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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Os Círios de meu avô

Belém, 11/10/2013

Acordar no dia do Círio era acordar na correria, todos se apressando para banhar e se arrumar, roupa nova comprada para o domingo, tudo dobradinho no sofá da sala, arranjo antecipado para que não houvesse demora. Tinha sempre o dia nascendo, a rua sem barulhos e a correria dos cinco fazendo de tudo para sair logo e cumprir com os planos de todos os anos.

O Círio era passado no janelão da Assembleia Paraense debruçada na Presidente Vargas, onde ficávamos até o passar da Santa, até bem depois do passar da Santa, pois o povo nunca parava de passar e assim ficávamos todos lá, horas e horas assistindo ao desfile de casinhas, barquinhos e miritis, anjinhos e promesseiros descalços, suados, moídos e felizes.

Acordávamos cedo para pegar lugar, três pequenos e seus pais, sacrifício feito para poupar os avós já tão velhinhos e com intocada vontade de estar ali e de tudo participar. Chegávamos por volta de 06:30 e assim tinha que ser, ou logo tudo era tomado de gente.

Sentávamos diante das grandes janelas, felizes pela vitória de conseguir boas vistas, mas alegria que durava pouco, justo o tempo de perceber que ainda estava quase escuro e a Santa só passaria perto de meio dia. Nós, as crianças, éramos meio que plaquinhas de “reservado”, quietinhos nos seus bancos até que, sonolentos, deitávamos e dormíamos um pouco – o que era até bom, pois criança deitada ocupa mais espaço e, assim, guardávamos mais cantinhos para os avós.

Por volta de 07h:30 o pai saia para buscar seus pais numa proximidade qualquer, largados em taxi, as ruas todas fechadas, somente livres ao fluir do mundo de gente que não tardaria a chegar.

Vovô, eu e Digo, maio de 88,
meu aniversário
Ao surgir os avós, eis a alegria de volta, os netos se atropelando ao carinho da avó, às alegres bandalheirinhas do avô, os pequenos acarinhados qual em recompensa pela valentia de madrugar e montar guarda à festa, o heroísmo, na certeza de ver de perto a Santa, e os barcos e anjinho, os conhecidos, e acenar, e cantar, e rezar e chorar.

Foi durante anos, todos os anos de minha vida, até deixarmos de ser criancinhas e já não dormíamos nos bancos às janelas da Assembleia, agora adolescentes emburrados e chateados por acordar cedo, mas nada que durasse muito, só até chegarem os avós. Então voltávamos à meninice nos colos, nos mimos ao amor familiar. Tudo ia como devia, como devia ser a vida, mas a vida também sabe ser triste.

O avô morreu e muito mudou: acabaram os banhos de piscina de sábado na Conselheiro, os primos todos reunidos esperando os lanches da avó regados com Baré comprado na mercearia da esquina; acabaram os papos na porta do casarão, tudo regado com cantar das cigarras ao fim das tardes, o despedir à porta que nunca findava; acabou o Natal ao redor da árvore, presentes organizados por tios, tudo organizado e entremeado de gritos e abre abre abre. O Círio, como era, também acabou.

Por anos, acho que foi medo de chorar que me impediu de sair nas ruas e acompanhar algo que fosse da festa, até que voltou a coragem e decidi sair, e foi bom ter saído, pois percebi que o avô não tinha morrido, não! Estava mais vivo do que nunca em cada rosto suado, cada casinha de miriti e figuras de cera, e no choro emocionado de quando passa a Santa. E nos fogos.

Ele não morreu porque ele era o Círio, nós somos a festa, o Círio que estava ali e sempre estará.

Hoje vejo meu avô em tudo da festa e, apesar do medo de antes, choro tranquilo lembrando dele, choro de felicidade, não de tristeza, por senti-lo ao meu lado no meio da multidão, e sou tão grato à vida, ao Círio, por isso. Grato ao Círio que revive no passado meu avô Fernando. E obrigado por mais esse milagre, Virgem, por deixar por perto quem já está longe, aparentemente distante.

Feliz Círio.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sobre adoção

Olhem que coisa bacana foi decidida hoje no STJ: é possível adoção póstuma, mesmo que o processo de adoção não tenha se iniciado em vida. No caso que foi analisado e decidido hoje, a relação foi constituída desde que o adotado tinha somente seis meses de vida. Portanto, devem-se admitir, para comprovação da inequívoca vontade do adotante em adotar, as mesmas regras que comprovam a filiação socioafetiva: o tratamento do adotado como se filho fosse e o conhecimento público dessa condição”, afirmou a relatora, ministra Nancy Andrighi,no que foi seguida pela maioria da Terceira Turma do STJ. A ministra ressaltou que o pedido judicial de adoção, antes do óbito, apenas selaria, com a certeza, qualquer debate que porventura pudesse existir com relação à vontade do adotante.
Em todas as situações sociais, de festas de família, encontros entre amigos e consultas médicas, o adotante informava que a criança era seu filho, o que deixou bem claro aos juízes sua vontade incontestável de adotá-lo, o que, por fim, foi obtido após seu óbito. O processo corre em sigilo judicial por envolver menor, por isso não sei informar o número.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Antónia se foi esta noite


Nando, a Antónia se foi esta noite. 
Sabem  o que é a saúde pública no Brasil? Um matadouro. Sangram as pessoas até não poder mais, até que não tenham mais forças para suportar tanto sofrimento e pronto. Resolvida a questão.
É assim que resolvemos as coisas por aqui.

O sistema público de saúde do Brasil é um dos mais bonitos do mundo, ao menos no papel (basta dar uma lida na Constituição). Na vida real, na dor real, pessoas são tratadas como móveis, tudo arrumado de acordo com a vontade e disposição de quem as recebe. É uma inversão de valores absurda: o sistema deveria se adequar às necessidades, não as necessidades se adequarem ao sistema.
Todos que usam o sistema público de saúde têm que se adaptar à agenda apertada dos médicos e seus atrasos, os prazos sempre longos de nunca ter data disponível para o que seja!

Antónia se descobriu com câncer no seio. Como era pobre, procurou atendimento em hospital de ponta de Belém, mas hospital público. Minha mãe ajudou no que podia: “pelo SUS só vai ter data para exame no mês que vem”, então minha mãe ia e pagava o exame; “não tem data para consulta com oncologista”, ou nem tem oncologista, então minha mãe ia e pagava a consulta particular com oncologista. E assim fomos caminhando, tudo tão difícil, tudo tão complicado.
No hospital de ponta nada parecia funcionar. A triagem dos casos era feita, olhem só, por uma assistente social, não por um médico. Assistente social fazendo exame clínico e verificando quem deveria viver ou morrer, ainda mais diante de míseros quatro leitos disponíveis.

Nos revoltamos com tudo que não funcionava e fomos para o ataque: pegamos no pé do Ministério Público, que prontamente entrou com uma Ação Civil Pública pedindo informações sobre as denúncias - e instando o judiciário a fazer o sistema funcionar. Minha mãe, que regularmente escreve no jornal O Liberal, fez duro artigo sobre o drama – e olhem como se faz uma mágica: artigo publicado no domingo, seguido de telefonema do hospital de ponta na segunda-feira informando que Antónia deveria comparecer já na terça-feira, com documentos e o que mais fosse necessário para sua internação, pois iria ser operada na quarta-feira seguinte. Do nada tudo ficou célere, tudo virou rapidez e eficiência. 

Antónia foi operada na quarta-feira, mas morreu. Já estava tão fraca, tão cansada de tudo, das humilhações diárias nas filas do hospital, do menosprezo de pessoa que viam seu seio inchado, enorme, e diziam que não era nada – as mesmas pessoas que diziam haver outros em situação pior, que ela deixasse de frescura - que simplesmente não aguentou a operação.
A palavra “câncer” é oriunda do latim câncer, “caranguejo”. Uma referência à proliferação sorrateira e covarde de células cancerosas no organismo (metástase), tal qual o animal que se movimento nas profundezas da lama.
Sobre Antónia, que foi tratada como lixo, que morreu ontem no final da noite, vou ser breve porque Antónia foi muito e não cabe neste texto.
Chegou em casa grávida, tudo escondido, pois por conta da gravidez foi chutada da casa onde trabalhava anteriormente. Quando minha mãe e avó descobriram, ela chorou, implorou por piedade, e que precisava de um teto para o filho que ia nascer.
E aí surgem as ironias da vida: nós demos um simples teto, enquanto Antónia nos deu um novo sentido de família. Fizemos o enxoval dela, e foi minha mãe quem, num fusca verde e velho que tínhamos, acompanhou Antónia no dia que nasceu Luciana, na Santa Casa de Misericórdia. Minha mãe e avó se revezando na beira da cama ajudando no que fosse, enquanto eu e meu irmão esperávamos em casa, ansiosos por receber aquela que considero uma irmã. Luciana cresceu conosco e fomos muito felizes em brincadeiras mil – e hoje Luciana é advogada, formada e concursada, indo contra pessoas que ousaram dizer “desiste disso, Luciana. Filha de empregada não vira doutora”. 
Antónia não gostou de ouvir isso: trabalhou dois turnos, as vezes três turnos, tudo para pagar livros e cursos para a filha. Muitas vezes dormia menos de três horas por noite, tudo para oferecer o melhor para a filha – e eram só as duas.  Ela nunca saiu de perto da gente, mesmo quando minha mãe deu a ela uma casa – e meus filhos têm verdadeira adoração por ela, assim como ela tinha por eles.
Antónia não cabe aqui, então paro aqui.

E que tenham força para lutar, e que consigam esperar, aqueles que não têm voz e que não são enxergados pelo Ministério Público, e que ficam à mercê do julgamento de uma assistente social para saber se terão chances ou não de sobreviver.

O que se fez do Brasil?
O que se fez do sistema de saúde pública do Brasil que deixa que se matem brasileiros?
Cada um deles, cada um desses invisíveis, é toda a importância do mundo para alguém.
Antónia morreu na UTI do hospital de ponta somente por causa do artigo de domingo. Se não fosse por isso, ainda estaria esperando, acompanhando o crescimento a olhos vistos do tumor que já nem a permitia respirar direito.
Antónia era amada e era querida, era o nosso chão.
Perdemos nosso chão.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Andorinha

Querido Tonícores,
Eu devia ter uns seis anos quando conheci minha avó Áldora. Ela, com quase 72, não tinha nenhuma obrigação de me acolher com carinhos ou cuidados. Ela poderia, e isso bastaria dentro de todas as convenções sociais, me receber com educação e distância - e ninguém poderia lhe criticar. Acontece que essa não era a natureza dela, entende? Quem nasce para cuidar e ter carinho, quem nasce com esse dom, nunca consegue se libertar e acaba fazendo disso uma prática diária...
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Meu irmão era chamado de tratorzinho. Eu, apesar de não ter um apelido tão destrutivo, não era flor de bom cheiro. Além de nós dois ainda havia Malu, Paulinho, Mariana, Mario Bola, Larissa, Geisa, Luciana e a outra Mariana... E ainda havia o Leonardo e o Daniel (esse já mais comportado, pois era o maior). E com tanta criança correndo pela velha casa da São Jerônimo, a 'três patinhos na lagoa', a fazer ranger o piso de madeira, com tantas bocas para alimentar nas tardes de final de semana, mesmo assim, ela sempre foi só carinho com os pequenos que chegaram de pára-quedas no enorme quintal onde morava a velha cadela Lua.
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Ela não era mãe nem avó de ninguém. Apesar disso, ela foi mais mãe e mais avó do que muitas que teimam em vagar pela terra. Na verdade, ela foi pura definição de amor e dedicação... Quando sua cunhada morreu, muito nova, e deixou seu irmão, Ernesto, com responsabilidade pela criação dos quatro filhos, foi ela quem aceitou dividir e também assumir todas as responsabilidades.
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Lembro principalmente do lanche dos sábados e domingos, sempre no final da tarde, no tempo em que podíamos estacionar na São Jerônimo sem problemas. A casa era um deslumbre, casa antiga cheia de enfeites e detalhes, destas que não existem mais em um mundo de caixotes e janelas pequenas.
A casa era repleta do cheiro das boas comidas, do bolinho de farinha de tapioca, do quadradinho de banana, dos bolos, do pavê da Dona Ana, dos doces, dos pães, dos salgados e do café com leite. Também havia o fio d´ovos, e disso nunca esquecerei, que somente ela sabia onde comprar e era o melhor de todos... E nunca mais comi tudo isso.
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Ela era uma portuguesa pequena, forte e destemida - como quase todas as portuguesas são. Com ela aprendemos várias brincadeiras que ainda nos farão chorar por sua mera menção, brincadeiras feitas para deixar as crianças quietas, sentadas nas cadeiras de embalo do pátio, com frases inteligentes e inesperadas, coisa antiga que nem sei de onde veio.
Galinha no choco, cachorro late?
Chocolate
(respondiam as crianças em um grito só)
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Bento Botelho Barbosa Batista, tinha um burro branco chamado brancura e um bode barbado que fazia beee, beee
(que na versão com sotaque português virava:)
Vento Votelho Varvosa Vatista tinha um vurro vranco chamado vrancura e um vode varvado que fazia veee, veee
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Também havia o Pegue esse anelzinho e não conte nada a ninguém e o Telefone sem fio, que sempre resultava nas coisas mais absurdas, choros e brigas: A lua é bonita chegava como Malu é feia. O pato pateta chegava como Tanto tem perna fina. Acho que foi numa dessas que o Mário virou Mario Bola.
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Quando a coisa se tornava impossível de ser controlada, quando o mundarel de crianças Maneschy, Faria, Correa, Bibas, Lobato, Sucasas, Gurjão Sampaio, Tupiassu e Teixeira desandava a explodir, só restava o golpe derradeiro da Panela Podre: Coloca na Panela Podre coco de cachorro, xixi de gato, bustela de boi e olho de vaca. Coloca também sujeira de pé, cera de ouvido, dente podre, suor de suvaco e carne de gambá. Coloca tudo na panela podre e tampa. E quem falar primeiro vai comer tudo – e isso era tiro e queda para obter crianças caladas por uns bons minutos.
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No enorme quintal da casa da São Jerônimo, dentre tanta correria e boladas, nós brincávamos de tudo. Lá, fomos habilidosos jogadores de vôlei e de futebol, sempre armados com chutes errados e passes tortos, tudo resultando em perigosos resgates de bola nos quintais vizinhos.
Lá brincamos de pira-se-esconde, pira-pega e pira-cola. Lá nos divertíamos nos balanços que ficavam perto do quarto de empregadas, já no limite permitido do quintal. Lá pisávamos no coco da Lua (detestávamos) e éramos picados por mucuins, maldita mordida que só parava de arder após muito banho de álcool e carinho de avó (adorávamos).
Também brincávamos de roda, e que pessoa, na minha idade, pode dizer que ainda brincou de roda quando criança? A preferida era Bom dia vossa senhoria, que sempre terminava em choro das Marianas e da Malu, alvos preferidos das bandalheiras, ou em unhadas da Larissa, que sabia se defender das nossas espertezas:
1 - Bom-dia Vossa Senhoria / manda tiro, tiro, lá
2 - O que quer Vossa Senhoria / manda tiro, tiro, lá
1 - Eu quero uma de vossas filhas / manda tiro, tiro, lá
2 - Qual é que lhe agrada / manda tiro, tiro, lá
1 - Me agrada a Mariana / Malu / Larissa / manda tiro, tiro, lá
2 - Que ofício lhe dará / manda tiro, tiro, lá
1 - O ofício de lavadeira / lixeira / mendiga / manda tiro, tiro, lá
2 - Esse ofício não me agrada / manda tiro, tiro, lá
Também tinha Boca de Forno e as missões mais engraçadas e difíceis possíveis.
Boca de forno? Forno.
Jacarandá? Dá.
Onde eu mandar? Vou.
E se não for?
Apanha um bolo.
Remando, remando (e lá vinha a missão) eu quero que me tragam um tijolo / um sapato furado / um anel de noivado...
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Depois de grandes, largamos a brincadeira de roda no quintal e passamos às rodas de bate-papo entre os primos nas cadeiras de embalo do pátio. De lá tínhamos vista privilegiada da sala de jantar e da porta da cozinha, vigilância mais do que necessária para os esfomeados e sedentos jovens que insistiam em crescer assustadoramente e já eram bem maiores do que a avó.
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O Círio era na Assembléia Paraense, debruçados na Presidente Vargas, sempre com os Gurjão Sampaio. Mas as Trasladações eram sempre com ela, a São Jerônimo que ficava bem ao lado da Nazaré e permitia uma breve caminhada para ver a Santa passar. Lá também havia Natal e foi onde aprendi a gostar de amigo invisível e do bolo especial com Vinho do Porto (preciso pedir a receita à tia Bia). Lá havia tanta ocasião especial...
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Ela sempre dizia que havia sido bonita, que não era 'peixe podre' e que os rapazes eram sinceros admiradores. Ela contava das festas maravilhosas na Sede da Assembléia Paraense, na frente da Praça da República, na época em que se podia andar na rua sem nenhuma preocupação. Ela também contava sobre suas andanças diárias, em salto altíssimo, se equilibrando nos paralelepípedos e pedras portuguesas do comércio para ir e vir do escritório da família onde trabalhou por longos anos.
E ela contava tantas outras coisas bonitas, tantas coisas legais - e no tempo em que amar significava coisa bem diferente de hoje, teve um pretendente que compôs uma valsa para ela. E teve outro que quis casar, mas não pôde (pois ele, também português, era separado e tinha filhos). E minha avó Áldora, mocinha ainda, teve um namorico com Aristeu, também mocinho, que depois se tornou meu avô, marido da minha avó Lourdes (pais do meu padrasto), e isso era motivo de ciúmes velados, cheios de educação – e quem ainda duvida da natureza oval de Belém, desde sempre.
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Na versão Legal, ela foi a tia que criou minha madrasta. Na nossa versão, muito mais legal, ela é a mãe da minha mãe. Ela era pequenina, andava com uma bengala bonita e adorava sua cadeira de embalo. Ela calçava 32 e dizia que isso era a causa de seus desequilíbrios ( - Com um pé tão pequeno, como posso ficar em pé?, perguntava entre risos). Ela sentia cócegas no pescoço e eu adorava fazê-la rir com fungadas carinhosas. Por essas outras, ela dizia que eu havia sido seu marido em outra encarnação – e essas pequenas frases de amor, esses pequenos gestos de cumplicidade, ela tinha com cada um de nós e era sua forma de fazer com que todos se sentissem únicos.
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Ontem, com 97 anos, ela morreu depois de décadas de uma saúde forte e perfeita. Ontem, após uma vida plena e feliz, após ter criado quatro filhos e uns tantos netos (e de ter visto bisnetos), o coração cansado não resistiu a parou de se equilibrar, ainda de salto altíssimo, sobre buracos da vida. Ontem, maldito ontem, a dor se fez presente, a mesma dor que, até então, se escondia na moita com rabo de fora e somente ameaçava. Agora surge uma saudade indizível, uma saudade que perturba como mosca e não nos deixa por mais que se abane, o algo incômodo que gruda firme na carne e impregna a alma.
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Hoje resta lembrar e se sentir feliz, de preferência tomando um golinho de malzbier e comendo uma coxinha de pru (ainda o sotaque lusitano que, sempre presente, matava o pobre peru). Hoje resta sentir que a união não se perde, que o elo que sempre foi tão forte não se separar por nada e impossibilita que se faça distante.
Resta também a lição do que realmente é uma família: mais do que sangue, amor; mais do que ventre, cuidado; mais do que registro, carinho. E mais do que dever ou obrigação, pura vocação.
Essa é minha avó Áldora, em um apanhado de dados e características pensado na pressa de uma manhã lenta e morna, um texto sofrido diante de tanta memória que volta e afoga, de tanta coisa boa a saudosa que, felizmente, não some.
É um texto necessário não somente para mim, a necessidade de lembrar e registrar o que me define, mas principalmente para aqueles que, como você, não tiveram a imensa sorte de tê-la conhecido.
Um beijo,
Do teu amigo,
Fernando.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Nasceu Júlio

Hoje nasceu Júlio, meu sobrinho, filho do meu irmão Rodrigo e da Érika. Nasceu no Hospital Saúde da Mulher e está muito bem. Maria pôde subir e ver o priminho. Já o Carlos foi barrado na portaria por conta da idade (o que é muito correto, creio). Ambos esperam, ansiosos, que o primo chegue logo em casa para poder vê-lo melhor e começar a série de mil brincadeiras que pretendem (e o pequeno Júlio nem imagina). E assim que tiver foto faço nova postagem.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Obrigado, Cigarras

Lembro de algumas coisas da minha infância de forma viva. Por mais que o tempo passe, por mais que as coisas mudem, sempre que tais fatos voltam, volta também a lembrança. Um bom exemplo é barulho de cigarra! Meu avô, quando vivo, morava na Avenida Conselheiro Furtado, dois quarteirões antes do antigo presídio São José. A rua era repleta de mangueiras (ainda é!) e sempre eu escutava o barulho das cigarras quando terminava o banho de piscina, no finalzinho da tarde, ou quando já estava de banho tomado, cheiroso, deitado na cama enquanto minha avó passava as unhas nas minhas costas para me fazer cócegas. Havia sempre o cheiro do lanche, geralmente café com leite, os primos todos reunidos em bandalheira respeitosa, os adultos sentados no pátio em animado papo sobre política ou outros assuntos sérios. E sempre havia, por detrás dos gritos, das piadas, das bandalheiras e do papo, por trás do cheiro do café e do riso da cócegas feitas pela avó, o barulho das cigarras. Pela quantidade de mangueiras, presumo a quantidade das bichas. E pela quantidade das cantoras posso dizer que o barulho era imenso, o cigarrear delas que fazia parte da casa do avô. O barulho era mais intenso no quarto da frente, o pequenino, onde guardavam os livros e havia uma rede oferecida ao leitor. Também era intenso o barulho na hora de partir - e nesse momento as cigarras me trazem as melhores lembranças: todos se despedindo diante do fim da semana, o trabalho que se avizinhava e os rostos que só seriam visto novamente no próximo sábado, os abraços e beijos, o riso do avô e seu cheiro bom, o carinho da avó e as recomendações para estudar e se comportar. O avô morreu e a avó se mudou, e morreram as despedidas na Conselheiro e o barulho das cigarras no seu quase reino. Hoje restam as novas mangueiras, para quem mora perto de uma, e as lembranças que antigos barulhos trazem.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Agosto, mês do desgosto?

Belém, 05 de agosto de 2010

Tudo começou em Roma - O Imperador Augusto, que não queria ficar atrás do Imperador Júlio César (que já “tinha” o mês de julho a lhe homenagear), determinou a criação de seu próprio mês, o oitavo do ano, que também teria 31 dias e se chamaria agosto - do latim Augustus. Ou seja: o mês de agosto tem origem na mais pura inveja entre os Imperadores romanos, os homens mais poderosos de seu tempo.
Mas isso, por si, não justificaria a fama de mês aziago, de período em que tudo de ruim pode acontecer.
A má fama surgiu junto com as grandes navegações ibéricas e ficou arraigada na cultura dos países colonizados por Portugal e Espanha. Como o inverno terminava em março, desde abril os ibéricos tinham tempo para cultivar a terra e engordar seus animais, tudo isso para que, em agosto (o último mês com tempo bom), os porões dos navios estivessem supridos com as provisões necessárias a fazê-los zarpar antes de novo tempo ruim.
E a partida dos navios significava, para muitos, nunca mais voltar, nunca mais ver ou abraçar os que ficavam. Fernando Pessoa disse: “Ó mar salgado, quanto de teu sal são lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram, quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar...”. Assim, agosto era o mês de azar para muitos, mês em que veriam, pela última vez, os seus.
A crença de azar veio até hoje - conheço pessoa que não viajam, não se casam e nem fazem negócios no mês de agosto – uma questão de fidelidade ao mito que nem sabem explicar. Na Argentina, inclusive, os mais velhos aconselham a não lavar a cabeça no oitavo mês sob o risco de atrair a morte para si.
Na internet, é fácil encontrar diversos sítios que relatam os azares do mês. Um deles, inclusive, se preocupou em listar diversos acidentes, tragédias, falecimentos ou fatos estranhos ocorridos em agosto, como se os mesmos fatos não pudessem ser encontrados nos outros 11 períodos do ano – e bastaria simples busca para se chegar a esta conclusão.
Vamos agora à porção pessoal do texto: hoje é cinco de agosto, aniversário da minha irmã mais nova, parte linda da minha vida. Ela ter nascido significa minha mãe ter sobrevivido, vitima de erro médico estúpido e covarde durante o parto, mulher enfraquecida ao quase não ter mais sangue e que sobreviveu sem que nem soubéssemos como.
Uma nasceu e outra sobreviveu, ambas surgidas de forma tão agradecida, e por isso o mês de agosto é, para mim, um dos mais belos do ano, o mês das festas alegres e de ver crescer e de sentir estar perto.
Assim, renego-te mês de agosto como de desgosto.
E parabéns, Luanda; e parabéns, mãezinha.
Feliz agosto, mês de vocês e de todos que têm a sorte de tê-las.