terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Por quem os sinos dobram


“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte dos teus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade. E por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti“
John Donne

sábado, 4 de dezembro de 2010

Sobre os veados

Uma das grandes serventias da ciência é responder grandes questionamentos da humanidade. Por exemplo, pesquisadores do Departamento de Pesca e Recursos de Vida Selvagem do Kentucky, EUA, acabam de explicar porque veados ficam parados ao ver farol de carro: "Os veados são crepusculares". Ou seja: veados começam a ter maior atividade cerca de uma hora antes do anoitecer, até uma hora depois do amanhecer. Por conta desse horário, os veados têm a visão otimizada com pouca luz. Assim, quando a luz de um farol atinge os olhos que estão completamente dilatados, os veados não conseguem enxergar nada, e eles simplesmente "congelam" até que seus olhos possam se adaptar. "Eles não sabem o que fazer, então não fazem nada" explica o biólogo David Yancy.
Exemplo de como veados
podem ser cegos
Ainda segundo Yancy, para os padrões humanos, veados são completamente cegos. A cegueira, e o fato de serem crepusculares, explica a grande quantidade de colisões entre carros e veados nos EUA - que atinge o ápice na temporada de reprodução, quando machos ceguetas se deslocam em busca de fêmeas receptivas.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Traficante tem direito? (complemento)

Apenas complementando a postagem anterior, acabo de ler a seguinte matéria: São Paulo arrecada R$ 1milhão em leilão de bens de traficantes. 
O Estado de São Paulo já realizou três leilões desse tipo, arrecadando R$ 1,85 milhões, tudo isso entre 2007 e 2010. Dos 218 itens leiloados neste 4º Leilão, somente uma aeronave não foi arrematada, pois nenhum lance chegou perto do valor mínimo de R$ 25 mil.
Os valores arrecadados nestes leilões são destinados à política de combate, prevenção e tratamento ao uso de drogas e recolhidos ao Fundo Nacional Antidrogas (Funad), com distribuição de 80% para o Estado de São Paulo e 20% para o governo federal.
Já no Rio de Janeiro, os bens que poderiam significar incremento no combate ao crime e no incremento de políticas públicas de combate ao uso de drogas se perdem sem que ninguém faça nada.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Traficante tem direito?

Foi um verdadeiro descalabro. De repente os traficantes que eram os donos dos morros cariocas se viram em plena fuga, corrida sorrateira para se esconder e escapar da cana. Muitos foram presos, outros se entregaram. Alguns ainda estão escondidos por ali, por lá, esperando para ver o que fazer. Mas todos eles, quase sem exceção, tiveram de abandonar uma vida inteira para trás - e uma vida inteira, breve vida, de traficante, geralmente significa muitos e caros bens materiais.
Uma foto que me surpreendeu, dentre outras tantas, era assim: o morro sendo ocupado pela Polícia e uns moleques se divertindo em uma piscina bem bonita, no que seria a luxuosa casa de um traficante. Logo imaginei: mas que coisa? O mundo acabando e os filhos do traficante se divertindo. Como assim?
Somente lendo o texto pude entender: a casa realmente era de um traficante. Mas as crianças que se divertiam na piscina, essas não pertenciam ao bandido. Eram crianças da comunidade que, junto com tantas outras pessoas, aproveitaram a fuga dos chefões e resolveram desfrutar do luxo. Acontece que aproveitar, nestes dias sem leis do Rio de Janeiro, não se limitou a banhos de piscina.
Li na coluna do Ricardo Setti que inúmeras residências, que pertenceriam a membros ativos do tráfico, foram limpadas com a rapidez dos que fazem coisa errado. Móveis foram levados, eletrodoméstico foram surrupiados. Até chuveiros, torneiras e maçanetas desapareceram. E diante disso tudo, o que fez o Estado? "Pior do que os saques, porém, foi a atitude de policiais civis e militares diante do que ocorria diante de seus olhos: absoluta indiferença. Comportavam-se como se nada estivesse acontecendo, muito menos crimes. Um deles chegou a dizer a um repórter da Globo: “Ah, o pessoal viu que era casa de vagabundo [forma pela qual normalmente os policiais se referem a criminosos] e começou a pegar as coisas”. Ele estava fardado, protegido por colete à prova de balas e portava uma metralhadora. Não esboçou um só gesto de autoridade, não moveu um só músculo."
Primeiro ponto: todos têm direitos estabelecidos em lei, sejam traficantes ou não. Em fuga ou presos, mortos ou vivos, o que pertence a eles deveria ter sido protegido pela polícia. Permitir que saques ocorram, somente por terem sido perpetrados contra bens de bandidos, não está correto.
Segundo ponto: se os bens foram adquiridos por meio de práticas ilícitas, deviam ter sido preservados pelo Poder Público para que, no futuro, pudessem servir como indenizações, et cetera.
Mas agora é tarde, Inês é morta. Os bens se perderam e muito vão passar um natal mais feliz e rico. Só resta à Polícia carioca requisitar filmagens e imagens para tentar identificar os saqueadores e tomar as devidas providências. Se quiserem, claro. Se quiserem.

Estive com Shiva e lembrei de você

Carta enviada ao amigo Toni em 1º de dezembro de 2010

"Querido Toni,

Ontem resolvi participar, como convidado, da equipe de corrida do Banco onde trabalho. Correr é algo que me dá bastante prazer, mas foi também um ato de educação. Eles viviam me convidando para, pelo menos, umas voltinhas, então achei educado aparecer. Assim, estava eu ontem paramentado como um queniano, pronto para dar umas voltas pela Praça da República perto das 19 horas de uma noite agradável. 

Havia chovido e o clima estava muito gostoso - além do que a praça, quase sempre deserta, se torna um convidativo lugar para fracassadas exibições físicas.

Quando cheguei, me deparei com um simpático grupo de senhoras e dois senhores, além do professor de corrida que o Banco contrata, um homem distinto e por diversas vezes campeão brasileiro de corrida. Começamos com uns alongamentos estranhos, uns movimentos que mais lembravam lúdicas danças circulares (adoro danças circulares e a palavra lúdica, só que não).

Depois de uma série de breves perguntas e de breve avaliação física, foi determinado pelo grande homem-professor que eu estava no mesmo nível que uma das senhoras que fazia parte do grupo, uma senhora magrinha e franzina, delicada a quase não poder mais.

Como era intruso, e ainda mais por uma questão de gentileza, fiquei calado e aceitei minha sina: ter de acompanhar aquela senhorinha quase empalhada, quase dormindo, pelos próximos 40 minutos ao redor da praça em trote engomado e vagaroso que seria verdadeiro exercício de paciência. Internamente, ria da bobagem estabelecida pelo professor, que eu, homem feito, no auge dos seus 32 anos de perfeita forma física e moral, pudesse estar no mesmo nível daquela semi-velhota que parecia mais interessada na sua casa, no seu sofá e no seu crochê. Me enchi com aquele espírito de superioridade que sempre está presente nas pessoas bestas e muito seguras de si, e então aceitei que deveria ser piedoso e tratar aquilo como algo normal. 

Se deveria acompanhar aquela senhorinha, pois ela estaria no mesmo nível que eu, que fizesse aquilo com respeito e piedade cristão (também adoro piedade cristã).
Fomos então para um imaginário ponto de largada e começamos a correr. Para meu espanto, a velhinha desandou a correr de tal forma, com tal velocidade, que mais parecia estar fugindo de alguém que pretendia roubar sua aposentadoria. E ela corria com uma gana, com uma determinação, que só me 
restou apertar o passo e tentar manter o mesmo ritmo. Deus sabe, somente ele e tu, como fiquei espantado com aquela situação, aquela mulher já quase empalhada que começou a correr, ela sim, como uma queniana que precisava daquela velocidade para poder, no final, comer. 

O mais difícil não foi acompanhá-la. O mais difícil foi acompanhá-la sem demonstrar que estava surpreso e quase me matando para fazê-lo. Eu fingia correr como se corresse desde criancinha, mas a verdade é que a cada volta, a cada reta percorrida, mais sentia todos os meus órgãos gritando de dor e pavor por aquele esforço inesperado.

O pior era manter a respiração adequada: no início consegui fazer barulhos aceitáveis, nada de muito vergonhoso para aquele homenzarrão de 32 anos que corria ao lado de uma velhinha. Ela sim parecia fazer aquilo desde criancinha. Depois de segunda volta não pude mais manter as aparências e comecei a respirar como um porco nervoso indo em direção ao abate. Primeiro foi meu nariz, que começou a fazer sons como se fosse um oboé, e que depois começou a fazer sons como um
pequenino trompete. Fim Fom, corria eu e fazia meu nariz, enquanto e senhora respirava como se acabasse de sair de um relaxante banho quente.

Depois, os sons começaram a sair pela boca, uns grunhidos involuntários provocados pelo ar que entrava de forma desordenada pela traquéia. Por fim, meu nariz e minha boca, conjuntamente com meu peito, passaram a atuar como orquestra sinfônica de sons escabrosos que certamente meteram medo na minha companheira de corrida (que vez ou outra olhava para o lado como se para verificar se eu estava bem, ou para se certificar de que eu não precisava de socorro imediato). 

Depois, começaram as dores nas pernas, nas articulações e na barriga - o que comumente chamamos de 'dor de viado'. Juro que pensei na morte e no fim dos meus dias, ou que não conseguiria dar mais um passo para acompanhar aquela velha tinhosa que parecia correr do Imundo.

Mesmo morrendo, praticamente nas últimas forças, decidi que meu orgulho não seria ferido naquele episódio e que manteria a chama de minha honra acesa. Olhei para a frente e mantive a respiração barulhenta e irregular, tal qual caldeira de antigo barco a vapor, e decidi que ficaria ao lado daquela pequena senhora, que agora não tinha nada de pequena ou de empalhada, mas sim a grandeza daqueles que superam seus limites com nobreza e sucesso. 

Foram cinco voltas ao redor da Praça da República, cinco voltas que representaram verdadeiro martírio. Somente para esclarecer, cada volta corresponde a uns 1.200 quilômetros, pelo que devo ter percorrido cerca de 6 quilômetros naquela noite - quase a somatória de tudo que já corri na vida. Na penúltima das voltas, já perto das 19 horas e 40 minutos, percebi que deveria parar ou meu corpo entraria em greve e se pararia por mim. 

Esperei que ela fosse encerrar a corrida ali, naquela quarta volta, e fui até diminuindo o ritmo à medida que nos aproximávamos da imaginária linha de chegada. Desgraça. A super-senhora impiedoso não só não parou, como aumentou o ritmo nesta quinta volta. Segui no ritmo enquanto os olhos latejavam, assim como os dedos da mão, o pescoço e a língua. Se aquela não fosse a última volta da mulher, certamente seria a minha, mas isso de uma forma definitiva e eterna.

Já de volta ao ponto de partida imaginário, percebendo que estava no fim, deixei o orgulho de lado, puro instinto de sobrevivência, e fiz sinal à simpática senhora dizendo que não poderia ir adiante. Ela deu um sorriso piedoso e caridoso e disse que também pararia, que me acompanharia, mas que não devíamos parar de forma abrupta. E foi assim que ela me convidou para mais uma volta caminhando, uma experiência única de auto conhecimento da dor que só me fez mais triste.
Felizmente, já no final de volta caminhada, pude ver o professor que já se alongava com o grupo, sinal de que aquela visita de cortesia estava terminando e eu poderia voltar para casa e dormir até a semana seguinte.

No final do alongamento o professor perguntou como havia sido, se o ritmo tinha permanecido bom, ao que ela respondeu que sim, que fizemos uma boa equipe (tão bondosa a aquela amável mulher) e que deveríamos continuar o treino juntos, caso eu fosse continuar. 

Decidimos que neste quinta-feira, meu segundo dia de treino, faria novamente par com aquela senhorinha, e que, desta vez, correríamos na rua acompanhando um grupo mais experiente. Já na hora de ir embora ela descobriu que moramos bem pertinho e logo me convidou para fazer o trajeto casa/Praça da República a pé, como um espécie de pré-aquecimento para a próxima corrida.

Educadamente aceite, mas realmente não sei se ainda terei forças físicas e morais de voltar à equipe.

Por hora tenho dificuldades para andar, sentar, deitar e respirar, e mesmo meus pensamentos estão meio truncados. Se estiver melhor até quinta-feira, quem sabe?, não volto para mais uma lição de humildade, respeito e auto conhecimento de limites e orgulhos.

Amigo, por hora ficamos sem abraços e beijos, pois qualquer um deles representaria grande dor neste momento delicado,

Fernando."