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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Um poema após Auschwitz

Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de porque se tornou impossível escrever poemas” 
Theodor W. Adorno.

sábado, 31 de julho de 2010

Disk-Silêncio - Diz que serviço

Por volta de 16 horas de hoje (sábado) voltei para casa. 
Logo da frente do prédio pude escutar a festança que acontecia no quarto ou quinto andar. Neste ponto, acho importante lembrar que estou parcialmente surdo por conta do episódio da cera - mas mesmo assim escutei o grande barulho que se fazia. 
Pela distância não pude precisar o quão alto era o som, medição que só pude fazer do hall do elevador. Conclusão: estava realmente alto. Quando cheguei no meu andar, o sexto, o barulho era insuportável (e mais uma vez, não custa lembrar, estou parcialmente surdo). 
Tratei de procurar o telefone do Disk-Silêncio - serviço oferecido à população pela Delegacia do Meio Ambiente, DEMA, da Polícia Civil do Estado do Pará -, liguei e fui atendido pelo investigador Kleber. Solícito, me disse que logo passaria no prédio e resolveria a situação.
Eram 16:53.
Nenhum carro da polícia apareceu por aqui desde então. 
Por volta de 18:58, duas horas depois do primeiro telefonema, fiz nova ligação.
Desta vez atendeu o investigador Cláudio. Disse-me não saber nada da primeira reclamação, que o investigador Kleber não havia lhe passado nada, mas pegou os dados novamente e disse estar bem perto de casa, que logo viria. Disse também que verificaria a situação e perguntou pela síndica. Respondi que, obviamente, a síndica não havia feito nada ou os vizinhos se recusavam a desligar o som, e que eles eram minha última esperança em busca do silêncio, os vizinhos que festejavam com urros e uivos (isso mesmo, uivos!).
A viatura da DEMA chegou por volta de 19:02. Estacionou na frente do prédio e desceu um senhor que pressuponho ser o tal investigador Cláudio. Chamou o porteiro e conversou com ele por exatos 40 segundos. Foi justo tempo de o motorista da viatura fazer a volta na rua. Feita a manobra,  papo batido em pouco menos de um minuto, o investigador entrou na viatura e partiu.
São 20:45 e a situação é a mesma - som altíssimo, músicas estranhas, gritos raivosos, urros e uivos; palavrões e muita baderna. 
Um pouco antes de decidir escrever este texto, os tais vizinhos ligaram um karaoke e cantaram, seguidas vezes, a música "Poeira" da Ivete Sangalo. Devem ter cantado, no mínimo, umas oito vezes.
Não sei qual a verificação o investigador fez, nem sei o que conversou com o porteiro. Só sei que mais vale fazer coisa errada, fazer barulho e perturbar a vida dos outros, pois estes, pelo menos, não são incomodados.
E quem se incomoda com o barulho, eu ainda com o ouvido tampado a amenizar a baderna, que procure um canto quieto longe daqui. Eles ganharam, invadiram a nossa praia, e os incomodados que se mudem, não é?

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Convite ao Prefeito Duciomar

Aos que moram em Belém nem preciso apresentar a Pariquis, rua prima de rio, uma chuvinha que basta para fazê-la um mar da água e lama. Aos que não moram em Belém e não a conhecem, aqui vão algumas fotos para que possam ter breve idéia do que digo. Já convidei o Prefeito Duciomar para passar uma chuvinha aqui na Pariquis, mas acho que ele tem medo de se molhar.
Tal qual Jesus, sob as águas...
Impasse 1: "O que fazer?"
Impasse 2: "por onde é melhor?"
O motoqueiro chegará na África, tenho certeza.
Elas andam e nem ligam mais para o alagamento. É rotina.
Esse já foi preparado com a piscina.
Novo Uno - aquático. FIAT - sempre inovando.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sobre Seffer 02

Seffer foi condenado a 21 anos de prisão por ter abusado sexualmente de uma menina. Uma garota de nove anos que estava sob sua guarda. Seffer foi condenado mas está tranqüilo: ele sabe que não será preso.

Depois que o STF decidiu sobre a presunção de inocência ninguém mais será preso por estas bandas. Mas isso desde que você não seja preto e pobre. Se for preto e pobre, sem dinheiro para pagar os advogados medalhões da vida, pode contar que vai para a cadeia. Vai sim. E não importa a alegação de furto famélico, um mísero ovo levado. Ninguém se comoverá. Furte um ovo, uma lata de leite que seja, e passe anos e anos no presídio mais próximo de você. Isso desde que você seja preto e pobre, claro.

Mas se você for rico, fique tranqüilo. A história é outra. Seffer, por exemplo, está tranqüilo. Hoje, na vergonha que vem assolando Belém, armaram de fazer uma manifestação pro-Seffer. Manifestantes marcharam pelas ruas da cidade velha com cartazes e gritos de guerra. Distribuíram panfletos apócrifos sobre a situação, que você pode ler abaixo. Os jornalistas que cobriam a manifestação foram atacados com insultos e foram vítimas de agressões.

Esse argumento me lembrou de outros, bem parecidos, aqueles que tentam justificar o crime passional e o crime motivado pela vítima. Como aceitar que Doca Street tenha matado Ângela Diniz alegando ciúmes e que, com essa alegação, tenha buscado se safar? Como aceitar que se estupre e alegue, como justificativa, a saia curta da vítima? Como aceitar que, agora, a culpa do abuso seja da abusada?

Hoje em dia no Brasil, sendo rico e tendo bons advogados, basta isso! Ninguém mais é preso e ainda se ganha manifestação favorável, com fogos de artifício e tudo.

E nesse Brasil machista em que vivemos, é possível que tudo acabe assim: a menor abusada vai acabar presa por todos os hediondos crimes cometidos, listados no panfleto abaixo.

Ou você ser estuprada e acabar condenada por ter causado o crime, a saia muito curta que deixou o violador muito excitado ao ponto de não conseguir se conter.

Ou você ser assassinada pelo homem que te ama muito e não consegue te ver com outro...

Juro que não entendo mais a lógica das coisas.

Sobre Seffer 01

Me foi enviado pela Tainá Aires (@tainaaires), reporter que cobria a manifestação.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A nova Arca de Noé


Robert Gabriel Mugabe é Presidente do Zimbábue desde 1980. Chegou ao poder por meio do voto e desde então vem centralizando o poder em suas mãos, esmagando opositores e desenvolvendo uma ditadura deslavada, das muitas que brotam em solo africano. Mugabe não é um leigo, um simples chefe tribal sem conhecimento das coisas - ele foi professor primário no Zimbábue (antiga Rodésia), Zâmbia e Gana, tem diploma em Inglês, História e Educação em algumas das melhores universidades da África e obteve licenciatura em Economia na Universidade de Londres. Sua ditadura teve inspiração marxista, convenientemente abandonada logo após a queda da União Soviética. Dito isso, repito - não se trata de um leigo. Seis meses após chegar ao poder, em outubro de 1980, como forma de esmagar de maneira mais contundente seus adversários, Mugabe pediu ajuda a um de seus colegas, o então Presidente da Coréia do Norte, Grande Líder Kim Il-sung. Foi criada então a terrível V Brigada do Exército do Zimbábue, grupo carniceiro quase inteiramente composto de guerrilheiros da etnia shona, a mesma do Presidente.

Em agradecimento a favores prestados, o Presidente do Zimbábue presenteia o Presidente da Coréia do Norte com uma Arca de Noé

Isso possibilitou, em grande parte, que Mugabe continuasse comandando o Zimbábue quase que sem atropelos. E como forma de retribuir a ajuda dada à época, Mugabe resolveu presentear o atual presidente norte coreano, Querido Líder Kim Jong-il, filho de Kim Il-sung, com um presente inusitado, no mínimo: uma Arca de Noé. Isso mesmo - o Presidente Mugabe determinou que fossem capturados e enviados à Coréia do Norte casais de cada animal que habita em seus domínios, mais precisamente o Parque Nacional Hwange. Enfrentarão a viagem marítima de 11 mil quilômetros até sua morada final, o Jardim Zoológico de Pyongyang, casais de zebras, hienas e elefantes (estes com 18 meses de vida, ainda intensamente dependentes das mães), além de diversos outros. Segundo especialistas em vida animal, muitos dos selecionados não resistirão à viagem e outros morrerão por conta da não adaptação ao clima da Coréia do Norte, completamente diferente da África Austral.

"Muitos dos selecionados não resistirão à viagem e outros morrerão por conta da não adaptação ao clima da Coréia do Norte"

E quem se importa com isso? O Presidente Kim Jong-il, que tem fama de maluco e deve estar feliz com os bichinhos que ganhará? Ou o "esclarecido" Presidente Mugabe, ditador vitalício do Zimbábue e a quem caberia a proteção dos tais animais, dirigente "esclarecido" pelo menos em currículo? Não. Eles não. E o que nos resta? Lamentar e torcer que os animais cheguem vivos. E que em bendito golpe de sorte, os selecionados consigam sobreviver no clima inóspito que lhes será imposto pelos dois Presidentes, ditadores amalucados que deveriam, eles sim, estar atrás das grades.