sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Se não fosse pelo quase

01/10/2013

Se não fosse o quase eu estava morto agora. 

Audiência na Unama BR em dia cinzento de chuva. Estaciono o carro perto do prédio principal e saio andando.

Uns 10 passos depois, estoura um raio no para-raio que fica no topo do prédio, e faz um estrondo tão alto, e uma luz tão forte... aí pensei: vou morrer de raio? que merda!!

Meu ouvido começou a zumbir e fiquei muito tonto na hora. Quando dei por mim, estava encostado numa parede perto das lanchonetes, quase caindo pelas tabelas. Nem sei como cheguei lá. Perto de mim estava um segurança, que estava perto do meu carro e, consequentemente do raio, ele também atordoado e assustado.

O para-raio ficou esfumaçando. Quase todos os carros dispararam os alarmes. Os pelos do corpo ficaram arrepiados por uns 20 minutos direto.

Agora, quase 40 minutos depois, muita dor de cabeça. Pescoço e ombros formigando. Mal estar. Tontura.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Vacinação

Quando Letícia nasceu, optamos por fazer as vacinas na rede pública de Belém. Já tinha feito isso com Maria, que hoje tem 12 anos e fez todas as vacinas no Posto de Saúde da Cremação. No caso da Letícia, escolhemos o Posto de Saúde do Guamá, principalmente por conta do amplo estacionamento.

Algumas pessoas me criticaram por tal decisão, usando um tom meio que de nojo e admiração por "colocar" minha filha em um posto de saúde pública: se tinha "condições", por que submeter minha filha àquilo? Um absurdo!

Absurdo, para mim, é pagar uma pequena fortuna por vacinas que são dadas de graça em qualquer posto público. E desde quando ter "condições" significa não usufruir do que tenho direito. Eu também pago por aquilo quando pago meus impostos. Como assim?

Pois bem, algumas observações sobre o Posto de Saúde do Guamá, mais especificamente do setor de vacinas:

1. As atendentes da vacina são extremamente carinhosas e atenciosas com todos, sempre prontas a tirar dúvidas e a ajudar. E como são sempre as mesmas, acabam conhecendo as crianças e seus pais, o que torna o clima bem menos tenso. A Brenda Carepa já cansou de sentar com elas e fazer mil perguntas, assim como diversas outras mães fazem - todas sempre bem recebidas.

2. Algumas vezes não pegamos fila. Outras vezes estão uma ou duas pessoas na nossa frente. Uma vez somente, uma única vez, fomos em dia de campanha de vacinação e esperamos quase 30 minutos. Tirando isso, tudo corre rápido e tranquilo lá.

3. Certa vez, um famoso político apareceu lá para tomar vacinas. Ia para a África e precisava delas para viajar. Este famoso político estava acompanhado da Diretora do Posto e, como qualquer cidadão, e não poderia ser diferente, esperou pacientemente na fila sua vez sem qualquer benefício ou favor. Umas duas crianças depois da gente ele foi atendido.

Do mais, não posso dizer. Do que sei, digo. A gente tanto critíca e não custa elogiar

Leia antes de sair...

Segundo o Mapa da Violência divulgado em 2012 pelo Instituto Sangari, em 30 anos, entre 1980 e 2010, a taxa de crianças e adolescentes assassinados no Brasil cresceu 346%. Foram 176.044 mortes por homicídio nesse período.

Somente como comparação, na Guerra do Vietnã, que durou 20 anos - entre 1955 e abril de 1975 - morreram 58.220 norte americanos. Ou seja, o número de crianças e adolescentes mortos no Brasil, em 30 anos de paz, é três vezes maior do que o número de soldados norte americanos mortos em 20 anos de guerra.

Percebam que, por enquanto, estou falando somente de crianças e adolescentes.

A coisa fica mais chocante se pegarmos o total de homicídios no Brasil, país sem disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civil, enfrentamentos religiosos, raciais ou étnicos: 1,091,125 vítimas de homicídio nos mesmos 30 anos - 1980 a 2010.


Entre 2004 e 2007, nos 12 maiores conflitos armados registrados no mundo, Iraque [76.266 mortos], Sudão [12.719 mortos], Afeganistão [12.417], Colômbia [11.833], Rep. Dem. do Congo [93347], Sri Lanka [9.065], Índia [8.433], Somália [8.424], Nepal [7.286], Paquistão [6.581], Índia/Paquistão (Caxemira) [4.956] e Israel/Território Palestino [2.247], temos um total de 169,574 homicídios (fonte: Global Burden of Armed Violence, divulgado pela Geneva Declaration Secretariat – www.genevadeclaration.org).

No Brasil, no mesmo período, 2004 a 2007, foram 192,804 homicídios – registros gerais. Matamos mais do que os 12 maiores conflitos armados do mundo. Inacreditável!!

E o Pará, que em 2000 teve 806 homicídios, em 2010 registrou 3.482 – crescimento de 332% em dez anos. Perdemos somente para São Paulo (5.745), Bahia (5.288), Rio de Janeiro (4.193) e Minas Gerais (3.538).

E o Pará, que em 2000 teve taxa de 13 homicídios por 100 mil habitantes, em 2010 teve taxa de 45,9 homicídios por 100 mil habitantes. Perdemos somente para Alagoas (taxa de 66,8) e espírito Santo (50,1). Em 2000 ocupávamos a 21ª no ordenamento de UF por taxas de homicídios. Hoje estamos num honroso (?) terceiro lugar.

No mesmo período, 2000-2010, Belém teve um aumento de 128,9% no número bruto de homicídios. Em 2000 foram 332 vítimas, quase uma por dia. Em 2010, passamos para 760 vítimas, duas por dia. Usando o mesmo critério, número bruto de homicídios, a Zona Metropolitana de Belém teve um aumento de 383,5% nos mesmos 10 anos – só perdemos para a Zona Metropolitana de Salvador, com aumento de 493%.

Somos a oitava capital onde mais se morre de morte violenta, usando-se como critério a taxa de homicídios por mil habitantes (somente para comparar, Rio de Janeiro é a 23ª. São Paulo é a 27ª).

Tudo isso, dados brutos e friso, interpretados em planilhas e relatórios, acabam se revelando de forma cruel na nossa vida por meio do medo. MEDO.

O IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em pesquisa de 2010 na qual perguntava aos entrevistados sobre o grau de medo em relação a serem vítimas de assassinato. O resultado é alarmante: no Brasil, 79% da população têm muito medo de ser assassinada; 18,8% pouco medo; 10,2% manifestou ter nenhum medo. Em outras palavras: oito em cada 10 brasileiros têm muito medo de fazer parte das assustadoras estatísticas acima.

Mas vamos às boas notícias, pois, sim, também temos algumas boas notícias.


O número e taxa de homicídios no Brasil vinham em crescimento constante desde 1970, 13.910 homicídios, com taxa (em 100 mil) de 11,7. Tais números seguiram em franco crescimento até 2003, quando chegaram ao auge, 51.043 homicídios, taxa (em 100 mil) de 28,9. A partir de então, começaram a apresentar pequena queda e relativo equilíbrio até 2010, data do relatório: 49.932 homicídios e taxa de 26,2.

Será isso um bom sinal? Precisamos de um...

domingo, 29 de setembro de 2013

Marcelo, muito prazer.


Desde que voltei a morar neste prédio antigo, fiz amizade com uma velha senhora que sempre encontrei pelo elevador. Primeiro, me chamou atenção sua permanente alegria e bem tratar a todos. Depois, as antigas blusas do Clube do Remo, que vez ou outra ela usava, todas datadas da década de 70 e 80, originais e muito bem conservadas. Entre idas e vindas, nos apresentamos. Ela se apaixonou por Letícia e descobri que não morava aqui, mas sim sua mãe, uma mais velhinha ainda, muito doente, a quem vinha visitar e cuidar todos os dias.

Certa vez nos encontramos no elevador e ela, sempre muito sorridente e educada, me cumprimentou com um “Bom dia, Marcelo.”

“Bom dia Senhora Dalva , mas meu nome não é Marcelo, é Fernando.”

“Oh, meu filho, me desculpe... Minha memória anda ruim, ruim, coisas da idade.”

Travamos um breve papo, sem maiores constrangimentos, até que chegamos em nossos respectivos andares. Dias depois, novamente nos encontramos na portaria. Ela me deu um forte abraço e um beijo, pegou carinhosamente no meu rosto e perguntou “Marcelo, onde está a princesa Letícia?”

“Princesa Letícia está lá em cima com a mãe, mas lembre, meu nome não é Marcelo, é Fernando” falei novamente entre risos, para deixar claro que, apesar da troca, não havia gravidade no fato.

“Meu filho, me desculpe, mil perdões. Eu sempre troco seu nome. Fernando. Fernando.”

Novamente, até os respectivos andares, seguimos em alegre papo.

Faz um mês a encontrei na portaria. Agitada e alegre, veio ao meu encontro dizendo “Marcelo! Marcelo! Meu filho, comprei um presente lindo para a princesa Letícia. Vocês vão adorar. Posso ir mais tarde entregar?”

“Claro que pode. Quando a senhora quiser, peça ao porteiro para interfonar e suba, vai ser um prazer lhe receber”

Já constrangido, preferi não corrigir. Somente avisei ao porteiro, que presenciou tudo: “Quando a Senhora Dalva quiser ir lá em casa, na casa do Marcelo, lembre a ela que me chamo Fernando, não Marcelo, e diga para subir.”

Mais tarde ela foi fazer a entrega. Assim que abri a porta, dei de cara com aquele rosto marcado pelo tempo e olhos felizes, muito felizes, e ela logo me deu um abraço e disse: “Marcelo, espero que você e sua esposa gostem do presente.” Novamente, não corrigi.

Foi uma pequena festa a atenção dela com nossa filha, o presente simples, dado com carinho e atenção. Muito bom recebê-la.

Nos últimos dias, diferente de sempre, percebi a Senhora Dalva triste, muito triste...

De relance, em um encontrão no elevador, ela me disse que sua mãe andava doente, que estava internada em estado grave no hospital, que não podia visitá-la sempre, poucos minutos por dia, e que isso vinha fazendo mal às duas. Acho que ela quase começou a chorar, os olhos vermelhos que revelam logo a dor, e, felizmente, chegamos rápido em nossos andares, ou também choraria ali diante de tanta tristeza e medo. Durante muitos dias, sempre que nos encontrávamos no elevador, era sobre a velha mãe que conversávamos, sobre como ela iria melhorar e sair logo do hospital, voltar para casa e ver mais um círio ao lado de toda a família.

As semanas passaram e hoje, depois de algum tempo, voltei a encontrar a Senhora Dalva no elevador. Vinha ela e seus dois filhos, mais sua irmã e o sobrinho. Ela fez festa quando me encontrou. Explicou a eles que eu era o Marcelo, um bom amigo do prédio, alguém com quem podia contar e com quem conversava sobre as mazelas da mãe. Contou que eu tinha uma filha linda, a princesa Letícia, e que ela havia dado um presente para a princesa Letícia, e que ela havia ficado muito feliz por ter presenteado a filha do amigo dela. Disse ainda que eu havia dado força durante a internação da mãe, que agora estava boa e curada, de volta para casa, pronta para o Círio, conforme havia dito. Falava isso enquanto me abraçava carinhosamente, a velha Senhora Dalva, fazendo festa enquanto seus familiares sorriam felizes e me cumprimentavam.

Quando chegamos ao andar em que desceriam, já saindo do elevador seu filho se virou, deu um grande sorriso, apertou minha mão e falou, “Obrigado pela força, amigo... Nem sei como agradecer. Como é mesmo seu nome?”

“Marcelo, muito prazer.”

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Duas escovas de dente e um supositório

Tio Flávio era um homem baixinho, altura que sempre foi acompanhada pelo tom da sua voz. Chamá-lo de tio era uma liberdade e tanto diante da nossa relação distante: ele era tio da minha madrasta, que me recuso a descrever como madrasta, pois é minha mãe tanto quanto minha mãe o é.
Tio Flávio eu via pouco, quase somente nas festas de família, e sempre era eu quem lhe dava carona de volta para casa, pois ele dizia que eu dirigia com calma, e ele era um homem calmo, então combinavam, meu dirigir e seu temperamento.
Outra característica de tio Flávio era a forma suave de enfrentar problemas, tudo representado nas diversas histórias que nos faziam gargalhar.
Tio Flávio tinha uma grande casa em Mosqueiro, beira da praia, casa daquelas antigas cheia de quartos e salas, e, justamente por isso, sempre cheia de filhos e amigos de filhos, e primos e amigos de primos, e, algumas vezes, até pessoas que ele nem sabia quem eram, todos recebidos sempre com muito carinho. Em uma dessas vezes, segundo nos contava, pelos seus cálculos estavam hospedadas mais de 40 pessoas entre redes, camas e colchonetes. Acontece que a casa só tinha um grande banheiro de uso comum, imaginem a bagunça que era aquilo, e então, lá pelo meio do dia, alguém reparou que tio Flávio andava pelos longos corredores de camisa social sem mangas e bermuda, com sua escova de dente pendurada no bolso da camisa tal qual fosse uma caneta.
Questionado, a resposta foi simples e certeira:
“meu filho, com tanta gente em casa, será que todos trouxeram escova de dente? E eu vou bem deixar a minha escova lá? Melhor ela aqui, pois assim sei que ninguém a usou.”

Isso me fez lembrar de história contada por uma amiga de minha mãe, professora universitária, pessoa muito boa, muito boa mesmo, que certa vez, nos idos de 1970, recebeu em sua casa um senhor vindo de interior muito remoto, meio aparentado, para que fizesse um breve tratamento de saúde em Belém.
A amiga de minha mãe mostrou-lhe o quarto de hóspedes e o banheiro único da casa, deu-lhe uma chave para que tivesse liberdade para exames e consultas, e assim voltou para sua intensa vida acadêmica. Depois da chegada do homem, quando acordava de manhã percebia sua escova de dente úmida, como se tivesse acabado de ser usada, coisa que se repetia depois do almoço e depois do jantar... Até que, em um belo dia, flagrou seu aparentado escovando os dentes com sua escova e então entendeu tudo:
“Seu Fulano, essa escova é minha. O senhor tem que usar a sua escova!”
“Ah, é tem uma escova para cada um? Achava que era que nem vassoura, uma para a casa toda...”

E este mesmo senhor, depois de uma consulta médica, recebeu receita pela qual teria de usar supositórios. Ele trouxe a receita para a amiga de minha mãe. que o acompanhou até a farmácia e, juntos, compraram o medicamento. Por achar que ele sabia o que fazer com aquilo, e para evitar o constrangimento que sempre envolve o uso dos supositório, a amiga de minha mãe ficou calada, já tendo feito sua parte.
Dias depois, ao perceber que o homem não melhorava do problema de saúde, muito ao contrário, piorava, a amiga de minha mãe perguntou:
“Senhor Fulano, está usando direitinho o remédio que o médico passou, o supositório?”
“Dona Fulana, eu bem que tentei, mas aquela pílula é muito grande, quase morro engasgado com aquilo. Depois da segunda, desisti.”