quinta-feira, 25 de abril de 2013

Hoje ganhei um mimo

Faz um tempo tenho um desejo público: ter nas minhas paredes a arte do artista plástico paraense Junior Lopes. Morando em São Paulo faz algum tempo, Junior Lopes é um artista fabuloso. Seja como ilustrador, seja com seus retratos feitos com retalhos de pano - técnica que ele mesmo desenvolveu - Júnior Lopes faz sucesso dentro e fora do Brasil - o G1 chama ele de Mestre das Caricaturas em Retalhos (e para não falar muito, leiam aqui e vejam abaixo).
Paulinho da Viola
Steve Wonder
Beatles
Frida 
Amy
Campanha para a marca de jeans Levi's
Caetano Veloso
Elvis, the pelvis
Renato Russo
Pois bem, um desses meus comentário foi lido pelo Júnior, que resolveu me oferecer um mimo lindo, de beleza indescritível e que verdadeiramente me emocionou.

Logo depois que Letícia nasceu, em dezembro de 2012, ainda no hospital, eu fiz essa foto com o celular - postada no Instagram:
O Júnior Lopes viu a foto, se sentiu tocado pelo momento registrado e agora, quatro meses depois, decidiu me presentear com esse verdadeiro tesouro:
Júnior, no momento da entrega da nossa colagem:
ele está em Belém para participar de diversos eventos - cursos,
oficinas, palestras e Feira do Livro.
Finalmente realizo um antigo desejo: ter uma pequena amostra da arte do Júnior Lopes nas minhas paredes - eu só não esperava que fosse um verdadeiro tesouro. Que honra!

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Antónia se foi esta noite


Nando, a Antónia se foi esta noite. 
Sabem  o que é a saúde pública no Brasil? Um matadouro. Sangram as pessoas até não poder mais, até que não tenham mais forças para suportar tanto sofrimento e pronto. Resolvida a questão.
É assim que resolvemos as coisas por aqui.

O sistema público de saúde do Brasil é um dos mais bonitos do mundo, ao menos no papel (basta dar uma lida na Constituição). Na vida real, na dor real, pessoas são tratadas como móveis, tudo arrumado de acordo com a vontade e disposição de quem as recebe. É uma inversão de valores absurda: o sistema deveria se adequar às necessidades, não as necessidades se adequarem ao sistema.
Todos que usam o sistema público de saúde têm que se adaptar à agenda apertada dos médicos e seus atrasos, os prazos sempre longos de nunca ter data disponível para o que seja!

Antónia se descobriu com câncer no seio. Como era pobre, procurou atendimento em hospital de ponta de Belém, mas hospital público. Minha mãe ajudou no que podia: “pelo SUS só vai ter data para exame no mês que vem”, então minha mãe ia e pagava o exame; “não tem data para consulta com oncologista”, ou nem tem oncologista, então minha mãe ia e pagava a consulta particular com oncologista. E assim fomos caminhando, tudo tão difícil, tudo tão complicado.
No hospital de ponta nada parecia funcionar. A triagem dos casos era feita, olhem só, por uma assistente social, não por um médico. Assistente social fazendo exame clínico e verificando quem deveria viver ou morrer, ainda mais diante de míseros quatro leitos disponíveis.

Nos revoltamos com tudo que não funcionava e fomos para o ataque: pegamos no pé do Ministério Público, que prontamente entrou com uma Ação Civil Pública pedindo informações sobre as denúncias - e instando o judiciário a fazer o sistema funcionar. Minha mãe, que regularmente escreve no jornal O Liberal, fez duro artigo sobre o drama – e olhem como se faz uma mágica: artigo publicado no domingo, seguido de telefonema do hospital de ponta na segunda-feira informando que Antónia deveria comparecer já na terça-feira, com documentos e o que mais fosse necessário para sua internação, pois iria ser operada na quarta-feira seguinte. Do nada tudo ficou célere, tudo virou rapidez e eficiência. 

Antónia foi operada na quarta-feira, mas morreu. Já estava tão fraca, tão cansada de tudo, das humilhações diárias nas filas do hospital, do menosprezo de pessoa que viam seu seio inchado, enorme, e diziam que não era nada – as mesmas pessoas que diziam haver outros em situação pior, que ela deixasse de frescura - que simplesmente não aguentou a operação.
A palavra “câncer” é oriunda do latim câncer, “caranguejo”. Uma referência à proliferação sorrateira e covarde de células cancerosas no organismo (metástase), tal qual o animal que se movimento nas profundezas da lama.
Sobre Antónia, que foi tratada como lixo, que morreu ontem no final da noite, vou ser breve porque Antónia foi muito e não cabe neste texto.
Chegou em casa grávida, tudo escondido, pois por conta da gravidez foi chutada da casa onde trabalhava anteriormente. Quando minha mãe e avó descobriram, ela chorou, implorou por piedade, e que precisava de um teto para o filho que ia nascer.
E aí surgem as ironias da vida: nós demos um simples teto, enquanto Antónia nos deu um novo sentido de família. Fizemos o enxoval dela, e foi minha mãe quem, num fusca verde e velho que tínhamos, acompanhou Antónia no dia que nasceu Luciana, na Santa Casa de Misericórdia. Minha mãe e avó se revezando na beira da cama ajudando no que fosse, enquanto eu e meu irmão esperávamos em casa, ansiosos por receber aquela que considero uma irmã. Luciana cresceu conosco e fomos muito felizes em brincadeiras mil – e hoje Luciana é advogada, formada e concursada, indo contra pessoas que ousaram dizer “desiste disso, Luciana. Filha de empregada não vira doutora”. 
Antónia não gostou de ouvir isso: trabalhou dois turnos, as vezes três turnos, tudo para pagar livros e cursos para a filha. Muitas vezes dormia menos de três horas por noite, tudo para oferecer o melhor para a filha – e eram só as duas.  Ela nunca saiu de perto da gente, mesmo quando minha mãe deu a ela uma casa – e meus filhos têm verdadeira adoração por ela, assim como ela tinha por eles.
Antónia não cabe aqui, então paro aqui.

E que tenham força para lutar, e que consigam esperar, aqueles que não têm voz e que não são enxergados pelo Ministério Público, e que ficam à mercê do julgamento de uma assistente social para saber se terão chances ou não de sobreviver.

O que se fez do Brasil?
O que se fez do sistema de saúde pública do Brasil que deixa que se matem brasileiros?
Cada um deles, cada um desses invisíveis, é toda a importância do mundo para alguém.
Antónia morreu na UTI do hospital de ponta somente por causa do artigo de domingo. Se não fosse por isso, ainda estaria esperando, acompanhando o crescimento a olhos vistos do tumor que já nem a permitia respirar direito.
Antónia era amada e era querida, era o nosso chão.
Perdemos nosso chão.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Tive uma ideia?

Geralmente faço curtas resenhas sobre os discos que temos aqui, mas tudo no Instagram. Resolvi fazê-las aqui, disponibilizando as músicas para dauloudi. Que acham?

domingo, 14 de abril de 2013

2013 - Confissões de uma Ateu Budista

Confissões de um Ateu Budista, de Stephen Batchelor, Editora Pensamento, São Paulo, 2012, 352 páginas.

O título do livro é auto-explicativo: um jovem inglês, na ânsia de se descobrir, parte para o Oriente e conhece o budismo. Apaixonado pela filosofia que se apresenta, acaba virando monge e assim viva durante longos anos - até perceber que não concorda com vários pontos da doutrina de Buda. A partir desse momento, sem deixar de lado tudo que havia aprendido, parte em busca de saber quem foi realmente Buda, não a figura mítica apresentada no Cânone Pali, mas sim o personagem real e histórico que gerou verdadeira revolução que perdura até hoje.
Sempre estive certo da seguinte verdade: se religiões precisam de um Deus, o budismo não é religião - e se o budismo é religião, religiões não precisam de deuses. Apesar disso, da afirmação de que não há um Deus no budismo (e Buda não é um Deus, mas sim alguém que alcançou a iluminação - Buda = Despertado em sânscrito), é fato que existem diversas divindades, espíritos e seres que habitariam um outro mundo. Stephen Batchelor então mostra seu ceticismo em relação aos pontos mais místicos do budismo e, neste livro, mostra ser possível a existência de um ateu budista - no sentido daquele que não crê nesses pontos sobrenaturais.
Uma leitura prazerosa e calma, que exige do leitor muita atenção por conta das inúmeras referências históricas - em alguns pontos fiz até um esquema, acreditem, para facilitar a leitura.

Livro 1.