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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A secura da vida

O motorista da van me parece muito triste.
Apesar de ser educado com todos, ajudando no que pode, é clara sua secura diante de qualquer alegria que lhe pareça pelo caminho. Vai calado a maior parte do tempo, olhos atentos na estrada árida que continua a se revelar após cada curva, alerta aos braços estendidos quase que pedindo socorro, pedindo carona, sob o sol inclemente do norte do Tocantins.
As mãos calejadas de quem vive na estrada.
Partimos da Araguaína, TO, com destino a Conceição do Araguaia, sul do Pará, em viagem prevista para durar cerca de 4 horas, duração incerta diante de tanta precariedade que existe por ali.
Messias (nome fictício), aos poucos vai me revelando história tão sem cor quanto o cinza constante da estrada que nos faz companhia sem fim. Nasceu no sudeste do Brasil e casou cedo, um casamento em que havia amor e sempre vontade de estar perto. Tiveram três filhos e viviam felizes em uma pequena cidade, até que o filho mais velho teimou montar em cavalo. O pai deixou, e, obra cruel do destino, houve logo uma queda que lhe quebrou o pescoço. Como reflexo, sua morte prematura ainda acabou com o casamento dos pais, a mulher que agora culpava o marido pela perda sempre lamentada. Depois de alguma tentativa e muita rejeição, aceitou o que pedia a esposa e foi-se embora para canto qualquer que fosse distante, e nisso deixou para trás o amor que teve um dia e duas filhas que numa mais viu.
Foi tentar a sorte em Palmas, capital do Tocantins, trabalho árduo de sempre estar com pressa e correndo de um lado para o outro. Messias era o apoio de motoristas de micro-ônibus e vans, todos de pequenas cooperativas, que, não podendo ser onipresentes, dependiam dele e de seus carros para distribuir os passageiros pelos grotões mais distantes da cidade. Com um celta e uma Kombi, mais ajuda de um motorista contratado, apanhava as pessoas na entrada da cidade e as levava para o aeroporto ou rodoviária, ou qualquer outro local que fugisse à comodidade dos vanzeiros já cansados.
Estrada que não tem fim.
Em Palmas, Messias casou de novo. Teve mais duas filhas e seguia firme na tentativa de sobreviver ao final do mês, mas não tinha horário nem desculpas, sempre pronto aos chamados de apoio aos quais não podia recusar.
Seguia nessa vida até que se cansou de tudo, mais o casamento que acabou, a tristeza da perda do filho que o perseguia e uma briga com seu motorista, e por tudo isso decidiu vender o que tinha e rumar mais ao norte, o boato de que havia necessidade de transporte entre Araguaína e Conceição do Araguaia, rota boa, cheia de gente esperando na secura da estrada de sol quente de sempre.
Conseguiu uma van de segunda mão, carro ainda bom e que cabia no seu bolso. Em Araguaína, se juntou a uma cooperativa na qual tinha amigos e começou a dividir rotas e horários. Por lá foi tudo tranqüilo, os serviços do grupo que o favoreciam com guichê, funcionários e resolução de burocracia.

Em Conceição foi diferente.
Começa que e a cooperativa só tinha autorização para fazer rotas estaduais, atravessar o rio Araguaia em direção ao Pará não podia. Em tese, ele só poderia ir até Couto Magalhães, última cidade tocantinese antes da fronteira. Ocorre que o grosso do povo estava em Conceição, então havia duas opções: atravessar na ilegalidade ou morrer de fome.
Conceição foi só dureza.
A vida da família regulada pela vinda da van.
Sozinho, sem ajuda da cooperativa do Tocantins, teve que procurar, alugar e reformar um local que é, em tudo, tudo para aquele homem: garagem para a van, oficina, venda de passagens, despacho de mercadoria e casa, mas casa, neste contexto, é algo bem diferente do que conhecemos. Casa, para Messias, é varrer o chão para tirar o grosso da poeira do salão onde muitos andam durante o dia, apagar as luzes e dormir em um colchonete fino que acaba com suas costas.
Pior do que isso, foram os concorrentes, eles também ilegais no Tocantins, eis que só podiam rodar dentro do Pará, mas de olho na rota de Messias, que começaram lançando boatos terríveis de que era ruim motorista, de que já havia mesmo sofrido acidente com vítimas fatais. Ao perceberem que a necessidade de ir era maior do que o medo incutido, e que os passageiros continuavam a seguir com aquele homem, começaram a atazaná-lo com multas e fiscalizações constantes que tiravam, dia após dia, o pouco do lucro que surgia.
A poeira toma conta de muita coisa, de quase tudo, ao redor da estrada,
mesmo com tanta água bem ao lado.
Para isso a solução foi simples, uma conversa franca com o fiscal resolveu o assunto: “Eles te pagam? Se sim, deixa eu te pagar também e me deixas em paz. Recebe deles e recebe de mim, mas me deixa em paz.” Então, o fiscal ganha de lá, e diz que atazana, mas também ganha daqui, e acabou virando tranqüilidade na vida de Messias.
Após alguns anos na rota Conceição-Araguaína-Conceição, ele diz que finalmente tem paz, se é que pode se chamar de paz a secura de sua vida. Aos 57 anos, diz que tem medo de jogar futebol no final de semana, ou mesmo fazer alguma coisa mais arriscada, pois, para ele, ficar doente por cinco dias significa cinco dias sem ganhar dinheiro. Certa vez, no futebol, quase torceu uma perna e então percebeu a gravidade que era se divertir. Teve medo e hoje prefere qualquer coisa onde não possa se machucar.
Leva vida bem regrada, sem qualquer mudança de rotina. Acorda todos os dias às 06:00 para verificar o carro e encher o tanque. Depois, das 07:00 em diante, até a hora da saída de Conceição, ficar arrumando malas e caixas e acomodando os passageiros.
Chega em Araguaína, 232 km depois, por volta de meio dia, se não houver sobressaltos. Almoça rápido, sempre pouca coisa, e novamente verifica o carro já se preparando para o retorno ao Pará, marcada para 16:00.
Chega novamente em Conceição já com a noite caída, perto de 20:00, e, até desembarcar todos os passageiros, diz que chega no ponto às 21:00, hora justa para arrumar o que tiver de pendência, tomar banho e sair para comer um churrasquinho na rua, tudo bem rapidinho, pois tem que estar dormindo antes das 22:00.
Mesmo quando a estrada é boa tudo treme em buraco
ou remendo que seja.
Apesar de não ser bonito, castigado pela poeira da estrada e pelo tempo, Messias diz que toda a noite tem uma mulher “enchendo o saco” na porta do ponto querendo diversão, todas achando que ele tem muito dinheiro, o homem que tem um ponto de van e um carro que dá grana fácil todos os dias.
O dinheiro... Bem, esse vai quase todo para as filhas do primeiro casamento, a quem insiste em enviar mesada mesmo que estejam casadas e já tenham lhe dado cinco netos, mais as filhas que moram em Palmas e que ainda precisam de tudo para estudar e viver e crescer.
O que resta, diz ele, é tanta miudeza, tão pouca coisa, ainda mais diante das muitas contas inesperadas que surgem a cada dia, uma simples peça quebrada que pode significar o lucro de uma semana toda e um final de mês no vermelho.
Messias diz que nunca sofreu assalto nas estradas do Tocantins, mas já sentiu que não devia parar para determinado passageiro, ele que conhece cada boca de entrada de fazenda ou sítio, e chama muitos dos que pedem carona pelo nome, sabendo mesmo quem são, o que fazem ou o motivo da viagem.

Olhar perdido na beleza do Araguaía
Certa vez, diz que foi Deus, pressentiu que um homem desconhecido estava armado, e, quando fitou melhor a figura, pode ver a arma em volume feito por sobre a blusa. Há o medo, mas também a sorte de não rodar no Pará, onde motorista amigo seu já morreu torturado por bandido, onde vans e ônibus são parados a bala quase toda a semana.
Perto do fim da viagem, pergunto se não teme fiscalização dos órgãos competentes, ao que ri e me explica como acontece: “o pessoal estadual vem de vez em quando, mas é galho fraco. Perigo mesmo é o povo da agência federal, porque a multa é grande. Quando é assim, logo avisam e a gente entoca o carro onde der, larga passageiro onde der e fica ali escondido pelo tempo que for.
E a família? Quando o senhor a vê?
As meninas do sudeste, nunca. Lembra do menino perdido e fica triste, prefere ficar aqui onde consegue esquecer. Já as meninas de Palmas, vez ou outra consegue vê-las quando vai à capital resolver alguma pendência do carro, tudo sempre rápido, só de passagem, pois a ex-mulher tem a vida dela e ele não gosta de atrapalhar.
A estrada é democrática. Velho ou novo, a vida de todos passa por ali.
No dia dessa viagem sou o único passageiro de um trajeto que certamente dará prejuízo. Somente o tanque cheio do dia sai por uns 150 reais - e minha passagem nem chega a 50. Ao longo do caminho vão surgindo mais pessoas, trajetos diferentes, menores em sua grande maioria, mas dinheiro pouco que faz toda a diferença para aquele homem. Explica-me que, se no final dia conseguir 200 reais, certamente pode considerar esse dia como ganho. Paga o tanque de combustível, paga seu jantar, paga algumas das despesas fixas e ainda sobram uns trocados para a reserva que tenta sempre ter em mãos.
Nem sempre isso acontece, isso que nem é tanta coisa: muitas vezes pega a estrada sozinho, sem nenhum passageiro na van, e ainda acontece de pegar pouca gente no asfalto. Quando é assim, mesmo na certeza do prejuízo, tem que sair: “Primeiro, esse povo conta comigo. Faz anos que saio sempre nestes horários, então tem gente que regula toda sua vida pela minha passagem. Segundo, tem muito urubu querendo a minha rota. Se eles passam antes, quem sempre me espera fica lá, firme, faça chuva ou faça sol, sabendo que eu vou chegar. Mas, se eu falhar um dia que seja, deixam de confiar e acabam pegando a outra van. Aí eu perco tudo.
O Araguáia
Ali tudo é incerteza, nada costuma ser igual ao dia que passou. A única coisa que nunca muda são as curvas da estrada, sempre as mesmas, já quase decoradas na cabeça daquele homem.
Dias próximos de feriados, final de ano e suas festas, meses de julho e agosto, são os meses de trabalhar como um robô e fazer o dinheiro que der, época de investir no carro e pagar o que estiver atrasado. Segundo me conta, nestes dias os passageiros fazem fila nos terminais e pontos de estrada, uma pressão tão grande por partir que, não raro, acaba em briga apartada pela polícia.
Nos outros meses, quase a maioria do ano, segue a seca de venda de passagens e a queima do que se guardou nos meses de bonança. Nesse vai e vem, me conta, não sabe se terá dinheiro para trocar aquele carro que, visivelmente, está se acabando entre o pó da rota diária. E se fosse somente essa a incerteza...
Tanta secura onde há tanta fartura de tudo.

Messias resume bem o povo que vive ali, pequenas tristezas que se perdem na vista e somem diante da beleza indescritível do Araguaía, securas de vida que fazem surgir pessoas duras e forjadas no trabalho, a necessidade de viver e sobreviver, ainda mais diante de tanto esquecimento e descasos de quem é oficial.
Olhares perdidos na balsa entre Xambioá e São Geraldo resumem tudo: mesmo diante de tanta beleza, a testa não deixa de demonstrar preocupação e a dureza da vida que os ronda.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Enquanto isso, no interior do Pará...

A chegada assusta.

Cerca de 20 homens fortemente armados com metralhadoras, fuzis, pistolas e revólveres, entre PMs e agentes da Susipe, todos tensos, descem de um Gol prata e um Fiat Stylo vermelho descaracterizados que acompanham o camburão. Do lado de fora, mais um Gol preto, igualmente descaracterizado, com mais quatro PMs.

As ruas ao redor do forum são completamente isoladas com cones, cordas e barreiras de metal e madeira: ninguém entra e ninguém passa, e acho mesmo que ninguém quer chegar perto do perigoso circo. Em cada um dos muros laterais do se posiciona um PM armado com fuzil, pronto para qualquer coisa e em constante atenção. Nas poucas e miseráveis casas que ficam em frente, muitos curiosos se debruçam nas janelas para ver o espetáculo.

No pátio de entrada do forum, amigos e familiares dos presos esperam por horas na esperança de ver e falar, mesmo que de longe, com aqueles que há muito estão afastados do convívio diário por conta do crime. Além deles, lá estão também as testemunhas e advogados dos réus presos, em um canto mais distante conversando em voz baixa.

O clima é tenso e não poderia ser diferente: dentro do camburão está parte do bando que entrou armado em Garrafão do Norte, cidade pequena no fim da linha de uma estrada, e a fez refém. Buscavam assaltar um posto bancário e conseguiram parar a cidade com tanta bala que dispararam. O bando que é capaz de tal ousadia pode muito bem providenciar tentativa de resgate igualmente violenta e absurda.

O assalto ao Posto Bancário foi em fevereiro de 2010, por volta de 08 h 30 min. Os assaltantes não pediram para entrar, simplesmente explodiram a porta giratória da entrada com tiros de escopeta e pistola. Já dentro, distribuíram farta munição em todas as direções. Entre gritos e palavrãos, o teto e as paredes foram crivados de balas, além de móveis e pessoas, marcas que ainda permanecem no local de forma incômoda, e na memória das cicatrizes.

No final, pegaram as armas dos vigilantes, mais 150 mil reais, e ameaçaram todos de morte caso tentassem alguma coisa. Sairam atirando a esmo no meio da rua, na Praça da Prefeitura cheia de gente, para intimidar qualquer possibilidade de perseguição ou reação. Foi um corre corre geral, cada qual querendo se esconder o mais distante possível, e assim conseguiram fugir com os reféns expostos na caçamba da caminhonete.

Fizeram o coordenador do posto, mais dois segurança de reféns, e rodaram com eles por cerca de 20 minutos. No final, aterrorizados, os coitados foram largados em uma das marginais da estrada de Capitão Poço. Finalizaram com um "agradecimento" ao bancário: "o senhor é um cara bacana. A gente ia ontem na sua casa pegar sua mulher e sua filha, mas preferiu vir aqui fazer o serviço."

...

Só de lembrar ele treme, diz que fica nervoso e que não entende como ser bancário no interior do Estado se tornou tão perigoso.

Após 37 anos em serviço entre Capitão Poço, Xinguara, Redenção e Garrafão, ele conclui: "Só recentemente percebi que há algo estranho no meu ouvido. Ele zumbe em algumas ocasiões. Foi culpa desses caras: me apressando para tirar o dinheiro do cofre deram um tiro bem do lado do meu ouvido, só para intimidar. Eu achei que tinha sido atingido a queima roupa..."

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- O que devo falar?
- Eles vão te perguntar sobre o assalto. Se souber, responde. Se não souber, não tenha vergonha e diga claramente 'não sei'. Se tiver dúvidas, diga isso ao juiz antes de qualquer resposta.

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Segundo o funcionário, quando é lançado alerta vermelho de assalto, a PM ajuda muito. Algumas vezes, quando podem, providenciam escolta entre Capitão Poço e Garrafão. Ou então, colocam uma viatura na frente do posto. Não dá para fazer sempre assim, a PM que acaba resolvendo quase todo o tipo de bronca nesses interiores, e mesmo que se providencie escolta entre as cidades, e mesmo que se plante uma viatura em frente ao posto, existe a certeza de que um novo assalto vai acontecer, isso é certo, faltando responder somente o quando.

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- E sua casa, tem algum esquema especial?
- Meu esquema é Deus, só Deus! Não tenho como pagar vigilância e nem o Banco pode pagar para todos seus funcionários. Também não quero a possibilidade de tiroteio em casa, um vigilante contra assaltantes e minha família no meio. Se eles vierem, e eu sei que essa chance existe, que venham em paz, façam o que precisam e partam sem confusão.

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- Na noite anterior ao assalto, percebi a S-10 preta me seguindo. Foi o mesmo carro usado no dia seguinte. De noite, quando percebi que havia algo estranho, liguei para minha esposa e disse: 'quando vir meu carro embocar na rua, abre o portão bem rápido e assim que eu entrar feche mais rápido ainda.' Chegando na frente de casa fiz uma curva fechada e entrei com velocidade. Minha mulher estava assustada, sem entender nada, e ainda percebeu o carro preto no início da rua já dando a volta. Ela me pediu cuidado e quase não dormiu de noite.

...

A audiência começa na Sala do Juri: além dos advogados, juiz, promotor e serventuários da justiça, oito PMs e dois agentes da Susipe. Em seguida entram as testemunhas de acusação, todos muito assustados, e logo se sentam no local pré-determinado na plateia. Para a leitura da denúncia, entram os cinco réus em fila indiana e fortemente algemados, em uniformes azuis e laranjas quase sem cor. Os agentes de segurança, de forma instintiva, levam as mãos às armas e redobram a atenção. As testemunhas, que estão ali com o dever de incriminá-los, abaixam as cabeças intimidados e ficam em silêncio.

A leitura da denúncia é maçante e cheia de informações minuciosamente colhidas durante quase um ano. Quase ninguém presta atenção, até porque os que deveriam tirar algo de importante dali já a conhecem de cor e salteado.

...

No final, testemunho prestado, todos se sentem aliviados com o término do terror: os presos voltam a ser colocados no camburão, mas ainda conseguem enviar sorrisos e beijos aos parentes que choram de saudade, e que esperavam desde tão cedo na parte de fora do forum.

Em seguida, forma-se a fila de carros caracterizados, carros descaracterizados, todos os homens armados em estado total de atenção, o medo constante de um resgate que provavelmente pode significa a vida de todos - até mesmo dos bandidos, eis que nunca se pode excluir uma queima de arquivo.

Levantadas as barreiras postas no meio da cidade, tudo parece voltar ao normal, inclusive o medo, quase certeza, de que não demorara muito para que o terror volte a se instalar, mais uma quadrilha ousada em busca de riqueza fácil num bangue bangue urbano.

sábado, 25 de maio de 2013

As três meninas


São três as meninas bonitas no barco, morenas que podiam representar qualquer lenda amazônica que envolva mulheres bonitas. Morenas de cabelos longos e negros, lisos, e no rosto a certeza do local onde nasceram, herança genética que nunca poderão esconder.
São três as meninas bonitas no barco que não viajam sozinhas: duas são acompanhadas por um estranho tio, figura que bem poderia representar qualquer estereotipo do submundo humano; a outra é seguida de perto por uma tia-cão-de-guarda, senhora gorda e sebosa que fuma um cigarro atrás do outro.
São três as meninas bonitas no barco que seguem caladas, mas com os rostos cheios de esperança, sempre sentadas de forma obediente ao lados dos seu tutores que bebem muito e fumam muito.
São duas as histórias que contam, tão repletas de felicidades que dificilmente se pode acreditar.
É somente um o destino: o Suriname.
Duas vão visitar a mãe, enquanto a outra pretende reencontrar um namorado. Quando se pede mais informações surge a explicação do tempo passado que tudo apaga da memória, desculpa perfeita dos que querem calar: a mãe se mudou quando elas tinha 12, 11 anos, então nada se lembram. O namorado já esta fora desde 2010, então nem sabe como será o reencontro. A vagueza das respostas, impregnadas de receio, é observada com discreta aprovação pelo tio e tia que só faltam balançar a cabeça diante do que parece ser o bem mandado.
São três as meninas bonitas no barco, todas muito novas em seus 18 19 anos, meninas já em corpo de mulher que fazem virar cabeças e despertam olhares cheios de inveja.
São três as meninas bonitas no barco que vão tirar passaporte em Santarém. Depois de breve escala em Belém, partirão para uma vida nova em Suriname, e me lembro dos rostos cheios de esperança, o Suriname afamado por verter juventudes e vidas de mulheres jovens, quase sempre brasileiras, local de muito garimpo e, por consequência, de muitos homens solitários que desejam sempre mais e mais mulheres bonitas e jovens, igual às três meninas bonitas e jovens que seguem neste meu barco.
As sombras no Tapajós escondem muitas coisas que o Tapajós
prefere não ver...
Que sejam felizes! Que tenham sorte!
E que o mundo não seja demasiadamente cruel com seus sonhos e esperanças.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Leão III


Por mais que, aparentemente, não haja ordem alguma no amontoado de barcos ancorados no cais de Santarém, é fato que existe uma organização que passa despercebida aos meros mortais, talvez fruto de anos de sabedoria e entendimento entre o rio e os homens. Basta abordar qualquer pessoa, informar seu destino e logo lhe serão dadas todas as opções de transporte disponíveis.
O Leão III, barco valente.
Foi assim que cheguei ao Leão III, barco típico da região Norte do Brasil, que comumente chamamos de gaiolas. Não há grande fuga à regra: barcos de madeira, geralmente pintados de branco, em contraste com outras cores extremamente vivas, com amplos espaços para atar redes e poucos camarotes. No caso do Leão III, que faz o trajeto entre Santarém e Itaituba, com escalas em Aveiro e Fordlândia, são dois déques apinhados de coletes laranjas, além de barras de ferro azuis, com ganchos, nos quais serão penduradas as redes que logo aflorarão por todos os lados. 
As redes no Leão III no déque superior - neste momento ainda
eram poucas.
No déque superior se localizam quatro camarotes para passageiros, compartimentos duplos, com beliches e ar condicionado, espaços quase sem espaço em apertadura surpreendente que assusta em primeira vista, mas que se revela acolhedor ao longo da viagem. A completar a estrutura do barco, um refeitório (com PF custando 10 reais), uma lanchonete (onde uma Coca em lata custa assombrosos seis reais), um vasto porão e camarotes de tripulação localizados bem acima da trepidação barulhenta do motor, no déque inferior.
O camarote 4 do Leão III - não se deixe levar pela imagem.
Ele é bem melhor do que aparenta.
Aqui há de tudo: há doentes que terminam tratamento em Santarém e voltam para casa, há pessoas que vão visitar parentes, além dos muitos que, acostumados com o vai e vem da vida, trabalham numa ponta ou outra do caminho. Algumas histórias chocam, como a senhora beneficiada do TFD, Tratamento Fora do Domicílio, que se trata no Regional de Santarém e faz regularmente a viagem pelo rio. Ela sofre de graves problemas na tireoide e recebe somente as passagens de barco. Somente isso. Hospedagem e alimentação ficam por conta dela, que faz verdadeiro malabarismo para seguir adiante com o necessário cuidado médico. Suas reclamações são muitas: desde a confusão na marcação de exames, o que já a obrigou a arcar com muitos deles com dinheiro tirado sabe-se lá de onde; até o médico, que sabendo vir a paciente de longe, se dá ao direito de faltar ao trabalho por razão qualquer. Quando a conheci, havia sido exatamente assim: consulta marcada com antecedência, viagem realizada e médico ausente. E volta a paciente no mesmo pé para sua casa, já que não tem onde ficar, e nem como pagar um hotel ou comida, uma vinda totalmente perdida.
O Leão III singra pelo rio Tapajós, um dos mais belos e mansos que já vi. O barco quase não balança no rio de poucas ondas, diferente dos trajetos ao Marajó, seja para Soure ou Salvaterra (com uma baia terrível no meio do caminho), ou para Afuá, pelo outro extremo (com duas baias terríveis no meio do caminho).
O rio só balança quando chove, explica a senhora responsável pela lanchonete e pela caixa de som que cospe tecnobrega em último volume. Ela diz que muitos já se machucaram para valer no balançar quase assassino de quando chove, movimento que joga as redes com violência contra paredes e pilastras. Hoje temos calmaria, para nossa felicidade.
A risonha vendedora da lanchonete, sempre pronta ao bom papo.
Apesar da beleza do Tapajós, pouco se vê dá margem tão distante, o rio que, em lugar comum, comparamos sempre com o mar. As margens ficam longe, distantes da vista, o que também faz ficar longe o ribeirinho e sua miséria, população praticamente à margem de tudo e todos, dependente somente de si para sobreviver da forma que der. E se não vemos as margens, vemos o ocaso no rio, assim como veremos o nascer do sol que promete ser único, em luz que só deve existir aqui no Tapajós.
A luz no Tapajós é única. Nenhum outro lugar apresenta cores
iguais às do Tapajós
Também há experiências que não podem passar batidas, que deveriam ser experimentadas por todos que aqui habitam para que pudessem entender bem o que é o Norte:
Estar num barco aparentemente frágil, em rio enorme de vista sem fim, de margens perdidas no horizonte, embarcação pontilhada de redes de diferentes panos, cores e tamanhos, diferenças que remetem aos seus donos, uns índios, outros caboclos, uns portugueses, ricos ou pobres, saudáveis ou doentes, todos em comunhão de espaço e em perfeita harmonia, as redes que balançam em unidade como se empurradas por mão única, invisível e divina; tudo envolvido pelo cheiro bom de comida caseira que sobe do refeitório, onde ficamos ombro com ombro, não importando quem somos, todos juntos apreciando a boa refeição, mas também a segurar o prato que treme de forma alucinada por conta da trepidação do motor - e lá estamos bem acima do motor, de onde vem o cheio de diesel que se mistura com o cheiro da carne assada e do frango guisado. O refeitório do Leão III não permite apreciar a comida, que bem merecia ser apreciada pela sua simplicidade, honestidade e tempero único, o local de tremores mecânicos que só motiva o mastigar veloz para que possamos nos liberar da fome e fugir para áreas mais aprazíveis da embarcação, tudo embalado pelos acordes agudos do tecnobrega que abraça a todos, a caixa de som enorme prostrada no balcão da lanchonete, vomitando amores perdidos em traição, e que embala os que miram de forma automática o horizonte, olhar vazio, a música alta que não possibilita pensamento interno ou íntimo, tudo regado por latas de cervejas e mistos-quentes vendidos a preços absurdos àqueles que não têm muitas opções.
Entrada do Camarote 4, meu lar nas 18 horas de viagem entre Santarém e Itaituba.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Como explicar?

Chega a amiga de São Paulo e informa o desejo enorme de voltar ao Marajó. Se der, quem sabe?, até alongar a ida e visitar a casa onde nasceu Dalcídio Jurandir em Cachoeira do Arari. A primeira pergunta feita é: "como andam os assaltos aqui na região, aquelas histórias horríveis sobre piratas?" Quisera eu poder responder que tudo anda calmo, que nada mais acorre que justifique qualquer preocupação, mas tive que ser sincero. Disse que vez ou outra ainda ocorrem assaltos, vez ou outra ainda surgem histórias de crimes cometidos por Piratas, os Ratos d'água, e completei pedindo que eles viajassem pela parte da manhã e que tudo correria bem.
Infelizmente é isso que corre por aí, as notícias do Pará e de Belém que sempre falam de problemas, mortes e total descrença numa terra em que possamos viver em paz.
E bem... A amiga viajou, curtiu o Marajó e viu que a casa de Dalcídio foi derrubada... Na volta, hoje, foi ela quem me deu a notícia de mais um assalto nos rios do Pará - destaque regional na página pricipal do G1. Nas palavras do encarregado da balsa, “eles foram só assaltar. Eles acabaram, soltaram a gente e foram embora. Saíram como se nada tivesse acontecido. Infelizmente é comum as embarcações serem assaltadas na região. Já fomos assaltados outras vezes”. Smples assim... E seguimos nos acostumando com essa vida, com essas notícias e crimes. Ser vítima neste Estado é normal, já fomos assaltados outras vezes. Felizmente a amiga ama o Pará mais do que ama sua terra, ou então eu ficaria gago de vergonha tentando explicar que isso por aqui é normal, e que não fosse embora levando uma ideia ruim do Estado, a gagueira típica dos que ficam sem explicação para dar diante dos absurdos da vida nessa terra.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Sinfonia na TransBrasiliana

Comecei me assustando com um ônibus moderníssimo, bem diferente dos veículos que geralmente fazem a rota Belém-Garrafão do Norte. Mas a felicidade pela viagem aparentemente mais confortável logo desapareceu quando várias telas se abriram do teto e, tal qual um avião, descobri que o ônibus novo estava equipado com um completo sistema de entretenimento. Levando em consideração o gosto musical quase massificado de motoristas e cobradores, certamente aquilo se revelaria uma desgraça, o que não demorei a comprovar.
A primeira obra audiovisual foi de um grupo chamado Limão com Mel, a gravação ao vivo do primeiro DVD deles: eram músicas que nunca ouvi, cantadas por pessoas que não sei quem são, tudo isso num local enorme, tal qual um estádio de futebol. Apesar do meu completo desconhecimento, parece que o grupo faz um sucesso danado. O ônibus inteiro começou a cantar músicas sobre amor, traição, paixão e Deus - e o cobrador, esperto, aproveitou para "manicar" uma menina novinha, com cara de colegial.
Depois colocaram um DVD do Belo, pedido exaltado da senhora que estava bem atrás de mim. O Belo eu já conheço (acho que todos conhecem), se não pela qualidade musical, pelas notícias das páginas policiais. De qualquer forma, surge novamente uma dúvida eterna - qual a razão de se chamar Belo um homem daqueles?
Por fim, como se não fosse o bastante após quase quatro horas na estrada, me arranjaram um DVD do Bonde do Forro. Nem vou fazer comentários sobre essa banda, misto de forro com sertanejo, uma das coisas mais toscas que já vi ou ouvi. Mas, novamente, o problema parecia ser só meu - todos conheciam as músicas e chamavam os cantores pelo nome, tal qual bons amigos. Realmente, aho que preciso me inteirar das coisas...
Já quase chegando em Garrafão, por sorte (Sangue de Jesus tem poder!!!), o aparelho de DVD travou e nada o fez funcionar novamente. A desgraça geral da nação TransBrasliana ficou estampada em lamentos e gemidos de dor, reclamações mil pelo fim da programação "maravilhosa". Mas o cobrador, sempre ele, logo descobriu uma solução: um dos vários CDs piratas que havia acabado de comprar. Juro que, nesta hora, gelei!!
O que poderia sair dali? Que outra pérola da Música Popular Brasileira poderia surgir daquele "case" preto? Para meu espanto, ele escolheu justaente um Cd do Ritchie, algo humanamente aceitável diante das escolhas anteriores. O problema foi ter repetido umas 10 vezes Transas, de modo que "quando se quer mais, gente diz 'bye-bye'" não sairá da minha cabeça pelas próximas horas.
Amanhã, na volta, colho outras observações para dividir com vocês. E me desejem sorte.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A face mais cruel do inverno paraense

Para os paraenses, inverno significa chuva. E com esse mundo de água que tomba, os insetos conhecidos como carapanãs se reproduzem de forma alucinada e o número de nascimento chega a medições astronômicas. 
É justamente esse ciclo - muita chuva - carapanãs - reprodução e nascimento - mais carapanãs - a face mais cruel do inverno paraenses. Segundo dados recentes do IBGE, cerca de 5.000 mil carapanãs são engolidos por dia, de forma involuntária, neste período que vai de dezembro até março (não foram computados dados referentes à preferência alimentar dos entrevistados). Nos outros meses, com menos chuvas, o número de engolimentos involuntários não passa de 500, em um claro sinal de que a chuva é fator predominante.
Os relatos de acidentes envolvendo bocas desavisadas e os infelizes mosquitos são tenebrosos e fortes. Dona Maria, 62 anos, moradora do Guamá, nos conta do dia em que quase morreu vitimada por um carapanã em sua goela:
- Eu estava assistindo Ti Ti Ti com meu neto mais novo, o Raj (ele nasceu na época daquela novela), quando resolvi bocejar e senti o bichinho se remexendo  na minha boca. Ainda tentei cuspir, mas era tarde... Só deu tempo de sentir o carapanã descendo rumo ao estômago e passar mal. Pensei que ia ter dengue ou malária, fiz até exame de Aids, mas felizmente não tive nada. Nós todos ficamos muito traumatizados depois desse fato, tanto que meu neto Barruan (um pouco mais velho que o Raj) tem medo de abrir a boca até para falar. Espero que esse medo passe um dia..
Outro vitimado é o advogado Fernando Gurjão Sampaio, 32 anos, que nos faz seu relato:
- Eu estava na Fox Vídeo da Dr. Moraes batendo papo com um amigo, quando percebi que havia engolido um carapanã. Eu estava bem no meio de uma frase, falando sobre o Xanax, esse novo remédio para pânico e ansiedade, quando o bicho resolveu se matar em mergulho fatal rumo ao meu estômago. Imediatamente eu comecei a tossir, e só posso dizer que é estranho, muito estranho... Você sente as patinhas roçando na goela, aquele pedacinho de coisa nojenta tocar na sua garganta e descer... Praticamente vê sua vida passar diante dos olhos em um segundo. Se não fosse meu bom amigo ali, para me aparar e arranjar um copo de água, acho que não teria conseguido sair desta.
Apesar do drama para os paraenses, dados do DIEESE indicam que o engolimento involuntário de carapanãs movimenta a economia local e provoca o aumento na venda de bebidas em geral. Segundo Seu Joaquim, português, 58 anos, presidente da Associação de Padarias, Quitandas e Vendinhas de Bairro de Belém, a ASPAQUIVENBAIBEL, são frequentes os pedidos desesperados de água ou refrigerante usando o engolimento involuntário como desculpa:
- Oh Pá. Isso é um facto facilmente constactável. Basta que fiques a passar uns poucos minutos à beira do balcão, na bicha, para veres que não falo inverdades!
Nenhuma fonte da Prefeitura de Belém ou do Governo do Estado se manifestou sobre o grave assunto, mas é certo que poucos são os que ainda ousam abrir a boca, em longos bocejos, diante de tão perigoso inimigo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Só sendo paraense para entender o texto!

"Um dia eu tava buiado, pensei em ir lá em baixo comprar uns tamatás.Tava numa murrinha, mas criei coragem, peguei o Sacrabala e fui. Cheguei tarde e só tinha peixe dispré. O maninho que estava vendendo tinha uma teba de orelha do tamanho dum bonde. O gala-seca espirrou em cima do tamatá do moço, que tinha acabado de comprar, e no meu tembém. Ficou tudo cheio de bustela...Axiiiiiii, porcaria! Não é potoca, não. O dono do tamatá muquiou o orelha-de-nós-todos, mas malinou mesmo. Saí dalí e fui comer uma unha. Escolhi uma porruda! Mas égua, quase levei o farelo depois. Me deu um piriri. Também... parece leso, comprar unha no veropa. Comprei uns mexilhões, um cupu e um pirarucu muito firme, mas um pouco pitiú. Fui pra parada esperar o busão. Lá tinha duas pipira varejeira fazendo graça. Eu pensando com meus botões...Êeee, já quer... Mas, veio um Paar-Ceasa sequinho e elas entraram... Fiquei na roça, levei o farelo. O Sacrabala veio cheio e ainda começou a cair um toró: égua-muleke-tédoidé, pense no bonde lotado. No sacrabala lotado, com o vidro fechado por causa da chuva, começa aquele calor muito palha. Uma velha estava quase despombalecendo. Dai o velho que tava com ela gritou: arreda aí menino pra senhora sentar aí do teu lado. Eu só falei: Hmm, tá, cheiroso..."
Enviado pelo Adriano Diniz. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Resta a reza

T é vigilante de uma agência bancária no interior do Pará. Por conta de sua profissão, já vivenciou dois assaltos - um em 2009, outro em 2010 - sendo que em ambas as ocasiões ele foi feito refém e bastante humilhado. Segundo me relatou, o 1ª assalto foi obra de profissionais (e por isso ele agradece todos os dias). Já no segundo, ele e os demais tiveram que contar com a sorte: inexperientes e nervosos, os bandidos crivaram a agência com tiros de espingarda calibre 12 mas não atingiram ninguém.
Quem julgar T pela aparência terá dificuldades em crer na sinceridade e reconhecimento de seus medos. Mas o homem alto e corpulento, com cara de poucos amigos, armado e vestido com o colete é capaz de assumir seu pavor diante da chegada de pessoas estranhas sem maiores problemas.
Ele relata que fica 'branco como essa parede' (e nesse ponto ele mostra uma das parede com marcas de bala), com o coração na boca ao notar a aproximação de carros desconhecidos - 'principalmente as caminhonetes, as S-10, que são as preferidas dos bandidos', explica.
É por pouco mais de 800 reais que ele deixa, todos os dias, mulher e filhos em casa em rezas e pedidos constantes de proteção, todos eles em angustiante espera por um novo assalto - e um novo assalto é questão de tempo!
A cidade e os arredores estão sob a rigidez do chamado 'Alerta Vermelho' da Polícia Civil. Significa que todos os bancos tiveram vigilância redobrada por conta de informações sobre uma quadrilha que ronda aquelas paragens. Os bandidos só aguardam o momento certo para praticar mais um roubo, e a polícia faz sua parte, tenta identificar suspeitos e lança alertas (naquele exato momento, por exemplo, todos se inquietavam com um suposto Corolla vermelho. Mesmo eu, o advogado de Belém que andava com uma sacola enorme - a inseparável máquina fotográfica, fui visto com olhos estranhos e desconfiança).
Enquanto isso, é T quem vigia a porta de entrada da agência, ele o escolhido para prestar o primeiro combate ou a primeira rendição.
Após o assalto de 2009, a empresa na qual trabalha não ofereceu qualquer espécie de benefício. Já no 2º, o mais traumatizante, disponibilizaram uma psicóloga em Belém, e eles tiveram somente um encontro: 'não tinha como pagar pelas passagem e não tenho onde ficar lá. Ela me ajudou, mas ela está lá e eu estou aqui. Preferi deixar de lado'.
Foi T quem se responsabilizou por estar cedo no local do crime nos dias seguintes aos roubos, a necessidade de se abrir o estabelecimento para contabilizar os prejuízos. 'Depois da segunda vez, pensei seriamente em abandonar o serviço e procurar outro emprego. Mas não posso, nenhum lugar vai me pagar o que pagam aqui. Mas se tiver outro assalto mesmo, um terceiro, e eu sobreviver, juro que não volto no banco'.
E enquanto isso, na pequena cidade de pouco mais de 20 mil habitantes, cercada pelo receio e pela desconfiança, sobram a todos rezas e pedidos de que tudo termine bem.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mais de Conceição

Caros leitores,
Lendo o relato sobre a odisséia de Conceição, poderão ver que tive umas poucas horas para fazer fotos da cidade. Foi esse o momento de praia. Realmente são fotos que não combinam com o que foi relatado, mas creiam na veracidade do que escrito e na beleza da cidade. E fiquem com mais fotos, para convencer de vez.
Chegando nas ilhas do Araguaia

Aqui se anda de carroça, aqui se anda de carro grande
Rede na beira do rio Araguaia
Meu barqueiro - Wanderwaldo, o pequeno da voadora
Cabana onde paramos para tomar uma coca - rio Araguaia
Menino em uma das ilhas do Araguaia
Menino apontando - em uma das ilhas do Araguaia
No meio do rio, da ilha, uma bicicleta
A casa do barqueiro
A casa do barqueiro e o nada (ou o tudo)
Barco abandonado com barco vivo ao fundo
O barco descansa
O barqueiro, o barco e o Araguaia
Pássaro toma banho e pega sol
Meninos tomam banho e brincam, felizes
Lua em Conceição do Araguaia


sexta-feira, 21 de maio de 2010

No aeroporto

Incrível como certas coisas acontecem - sem combinar nada, encontro o Alexandre Lima, primo querido, que vai no mesmo vôo. E ainda terei oportunidade de me despedir do amigo Marcos Castello, que vai embora de Belém, morar em Santarém.
Na mala, pequenas coisas para a Elis Marchioni, Jane Murback, Maick, Gustavo Viana e Brito Neto - seis litros de tucupi, um quilo de camarão, dois litros de farinha de tapioca, um quilo de doce de cupuaçu, maços de jambu e chicória, pimenta de cheiro, bombons de cupuaçu, bacuri e castanha, cheiro do Pará, mel de abelha de Curuçá, pupunhas e um quilo de castanha do Pará.
Bem certo que quase tudo isso é para a Elis, a única que me fez pedidos, dona quase que única do isopor de 37 litros que levamos. Mas se alguém quiser os quitutes, está convidado para o café da manhã nesta sexta-feira, dia 21 de maio, na casa da Elis (estou convidando todo mundo, viu Elis?).
É isso!
Depois mandamos notícias mais quentinhas.

terça-feira, 18 de maio de 2010

O Posto 21

Para o teimoso, nada parece teimosia. Sempre com um motivo fundamentalmente cheio de razão, o teimoso finca o pé no terreno do ilógico, segue seu caminho, e não adianta que lhe digam, lhe alertem ou peçam uma simples reconsideração. Aos olhos do teimoso, sua razão é absoluta e nada é capaz de demover-lhe de seus planos. Eu, por exemplo, tenho plena noção de que sou teimoso. Mas só percebo essa característica quando, já arrependido, pondero e penso que podia ter escutado e tomado a decisão com mais calma. Escrevo tudo isso para explicar como me vi perdido, por volta de onze horas da noite de uma segunda-feira, em um trecho escuro e molhado da BR-316.

Na terça-feira, 03/05/2010, pela manhã eu teria uma audiência no município de Igarapé-Açu, longe uns 120 quilômetros de Belém. Em tese, e somente em tese, eu conseguiria percorrer essa distância em cerca de duas horas – informações que me foram passadas pelo GPS do Iphone. Mas como a audiência era cedo e eu não conhecia o caminho, optei por dormir na cidade e, com calma, acordar tranquilo e em paz. Estava decidido: após resolver uma série de pequenos problemas, pegaria a estrada ruma à terra do grande igarapé. E como quase nada sai como planejamos, os probleminhas se alongaram, mais problemas foram aparecendo, e acabei saindo de Belém às nove da noite, chuva farta por todo o canto, chuva chata que me acompanharia por todo o trajeto.

Aqui faço importante observação – o GPS me mostra o caminho mas não me dá referências. Assim, resolvi ligar para quem conhecia o caminho e me informar. Todos foram enfáticos – “Ah, amigo! Não te preocupa. Basta seguir na BR e pegar a PA-127 que fica bem ao lado do Posto de Combustível 21, depois de Castanhal. Segue reto nesta estrada do Posto 21 e, depois de uns 20 minutos, estarás em Igarapé-Açu.

Me sentindo confiante – imaginando esse Posto 21 como algo nababesco, verdadeiro marco a servir de referência, iluminações mil na beira da estrada – seguia pela BR tranquilo, sem nem me preocupar muito com a obrigação de procurar. Passei Benevides, Santa Izabel, Castanhal e, enfim, deveria me deparar com o afamado Posto 21. No GPS vi o pontinho azul que era eu seguir reto até passar pelo lugar onde deveria estar a PA e, consequentemente, o Posto… Nada. A estrada era só breu e chuva. Mais adiante, uns 20 quilômetro, já em Santa Maria do Pará, parei. Encostei em um posto da Polícia Rodoviária Federal e pedi orientação a um desconfiado Policial. Ele me disse que tinha passado a PA, que ficava logo atrás! “Mas meu senhor… Juro que vim prestando a maior atenção, mas não vi nada. E vim tranquilo, procurando um Posto 21, o senhor conhece?“ O que daria para ele não ter feito aquela cara de pena: “Mas você não viu o Posto 21!? Ele fica bem ao lado da estrada. Achou um, achou outro“ Ciente de que havia feito besteira, me resignei e voltei. Abri as janelas me submetendo a uma molhadeira geral, a chuva que não passou desde Belém, e fiquei atento. Olhos de lince, pouca velocidade, dirigi, dirigi e nada encontrei. Será que a referência que todos me davam, o Posto 21 ,que deveria ter ao menos uma dúzia de lâmpadas, havia sido tragado pela escuridão? Pelo GPS acompanhava, tristonho, meu pontinho azul avançar a passar por onde deveria estar a estrada. Passei novamente! Mais adiante vi um grupo de caminhoneiros parados, acho que reparando o defeito em um dos veículos que seguia em comboio – “Amigos, estou perdido! Quero chegar em Igarapé-Açu mas não encontro a PA-127. Podem me ajudar?“ Dito isso, imaginem a raiva e frustração que senti quando todos, coro mais do que perfeito, responderam a uma só voz: “Do lado do Posto 21, não tem erro!

Resolvi voltar com menos velocidade ainda, a vergonha ao imaginar não encontrar, mais uma vez, a dita estrada, e acabar novamente no posto da Polícia Rodoviária Federal, a cara de pena que me fez o Policial possivelmente transformada em cara de desprezo diante de minha incapacidade de encontrar a estrada.

Janelas abertas, chuvaral que entrava, o painel marcava 40 quilômetros/hora e a escuridão castigava meus olhos já cansados. Tenso, olhava cada palmo da estrada como se disso dependesse minha vida. De repente, não mais que de repente, no meio do breu vislumbro um prédio acanhado, nada de muito grande, nenhuma luz que pudesse sinalizar vida ou a possibilidade de informação. Decidi entrar e ver o que era e, para meu espanto, me vi no pátio de abastecimento do que devia ser o tal Posto 21. Maldição! Mil vezes maldita a imaginação humana que te faz crer no palácio iluminado à beira da estrada, as setas luminosas que indicariam o caminho. E ali estava eu, em um acanhado posto de combustível, cheio de nada e sem luz qualquer.

Menos ruim que, agora, bastava encontrar a estrada que deveria estar ali do ladinho, nada mais certo. E da fato ela estava lá, cheia de buracos, sem nenhum poste que me aluminasse a frente, a chuva que não parava de molhar o caminho e os olhos que pediam descanso. Não preciso dizer que pela curta estrada não encontrei uma placa seguer, nenhum rabisco em muro qualquer que me confirmasse estar seguindo no rumo certo. E como não tinha opções, segui.

Dentro em pouco cheguei em Igarapé-Açu, a estrada fantasma que ficou para trás, viv’alma que não vi durante todo o trajeto. O Hotel do Salles foi fácil de encontrar, um mundarel de placas que lhe fazia propaganda e me indicava o rumo certo.

Me registrei e, já no quarto, mais um susto: ”onde está meu paletó?” Irremediavelmente pessimista, achei que minha “beca” tivesse voado pelas janelas, a maior parte do caminho abertas, a desgraça de me imaginar sem roupa para o dia seguinte. Revirei tudo, me enfiei por todos os recortes, reentrâncias e buracos do carro e nada. E quando já estava prestes a voltar na estrada, a esperança do burro que acha possível encontrar a roupa perdida, me aparece o recepcionista com a farda sumida na mão, dizendo: “Doutor, o senhor esqueceu seu terno na recepção“ Alívio! Nem tudo estava perdido.

E foi deitado em minha cama, no quarto cheio de osgas brancas, que cheguei a essas conclusões. Do que adiantou ser teimoso, ir contra todos e partir no meio da noite, chuva e escuridão que me fatigaram ao ponto de, no hotel, dormir quase desmaiando. A perdição no meio da estrada desconhecida e o GPS que, de tão inteligente, se cala quando você mais precisa. De tão tenso, durante todo o caminho não pensei em minha teimosia. Mas juro que refleti um pouco quando o escuro serviu para me relaxar, os olhos que finalmente descansariam e a chuva que batia no telhado e não me molhava mais.