sexta-feira, 2 de abril de 2010
Palavra do Dia n.º 26
quinta-feira, 1 de abril de 2010
IND!CIAL

SERVIÇO:
Período: 04 de abril a 30 de maio de 2010.
Local: Centro Cultural SESC Boulevard e anexo. (Av. Boulevard Castilho França, nº 522/523).
Informações: 4005-9578
www.sesc-pa.com.br ou e–mail: sescboulevard@pa.sesc.com.br
Abertura: 04 de abril (domingo), às 18h, no prédio anexo.
Visitação: 05 de abril a 30 de maio, de terça a domingo.
Inscrições das Oficinas: Gerência do SESC Boulevard (Av. Assis de Vasconcelos, nº 359, 2º andar – sala 206)
PROGRAMAÇÃO GRATUITA
quarta-feira, 31 de março de 2010
"Luta, Substantivo Feminino"
Rose Nogueira - jornalista, presa em 1969, em São Paulo, onde vive hoje. "Sobe depressa, Miss Brasil", dizia o torturador enquanto me empurrava e beliscava minhas nádegas escada acima no Dops. Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os "40 dias" do parto. Riram mais ainda quando ele veio para cima de mim e abriu meu vestido. Segurei os seios, o leite escorreu. Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele (delegado Fleury) ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar de louco. O torturador zombava: "Esse leitinho o nenê não vai ter mais?".Izabel Fávero - professora, presa em 1970, em Nova Aurora (PR). Hoje, vive no Recife, onde é docente universitária: "Eu, meu companheiro e os pais dele fomos torturados a noite toda ali, um na frente do outro. Era muito choque elétrico. Fomos literalmente saqueados. Levaram tudo o que tínhamos: as economias do meu sogro, a roupa de cama e até o meu enxoval. No dia seguinte, eu e meu companheiro fomos torturados pelo capitão Júlio Cerdá Mendes e pelo tenente Mário Expedito Ostrovski. Foi pau de arara, choques elétricos, jogo de empurrar e ameaças de estupro. Eu estava grávida de dois meses, e eles estavam sabendo. No quinto dia, depois de muito choque, pau de arara, ameaça de estupro e insultos, eu abortei. Quando melhorei, voltaram a me torturar".Hecilda Fontelles Veiga - estudante de Ciências Sociais, presa em 1971, em Brasília. Hoje, vive em Belém, onde é professora da Universidade Federal do Pará. "Quando fui presa, minha barriga de cinco meses de gravidez já estava bem visível. Fui levada à delegacia da Polícia Federal, onde, diante da minha recusa em dar informações a respeito de meu marido, Paulo Fontelles, comecei a ouvir, sob socos e pontapés: 'Filho dessa raça não deve nascer'. Me colocaram na cadeira do dragão, bateram em meu rosto, pescoço, pernas, e fui submetida à 'tortura cientifica'. Da cadeira em que sentávamos saíam uns fios, que subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios. As sensações que aquilo provocava eram indescritíveis: calor, frio, asfixia. Aí, levaram-me ao hospital da Guarnição de Brasília, onde fiquei até o nascimento do Paulo. Nesse dia, para apressar as coisas, o médico, irritadíssimo, induziu o parto e fez o corte sem anestesia".Yara Spadini - assistente social presa em 1971, em São Paulo. Hoje, vive na mesma cidade, onde é professora aposentada da PUC. "Era muita gente em volta de mim. Um deles me deu pontapés e disse: 'Você, com essa cara de filha de Maria, é uma filha da puta'. E me dava chutes. Depois, me levaram para a sala de tortura. Aí, começaram a me dar choques direto da tomada no tornozelo. Eram choques seguidos no mesmo lugar".Inês Etienne Romeu - bancária, presa em São Paulo, em 1971. Hoje, vive em Belo Horizonte. "Fui conduzida para uma casa em Petrópolis. O dr. Roberto, um dos mais brutais torturadores, arrastou-me pelo chão, segurando-me pelos cabelos. Depois, tentou me estrangular e só me largou quando perdi os sentidos. Esbofetearam-me e deram-me pancadas na cabeça. Fui espancada várias vezes e levava choques elétricos na cabeça, nos pés, nas mãos e nos seios. O 'Márcio' invadia minha cela para 'examinar' meu ânus e verificar se o 'Camarão' havia praticado sodomia comigo. Esse mesmo 'Márcio' obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante esse período fui estuprada duas vezes pelo 'Camarão' e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros".Ignez Maria Raminger - estudante de Medicina Veterinária presa em 1970, em Porto Alegre, onde trabalha atualmente como técnica da Secretaria de Saúde. "Fui levada para o Dops, onde me submeteram a torturas como cadeira do dragão e pau de arara. Davam choques em várias partes do corpo, inclusive nos genitais. De violência sexual, só não houve cópula, mas metiam os dedos na minha vagina, enfiavam cassetete no ânus. Isso, além das obscenidades que falavam. Havia muita humilhação. E eu fui muito torturada, juntamente com o Gustavo [Buarque Schiller], porque descobriram que era meu companheiro".Dilea Frate - estudante de Jornalismo presa em 1975, em São Paulo. Hoje, vive no Rio de Janeiro, onde é jornalista e escritora. "Dois homens entraram em casa e me sequestraram, juntamente com meu marido, o jornalista Paulo Markun. No DOI-Codi de São Paulo, levei choques nas mãos, nos pés e nas orelhas, alguns tapas e socos. Num determinado momento, eles extrapolaram e, rindo, puseram fogo nos meus cabelos, que passavam da cintura".Cecília Coimbra - estudante de Psicologia presa em 1970, no Rio. Hoje, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais e professora de Psicologia da Universidade Federal Fluminense: "Os guardas que me levavam, frequentemente encapuzada, percebiam minha fragilidade e constantemente praticavam vários abusos sexuais contra mim. Os choques elétricos no meu corpo nu e molhado eram cada vez mais intensos. Me senti desintegrar: a bexiga e os esfíncteres sem nenhum controle. ?Isso não pode estar acontecendo: é um pesadelo? Eu não estou aqui??, pensei. Vi meus três irmãos no DOI-Codi/RJ. Sem nenhuma militância política, foram sequestrados em suas casas, presos e torturados".Maria Amélia de Almeida Teles - professora de educação artística presa em 1972, em São Paulo. Hoje é diretora da União de Mulheres de São Paulo. "Fomos levados diretamente para a Oban. Eu vi que quem comandava a operação do alto da escada era o coronel Ustra. Subi dois degraus e disse: 'Isso que vocês estão fazendo é um absurdo'. Ele disse: 'Foda-se, sua terrorista', e bateu no meu rosto. Eu rolei no pátio. Aí, fui agarrada e arrastada para dentro. Me amarraram na cadeira do dragão, nua, e me deram choque no ânus, na vagina, no umbigo, no seio, na boca, no ouvido. Fiquei nessa cadeira, nua, e os caras se esfregavam em mim, se masturbavam em cima de mim. Mas com certeza a pior tortura foi ver meus filhos entrando na sala quando eu estava na cadeira do dragão. Eu estava nua, toda urinada por conta dos choques".
terça-feira, 30 de março de 2010
Anos depois...
sexta-feira, 26 de março de 2010
Conheçam Irena Sendler

Em 1942 os nazistas criaram o que viria a ser chamado de Gueto de Varsóvia, um emaranhado de prédios sujos e infestado de pragas onde os judeus "pernoitavam" antes da decida derradeira ao inferno. O plano era mantê-los ali, à mercê do frio, da fome e de doenças, forma cruel e desumana de tentar diminuir a "demanda" rumo aos Campos da Morte.

Irena Sendler foi trabalhar no local mais perigoso e insalubre da Varsóvia e, como forma de solidariedade ao povo judeu, ao caminhar por entre os condenados, ostentava a mesma estrela de David que os marcava. Dentro do Gueto, Irena Sendler elegeu como sua missão salvar os mais vulneráveis à barbárie: as crianças.

Crianças judias no Gueto de Varsóvia
Assim, pôs-se em contato com famílias e entidades de fora do Gueto que aceitassem receber e proteger os pequenos judeus que seriam retirados de forma clandestina. Ao mesmo tempo, começou a propor às famílias a idéia. A pergunta que mais escutou foi: "Pode prometer que meu filho viverá?". Irena Sendler pensava: "O que podia prometer quando nem sequer sabia se eu conseguiria sair viva do Gueto". A única certeza era que permanecer ali significaria morte certa para todos, por algo que tinha de ser feito urgentemente.

E pensando no dia em que a Guerra terminaria, Irena Sendler manteve, por todo o tempo de seu trabalho, tal qual tesouro precioso, uma detalhada lista com as informações de todas as crianças retiradas: nome judeu, nome novo, família de origem e nova família ou instituição que as abrigava.
Irena Sendler retirou crianças do Gueto até 20 de outubro de 1943, quando foi descoberta e presa pela Gestapo. Levada para a Prisão de Pawiak, foi sistematicamente torturada e humilhada. Durante as contínuas sessões de tortura, Irena Sendler teve os ossos dos pés e das pernas quebrados e, mesmo assim, não revelou nenhum nome ou localização de crianças ou colaborador. Foi condenada à morte, mas acabou salva graças à intervenção de seus companheiros de luta: um oficial alemão, devidamente comprado pela resistência polonesa, ao lhe guiar para um "interrogatório extra", gritou em polaco - CORRA! E ela correu.

No dia seguinte seu nome constava na lista de poloneses executados, e, dada como morta, Irena Sendler pôde, com nome falso, continuar a fazer o bem possível até o fim da guerra.
Os nomes de seus pequenos judeus, ela havia enterrado em garrafas de vidro no quintal de uma vizinha, já prevendo o dia em que seria capturada. Terminada a guerra, a lista foi entregue a Adolfo Berman, primeiro presidente do Comitê de Salvação dos Judeus Sobreviventes, para que pudesse tentar encontrar as famílias e lhes entregar suas crianças. Infelizmente a maior parte das famílias tinha sucumbido nos campos nazistas, mas as identidades não se perderam.
Por conta da ocupação comunista da Polônia, a história de Irena Sendler não foi divulgada e nem era conhecida. Só foi revelada em 1999, quando quatro jovens americanas da região rural do Kansas, Estados Unidos, instigadas por um professor, começaram a pesquisar sobre a polonesa, com base em uma curta nota de jornal – “Os outros Schindler´s”. Para surpresa das estudantes, Irena Sendler estava viva e bem de saúde, com 90 anos, morando ainda na Polônia.

Estabeleceram contato, enviaram e recebera cartas, fotos, informações e documentos. Acabaram por escrever uma peça de teatro intitulada "A Vida num Pote de Vidro", que atravessou o país, alcançou o Canadá, a Europa e, finalmente, a própria Polônia. A história virou filme (O Coração Corajoso de Irena Sendler, 2009), infelizmente pouco conhecido e divulgado. Em 2001, quando houve o primeiro encontro das alunas com Irena Sendler, na Polônia, existia somente uma página na internet sobre ela; hoje são mais de 320 mil.


Em Novembro de 2003, o presidente polonês Aleksander Kwasniewski concedeu-lhe a mais alta distinção civil da Polônia: a Ordem da Águia Branca. Em 2007, foi condecorada com a Ordem do Sorriso, prêmio da ONU – a mais importante distinção concedida àqueles que buscam o bem de crianças de todo o mundo. Ainda em 2007, Irena Sendler foi apresentada como candidata para o prêmio Nobel da Paz pelo Governo da Polônia, iniciativa do presidente Lech Kaczynski apoiada pelo Estado de Israel e pela Organização de Sobreviventes do Holocausto. O prêmio, no entanto, foi dado ao ex-vice-presidente norte-americano Al Gore, por conta de um slide-show em powerpoint sobre o clima global.

Nenhuma honraria seria capaz de enaltecê-la o suficiente, e sem dúvida não precisou de reconhecimentos para validar sua coragem e amor. Somos nós que precisamos oferecer admiração e gratidão, pois no espelho de Irena Sendler, a despeito de todos os horrores de seu tempo, fica enaltecida a nossa própria humanidade. Lia Diskin.






