1 - Ela me bate a noite toda com chutes e ombradas, sempre a me expulsar da cama. Houve uma noite em que, sonâmbula, ela se virou para mim e disse que estávamos sem espaço, que eu deveria sair da cama e procurar outro canto para dormir. Obediente, me vi enchendo o colchão inflável às duas da manhã, meio que dormindo mas obediente. Em Campos do Jordão tínhamos uma cama moderna, com aquecimento separado em cada um dos lados. Friorenta, ela colocou a temperatura do seu lado no máximo. Calorento, nem liguei o meu. O resultado foi a sumária expulsão, novamente, no meio da noite, o lado dela que fervia e o meu que permanecia com o frio acolhedor da madrugada. E de nada adianta revolta ou bronca, ela que dorme e nem escuta nada. Aprendi a retomar meu espaço com cutucões e empurrões, a única coisa que, aparentemente, resolve.
2 - Ela perde cabelo como quem perde guarda-chuvas. A casa, algumas vezes, parece ser cabeluda tal a quantidade de fios que se espalham pelo chão. Outro dia, ao acordar em um sábado quente de maio, vi um tufo de cabelo rolar pelo chão do quarto, tal qual o tufo de feno que rola pela cidade abandonada no filme de faroeste - cheguei mesmo a cantarolar a musiquinha típica das ruas desertas, somente os dois cowboys prestes a duelar. Mas o pior são os cabelos no ralo, a entupir tudo. Certo dia, diante da água que não partia, descobri um tufo de cabelo do tamanho do meu punho e me questionei, de forma bem séria e angustiada - "como é que está mulher não fica careca?"
3 - Ela tem hora rígida para entrar no trabalho, eu não tenho hora certa para chegar no meu, a maravilhosa liberdade que me permite chegar entre oito e dez da manhã. E todo o dia eu sou obrigado a acordar às 06h40min por conta do horário dela, algo quase que escravagista, o cartão de ponto que se torna angústia degradante a cada engarrafamento enfrentado no trajeto. E por conta disso venho chegando cedo e saindo mais cedo também, o que é bom! Ruim é a sensação de sono que teima em me abraçar o dia inteiro, a 'madrugação' imposta pelas obrigações dela.
4 - Ela é completamente injusta na divisão de tarefas caseiras. A coisa se dá da seguinte forma: eu cozinho, varro, lavo o banheiro e os panos da casa, lavo a louça e arrumo tudo. Pronto. Essa é toda a divisão de tarefas, ela que se torna Rainha do lar quando estendida na cama, igualzinha a um gato jogado no sol, o livro que é lido ou a breve navegação pela internet, tuiter qualquer que lhe faça rir.
E diante disso tudo, breve narrativa de como é o dia-a-dia com ela, certamente aparecerão comentários impondo crucificação ou enforcamento, a defesa do pobre homem que se deixa levar por uma tirana. E antes que eles surjam, farei justiça com a verdade dos fatos.
1 - Adoro que ela me bata de noite, que tente me expulsar da cama. Significa que ela está ali, do meu lado. E se busca o meu cantinho, penso sempre, nada mais é do que vontade involuntária, presente mesmo que em sono, de se aninhar do meu lado.
2 - Adoro sua notável perda de cabelos, os fios e tufos que encontro em todos os lugares. Significa que ela esteve ali, que passou por aquele canto, que está na minha vida. Nada me faz sorrir com tanta facilidade do que encontrar um fio de cabelo dela no lugar mais inesperado da casa, principalmente quando estou só.
3 - Adoro acordar cedo com ela, não importa a hora que seja. Significa que ela dormiu comigo, que pude conversar com ela até pegar no sono e que ganhei um beijo quando os olhos se fechavam. Também acho que acordar cedo significa cuidar, compartilhar, o 'entregá-la' na porta do trabalho que me alivia, a cidade que está cada vez mais violenta e a sensação de medo que sinto a cada vez que não posso apanhá-la, a insegurança que sinto quando sei que ela pegará ônibus ou taxi.
4 - Adoro nossa divisão de tarefas, que a bem da verdade não tem nada de divisão. Ela vive em constante correria, o trabalho que a consome tanto, a universidade que resseca a calma a quase transformá-lo em pó, os prazos de trabalhos e matérias que são sempre menores do que gostaríamos. Prefiro que ela possa, neste breve momento comigo, relaxar e descansar, que possa esquecer de toda a tranqueira que lhe aflige e que desejo, sempre, que fique do lado de fora de casa.
A casa, sem ela, não parece minha casa. Sem as porradas noturnas, o colchão se torna simples espaço vazio. Sem os cabelos que entopem o ralo, percebo que ela não esteve lá. Sem o acordar cedo, a obrigação dela, descubro que só a verei no final do dia, a saudade que só aumenta e perturba. Sem a folclórica divisão de tarefas, não posso mimá-la com coisas gostosas, o cheiro que faço enorme para torturar a esfomeada que espera, na cama, a hora da 'bóia'.
Diante disso tudo, acho que nada mais tenho a dizer - e acho que não preciso dizer mais nada - somente um Feliz Dia dos Namorados, namorada.