pequeno bosque do residencial Lago Azul. Em 04/12/2009.


domingo, 22 de novembro de 2009

Eu e Maria

Trecho de reportagem de hoje, domingo, no Amazônia Jornal (Pai e filhos em um laço forte)!

'Ela me ajuda a escolher as minhas roupas'

'O pai pode, sim, ensinar coisas que a mãe não consegue. E não se trata de incapacidade da mãe, mas sim de experiências vividas pelo pai, pelo homem', afirma o advogado paraense Fernando Gurjão Sampaio, 31, que sempre esteve presente na vida da filha Maria Fernanda, 8, desde sua gestação. Cumplicidade, amizade e companheirismo marcam o relacionamento de pai e filha. 'Ela me ajuda a escolher as roupas na hora de sair, conversamos sobre o colégio, os colegas, os professores. Somos bem sinceros e temos uma série de planos juntos, coisas que pretendemos realizar.'

Maria Fernanda mora com a mãe, mas durante a semana Fernando procura oportunidades para estar com a filha. 'Sempre que posso, durante a semana, tento pegá-la no inglês ou levar sushi para o jantar dela. Juntos brincamos, vamos ao cinema ou pegamos um DVD para assistir. Uma criança surge de um pai e de uma mãe; então a falta de um deles deveria ser algo impensável, um fator que deixaria lacuna na vida da criança. 'Com a relação de amizade Fernando espera que a filha encontre nele alguém em que possa confiar e que divida novas experiências. 'Sempre fui contra os pais que brigam com os filhos por coisas que são naturais. Prefiro que ela me conte, tendo certeza não de uma bronca feia, mas de um conselho, de uma atitude de amigo, que a ajude.'

As fotos são do amigo e grande colaborador, Wagner Mello.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Fazer filhos dormir I

A memória que tenho da mamãe nos fazendo dormir é muito viva. Mais frequentemente ela se revela como lembrança do velho apartamento no Ed. Gualo, último andar, de frente para a Praça da República.

Era sempre a mesma coisa, toda noite: na rede do nosso quarto, mamãe no meio com um filho de cada lado, pequenos ainda, as pernas e braços passando por cima do corpo dela como se para ficar mais perto.

Na cadência do rangido da rede ela encaixava o ritmo da musica e tudo acabava virando um som só. Engraçado que o ranger da rede pode ser um barulho insuportável para alguns, sempre com vidrinhos de Óleo de Máquinas Singer nas mãos. Já para mim, rede sem rangido, daqueles baixinhos, quase um gemido, acaba sendo um pouco menos bacana.

Mas voltando aos embalos, cada filho com seu latifúndio, as musicas iam se repetindo num repertório que até hoje é todo ela. Tínhamos nossas canções preferidas, aquelas que calávamos para ouvir com mais atenção; tínhamos também aquelas que preferíamos cantar junto, bem alto. Tinha uma que nos metia medo - e ela cantava somente para ver nossa cara de espanto e rir depois. E tinha umas que não entendíamos, pois eram cantadas em outras línguas - e eu achava mamãe muito inteligente por saber tanta coisa difícil.

Geralmente meu irmão dormia rápido. Eu não! Lutava contra o sono com todas as minhas forças - o que acabava colocando mamãe em uma situação ruim. Quanto mais eu demorava para dormir, mais as musicas ficavam desconhecidas, até que, depois de algum tempo, acabavam virando somente os gemidos de algo que devia ser uma música, mas ela não lembrava a letra.

Fazer filhos dormir II

Tenho trinta e um anos e já se passaram pelo menos dezoito desde a última vez em que minha mãe me fez dormir.

E no escuro nos embalamos na rede, eu no meio, Carlos e Maria, cada qual num lado. Os dois fazem travesseiros dos meus braços e se olham apaixonados. Ele, pequeno, pega no cabelo da irmã. Ela, já quase grande, me olha com o rabo do olho, cheia de orgulho.

A rede geme e eu gosto. Acho que eles gostam também pois não reclamam. Mas meu pai não gosta e entra no quarto sem falar nada, com um vidro de Óleo de Máquinas Singer nas mãos, e cala a rede. E não consigo mais juntar o compasso do que canto com a cadência da embalada.

Hoje os dois resolveram lutar contra o sono. Ele fala todo o seu pequeno vocabulário de umas vinte e tantas palavras antes de dormir; ela me corrige quando troco os versos das músicas, até que se irrita e resolve cantar no meu lugar.

Por fim, dormem. Eu já estava nas músicas tiradas do fundo da memória, quase chegando aos gemidos de músicas que não lembro a letra. E no balanço já sem força da rede, com meus filhos deitados no meu peito, as pernas por cima de mim como se para me agarrar mais, lembro da minha infância e sinto vontade de chorar. A felicidade de ter tido quem me embalasse em uma rede; de ter tido quem me fizesse dormir ensinando músicas bonitas; de ter tido quem me permitisse olhar apaixonado meu irmão mais novo.

Por tudo isso sinto vontade de chorar, mas não choro! Afinal, foi um trabalhão fazer dormir esses dois e não quero que eles acordem!

(Belém, 03/10/2009)